Kiznaiver

opening

O estúdio Trigger ataca novamente.

Uma Mistura Interessante

Kiznaiver é um anime que narra a vida de 7 colegas de escola que, a princípio, não se conhecem. Isso muda quando são raptados por uma organização secreta que os força a participar de um experimento estranho. Através de uma tecnologia chamada sistema Kizna, qualquer dor que um deles sinta passa a ser dividida e transmitida para os demais. Ou seja, se alguém se machuca, todos se machucam um pouco. Essa sinopse já dá dica de que Kiznaiver pertence a uma mistura incomum de gêneros, a saber, “slice of life”, comédia romântica e ficção científica. Ás vezes, vê-se um ou outro desses gêneros estar presente ao mesmo tempo na mesma história. Star Wars, por exemplo, é sobretudo ficção científica; no entanto, o romance entre Han Solo e Princesa Leia é uma parte importante do enredo. Nesse caso, todavia, admite-se que os dois gêneros estão lado a lado, mas, mesmo assim, eles não foram sintetizados realmente. A parte de ficção científica não é alterada pelo romance e vice-versa. O caso de Kiznaiver é diferente: nós nos deparamos com algo que ouso chamar de “comédia romântica científica”, em que o objeto de olhar científico são as relações emocionais entre os personagens. Resumindo, romance e ficção científica até costumam andar juntos, mas neste anime eles foram bem misturados. E é justamente essa síntese que dá ao anime o que lhe é único. Ambos os momentos mais marcantes e os problemas mais sérios que o anime possui se originam na interação entre o sistema Kizna e os relacionamentos e emoções dos personagens. O primeiro, típico de scifi, o segundo, típico de romcom.

Se os gêneros são vários, o tema central é um só: relacionamentos humanos — amizade e amor principalmente. Não existe comédia romântica que não tenha abordado esse tema, mas a pitada de scifi dá à Kiznaiver um diferencial. A série apresenta um um grupo carismático de personagens e suas relações e seus sentimnetos estão em foco — exatamente o que se esperaria de um slice of life –, mas tudo que acontece entre eles é visto também por um ponto de vista científico, ao mesmo tempo que é afetado pela presença do sistema Kizna. Assim, o anime apresenta um experimento, mas um experimento insólito, sobre amor. Então o anime nos dá coloca em duas perspectivas diferentes: (1) o convencional que toda comédia romântica mostra e (2) um científico que é focado no potencial do sistema Kizna e que vê a amizade dos personagens da mesma forma que bactérias são vistas em um microscópio. Esses dois pontos de vista nos dão a possibilidade de não só assistir à amizade se desenvolver, mas de ir além; fazer perguntas como “o que é amizade?” ou “vale a pena ter amigos?” e refletir sobre outros aspectos seus (por exemplo: como amizades começam, desevolvem-se e terminam, o que faz alguém ser amigo de outro alguém, etc). Em outras palavras, Kiznaiver tem um certo lado “metaromântico”. E explorar esse nível meta é uma possibilidade que a inclusão do sistema Kizna nos dá.

O sistema também cria outras tipos de oportunidades que os criadores do anime aproveitaram. Menciono primeiro os efeitos na estética. Nesta série, dor e outras coisas que não quero explicitamente citar (por serem spoilers) tornam-se audiovisual. Elas ganham cor, ganham som, ganham forma. Trilhas sonoras e outras téncicas visuais já fazem isso desde sempre, mas em Kiznaiver o sistema Kizna permite dar um passo além e mostrar essas coisas de maneira mais literal e palpável. É uma aplicação inteligente do princípio “show don’t tell” que só é possível graças ao sistema Kizna.

O lado humorístico do anime também é beneficiado. Se você riu ao assitir-lhe, riu provavelmente de alguma situação que envolvia o sistema Kizna; alguma consequência inesperada da transmissão de dores ou um interplay do sistema com os gênios dos personagens. É terreno fértil para situações cômicas.

Por outro lado, como eu já disse alguns parágrafos acima, o sistema Kizna e essa perspectiva fora do comum trazem seus desafios. Ao colocar algo — qualquer coisa que seja — “no microscópio”, segue-se inevitavelmente um processo de demistificação da coisa. Não há mágica na ciência, e, às vezes, essa mágica pode fazer falta a coisa que foi “cientificada”. No caso de Kiznaiver, essa coisa são os relacionamentos dos personagens. Se você fala do amor como se fosse algo especial, uma mágica que existe entre duas pessoas, torna-se difícil continuar pensando do mesmo jeito quando se começa a falar de hormônios e pressões evolucionárias, coisa que fazem parte da explicação científica do amor. É esse conflito que a dupla perpectiva do anime faz permear toda a história. Em segundo plano, o design dos personagens é comprometido. Se eles são fatores dentro de um experimento, eles precisam ser bem especificados e, fazendo isso, perde-se um pouco do nuance que eles poderiam ter. Alguns deles já se encaixam demais em certos estereótipos, um incentivo a mais para simplificá-los não ajuda.

Ainda assim, mesmo seus problemas diferenciam Kiznaiver de animes semelhantes; não deixam de fazê-lo uma experiência interessante de acompanhar. Pior seria se o defeito principal de Kiznaiver fosse ser a mesma coisa que a maioria dos slices of life são; fariam-no ser não apenas ruim, mas chato e previsível; defeitos dos quais Kiznaiver escapa.

Por fim, vale alertar algo antes do final da seção sem spoilers: não espere uma experiência semelhante a Kill la Kill ainda que ambas séries tenham sido produzidas pelo studo Trigger. KlK é bem mais ousado e marcante que Kiznaiver. O primeiro é explosivo tanto em suas qualidades quanto em seus defeitos, o segundo é bem mais pé no chão.

OBS: Tenho críticas severas a respeitos dos episódios finais desta série. Muito do que eu escrevi acima não vale para eles. Decidi não explorar isso a fundo nesta parte do texto por ser inevitável não dar spoilers; contudo, devoto algumas seções mais adiante para desenvolver essas críticas.

Há spoilers adiante.

Os Kiznaivers Menores

O foco da campanha de marketing desse anime foi, sem dúvida, o octeto principal de personagens: Katsuhira, Nori, Chidori, Tenga, Yuta, Nico, Honoka e Hisomu. Não é algo digno de muita surpresa, visto que eles são o que no anime mais se destaca à primeira vista. Seus visuais são vibrantes tanto quanto suas personalidades. E o próprio anime reenforça isso nos primeiros episódios dando alcunhas a cada um deles e dando ênfase às suas características mais singulares. Há também o fato de que é comum a slices of lifes ser “character-driven”, isto é, que o que mais tem destaque nessas séries são os personagens. Não obstante, dá para argumentar que Kiznaiver é plot-driven em vez de character-drivem, mas isso é debate para outra ocasião.

Sendo assim, eu estranhei bastante a maneira curta e grossa pela qual as apresentações de boa parte desses personagens foram conduzidas. Depois dos três primeiros episódios, não aprendemos nada de novo que seja significativo a respeito de, ao menos, quatro dos oito personagens (ou cinco, se você incluir Chidori nesse grupo. Ela é uma caso discutível; explorarei isso mais a frente). Tudo que é preciso saber a respeito de Nico, Tenga e Yuta é veiculado “expressamente” já no segundo episódio. A apresentação de Hisomu usa todo o terceiro, mas o tempo extra não o faz ser um personagem mais sofisticados que os outros três. No segundo episódio, eu arrisco dizer que os interesses de Nori, que deseja acelerar o experimento, e os interesses dos criadores do anime, que querem despachar logo o que é devido a esse quarteto menos importante, alinharam-se. Seguindo seu plano, Nori induz os Kiznaiver, sob pena de serem esmagados pelo desmoronamento de um prédio, a declarar seus segredos mais íntimos. Destarte, passamos a saber que Tenga tem medo de cachorros, que Nico não é tão excêntrica quanto parece e que Yuta era gordo quando fora mais novo. Ao fazer isso, em um espaço de 5 minutos, o anime detona qualquer chance de criar qualquer tipo de mistério que se centre nesses personagens. Não é possível por que a partir desse momento já sabemos tudo sobre eles. E, pior, “tudo sobre eles” se resume a uma frase curta — geralmente um segredo ridículo — para cada um. Acho que ter a impressão de que esse trio é simplório depois dessas apresentações é justificável. O caso de Hisomu leva mais tempo, mas, no fim, resume-se na fato de ele ser masoquista. Isso, por si só, é interessante, pois tem consequências significativas em uma história onde o sistema Kizna existe (“Quem teve a brilhant ideia de ligar um viciado em dor em um sistema que compartilha dor?”), mas o personagem do Hisomu em si não se beneficia, pois ele é apenas o veículo das piadas, e as piadas não o fazem ser um personagem mais profundo obviamente.

A situação desse quarteto parece ainda pior porque eles estão do lado de personagens que recebem um tratamento bem mais sofisticado nos episódios subsequentes. Dois episódios inteiros são dedicados a Honoka mais um ou outro teaser em anteriores (alucinações, pesadelos, frases enigmáticas etc). Katsuhira, no decorrer de toda a série, percorre um jornada de auto-conhecimento em que ele tenta descobrir os segredos do seus passado e mais sobre si mesmo. Nori é a personagem mais importante dos episódios finais. Seu passado, suas motivações, seus objetivos tornam-se o foco. Toda essa diligência contrasta mal com os segredos apressadamente declarados no segundo episódio. O raso parece mais raso quando está próximo do profundo.

A causa por trás dessas diferenças pode ser fácil de identificar. Basta aceitar que eles são cuadjuvantes e, portanto, são, simplesmente, menos importantes que os outros. São tão pouco importantes ao ponto de não justificar muito screentime. De acordo com essa hipótese, eles só estão ali para dar alívio cômico; ou para funcionar como dispositivos que avancem o enredo quando for necessário; ou ainda para “orbitar” os protagonistas e auxiliá-los nos seus problemas (isso parece se aplicar particularmente bem no caso de Hisomu). Porém, eu quero propor aqui, retomando o que foi mencionado na seção anterior, que a parte de ficção científica desta série agrava este problema em especial. Se os criadores não quisessem que esses personagens parecessem tão rasos, bastava ser mais vago nas suas apresentações, coisa que poderia dar combustível às imaginações dos espectadores; contudo, eles insistiram na “brincadeira dos segredos” e arruinaram qualquer chance de esconder a simplicidade desse quarteto. O que eu proponho é que razão por trás disso é o jeito que a série usa esses personagens. Nori parece enxergá-los como se fossem ratos de laboratório e quando executa seus planos os manipula maquiavelicamente. Yaamada faz a mesma coisa e é apenas Urushii que parece tratá-los com um pouco mais de respeito. Esse ponto de vista desumanizante é estendido ao expectador também, porque para que a série possa apresentar suas ideias sobre amizade, ela precisa fazer referência à uma situação padrão onde as variáveis estão bem especificadas. A situação é o “quadrado amoroso” do oitavo episódio onde explicações são dadas, diagramas desenhados, etc. Não havia chance desses personagem serem mais complexo, porque mais complexidade e nuance tornaria toda a situação difícil. “X gosta de Y que gosta de W que gosta de Z” só funciona com pessoas simplórias. Dentro da própria série, existem personagens como Katsuhira, Nori e Honoka cujos sentimentos não se explicam tão facilmente.

Honoka: Kiznaiver sem Kizna

O que é irônico a respeito do pequeno arco que explora o passado e os sentimentos de Honoka é que o sistema Kizna não participa significativamente do processo. Ao final do sexto episódio, ele é rejeitado quando o plano de Nori falha. E, além do fracasso, Katsuhira, ao encontrar-se com ela, revela a sua decepção pelo fato de Nori ter desrespeitado os sentimentos de Honoka com a sua missão. Depois disso, o sistema só aparece aqui ou ali para pontuar algum momento (o final na praia por exemplo) restrindo-se ao seu aspecto estético que mencionei na primeira seção.

Sem a interferência do sistema, a série usa métodos mais convencionais no sétimo episódio para estabelecer os laços emocionais entre Honoka e o resto dos Kiznaivers. Como o subtítulo sugere, esses momentos da história dão uma ideia de como esse anime seria se nenhum dos elementos introduzidos pelo gênero de ficção científica estivessem presentes. Por exemplo, o grupo aprende sobre o passado dela, sobre a morte de Ruru, que era sua amante e, possivelmente, amada, fazendo trabalho de detetive amador. Honoka também usa muita introspecção relembrando o seu passado e meditando sobre ele sem ser peturbada pelo sistema Kizna. Nem a matutação da garota, nem o trabalho de investigação são coisas que Nori induziu. Poderiam existir (e existem) em slices of life mais típicos.

Outro recurso que foi usado, mas que não é tão convencional, é a inclusão do mangá de Charles de Macking na história. Ele dá ensejo ao uso de certos paralelos (alguns visuais, outros no enredo), já que a história do mangá é a mesma história de Ruru e Honoka. Por exemplo, o avanço de Ruru sobre Honoka em um flashback encontra par no mangá (relação entre a professora e a aluna). O anime abusa disso isso visualmente em uma cena onde a câmera alterna rapidamente entre a memória de Honoka e os quadros do mangá; trata-se de um exemplo de excelente edição que cria uma cena memorável. O mangá também é usado no fim do arco. Através dele, Honoka finalmente descobre quais eram os sentimentos de Ruru. É a conclusão de todo o drama; e dá abertura para que Honoka aceite a amizade do resto dos Kiznaiver.

Outro aspecto importante é que Honoka é a única personagem que oferece uma resistência real à amizade imposta pelo sistema Kizna. É a única que não se abre aos avanços dos demais especialmente de Nico e Yuta. Os outros, nesta situação, têm muita a ganhar e pouco a perder. Se oferecem resistência, é por causa de motivos fúteis (reputação na escola no caso de Yuta por exemplo). Eles até podem estar enfrentando dificuldades aqui e ali impostas pelos Gomorins; mas a amizade não é culpada; na verdade, é a organização. Até esse momento, esses novos laços emocionais não oferecem nada de negativo; pelo contrário, é aceitando-os que os Kiznaivers continuam vivos e superam os obstáculos que encontram. E, como Nico enfaticamente menciona, é muito mais legal ter amigos do que não tê-los.

Honoka, todavia, tem boas razões para ser fria. Seus sentimentos por outra pessoa no passado — a única pessoa por quem os teve — só lhe trouxeram miséria. A questão é — formulando o problema da maneira menos edgy que eu consigo — “Do que adianta cultivar sentimentos por alguém se a qualquer momento essa pessoa pode sumir e destrui-los? Ou pior, convertê-los em ódio?” Esse é o dilema que Honoka têm em seu seio e que estende para toda série. No final do arco, ele é respondido pela própria Ruru no mangá. Mesmo que ela tivesse sido rejeitada, ela estimou seus sentimentos. Se Ruru, que estava numa posição muito pior, na qual ódio seria perfeitamente justificável, não fez isso, que idiota Honoka seria se tratasse assim seus sentimentos?

Honoka é uma das personagens mais robustas da série por uma série de razões: Primeiro, há todo o suspense criado em volta dela nos episódios iniciais. Segundo, a exposição do seu passado é bem feita: usando a justaposição com o mangá, com cenas memoráveis e com uma conclusão emocionante. Terceiro, seu dilema não se limita apenas a ela, mas é relevante para toda a série. Pode se criticar algo aqui e ali, mas é muito melhor do que o que foi desenvolvido ao redor dos “Kiznaivers Menores”.

Retroalimentação Positiva de Emoções Negativas

Eu gostaria de citar duas situações antes de comentar o que acontece no nono episódio desta série. A primeira situação é o típico momento culminante de uma comédia romântica colegial: mocinho finalmente ganha coragem e declara-se para mocinha, mas a mocinha não só não corresponde os sentimentos do mocinho, mas tem em mente que sua melhor amiga gosta do mocinho; a tal amiga vê o que acontece, sente-se traída e fica rancorosa; ao mesmo tempo, o mocinho também têm um amigo que gosta da amiga da mocinha e, ao ver a situação se desenrolar, também experimenta sentimentos conflitantes. De certa forma, esse tipo de situação pode ser compreendido como se fosse uma espécie de “reação em cadeira de emoções” em que um acontecimento — a declaração amorosa — serve de ignição para uma situação explosiva. Praticamente, todo romance têm um clímax que segue essas linhas gerais. Kiznaiver não é diferente. Ao contrário, é exemplar nesse aspecto.

A outra situação que eu quero mencionar é um fenômeno físico que ocorre quando um microfone é aproximado de uma caixa de som à qual ele está conectado. O resultado é um som alto agudíssimo insuportável bem conhecido; o nome disso é feedback (realimentação no jargão português).

Ora, o momento mais marcante, mais icônico, que mais impressiona, de todo anime é o final do nono episódio onde situação I e II se combinam. Nele, as emoções são o nosso som insuportável; o microfone é o sistema Kizna. E a reação em cadeia de sentimentos deixa de ser figurativa e torna-se literal. Trata-se um show pirotécnico de emoções retroalimentadas; coisa que só pôde existir por causa do sistema Kizna. Ele faz a típica situação culminante de uma comédia romântica transformar-se um espetáculo audiovisual e, ao fazer isso, faz a dinâmica sentimental entre os personagens ser muito mais impactante e muito mais palpável. A hipocrisia de certos personagens, por exemplo, é escancarada, visto que seja lá qual for a maneira que eles se sentem por causa de uma injustiçã, eles sentem imediatamente que estão causando os mesmos sentimentos negativos e a mesma injustiça em outro do seus amigos. Isso realmente me impressionou.

Neste momento, eu pensei que tinha me deparado com uma situação semelhante ao sétimo episódio de Gurren Lagann, isto é, um momento de mudança de paradigmas no qual o anime iria “começar de verdade”. O sistema Kizna até esse ponto teve bons momentos, sejam cômicos, sejam estéticos, mas ele não havia brilhado tanto quanto ele brilha no paroxismo desse episódio. Para usar uma metáfora melodramática, é uma sinfonia de sentimentos e conflitos humanos tocada através do sistema Kizna.

Entretanto, nada do que se aconteceu nos episódios seguintes correspondeu às minhas espectativas. Os Kiznaivers se isolam e mitigam os efeitos do sistema até o final do seu prazo de funcionamento. O anime, então, toma uma direção que me deixou contrariado. Resta agora explicar porque eu penso assim.

Nori e Katsuhira: perguntas e respostas

Eu disse antes que uma das melhores qualidades do personagem da Honoka é o fato de que seu dilema sobre amizade não é exclusivo a ela, mas é um problema para todos. De fato, é a cereja no bolo do nono episódio no qual ela se arrepende de ter tentado formar novos laços de amizade vendo (e sentindo) a tragédia emocional que se desenrolara naquele momento. Contudo, não é Honoka que leva consigo a questão mais importante a ser resolvida. Essa honra pertence a Nori. E, por sua vez, essa é a razão do porque ela, a partir do décimo episódio, torna-se o centro das atenções, ao mesmo tempo que o sistema Kizna sai de cena. Nori entra em uma crise e tenta salvar a todo custo o projeto Kizna; entretanto, ela está errada e precisa ser salva.

Paralelamente, acontece o desenvolvimento de Katsuhira, que está intimamente ligado a questão principal do anime. É ele, afinal, que não tem ideia de como formar laços emocionais e que também menos sabe o que é amizade. Eu disse acima que o anime explora a questão “o que é amizade?”, o autor dessa pergunta e aquele mais interessado na resposta é Katsuhira. Atrelado a essa investigação, há outra paralela sobre o seu passado. As duas estão conectadas porque uma ajuda a descobrir a resposta da outra.

O final do anime, então, é um choque entre esses dois personagens. A personagem que mais precisa saber o que é amizade e o personagem que passou a série inteira tentando descobrir a resposta. Ora, o final é previsível: juntinhos na ponte, Katsuhira finalmente se declara (seus sentimentos e a resposta ao problema) e ao se declarar destrói a cisma que Nori tinha dentro de si.

Ora, então qual é o problema? Será que não estou sendo injusto com o anime? Parece uma ótima conclusão a princípio. Digo, então, que o diabo está nos detalhes. Vamos a eles.

Se você for um pouco mais cínico ao analisar o arco de Honoka, pode sair achando que o problema dela é coisa de adolescente emo. Algo saído de uma letra de My Chemical Romance, imcompatível com uma personagem que suspostamente é mais séria que o resto dos palhaços. O contrargumento mais óbvio a isso é que há uma morte no meio da história e isso por si só lhe dá mais gravidade. Realmente, a opinião de Honoka é bastante emo, mas ela se justifica pelo fato de que ela perdeu seu primeiro amor tragicamente. É um trauma bastante emo, mas não deixa de ser um trauma. Além disso, Honoka é uma cuadjuvante, dá para deixar passar.

Um detalhe extra sobre Honoka é que o seu dilema é particular. Ela é traumatizada, mas para quem não é, tudo isso é irrelevante. É bom que ela seja capaz de se abrir depois de tudo que aconteceu a ela. No entanto, as resposta dela não serve para os outros. Integrar Honoka aos Kiznaiver foi um desafio, mas nada pode ser reaproveitado para o resto dos problemas. “O que é amizade?” e “Vale a pena ter amigos?” são pergunta universais, a resposta de Honoka é particular e muito específica.

No caso de Nori, essas exceções não se aplicam. Ela têm uma posição central na história e isso a enche de responsabilidade. Ela concentra em si toda a atenção, pois é o quebra-cabeça a se resolver, o teste final, antagonista e, ao mesmo tempo, amada de Katsuhira.

Sendo assim, quem é Nori no fim das contas? Qual a cisma que ela tem consigo? Eis a minha tentativa de análise dela: Nori segue as linha de um arquétipo razoavelmente incomum: o altruísta egoísta. Também já vi chamá-lo de “figura leonina”. Geralmente se trata de um rei ou de um líder que tem comando e responsabilidade sobre seus próximos. O “leão” é um líder extremamente bondoso que faz tudo ao seu alcance para o bem dos seus subordinados. Se a marca de um tirano é o seu egoísmo excessivo, o “rei leão” é o seu oposto; nunca pensa em si mesmo. Contudo, por mais bom que seja, esse personagem costuma ter um fim trágico. Ele está tão preocupado com os seus seguidores que ele começa a isolá-los de todo tipo de dano ou de mal que poderia afetá-los. Contudo, sofrimento e exposição ao mal são partes essencias da vida de um ser humano. Uma pessoa que nunca sofreu não conhece todo o espectro que uma vida humana têm a oferecer. Então, ao protegê-los excessivamente, o altruísta egoísta transforma seus entes queridos em algo menos que um ser humano, ao mesmo tempo que ele próprio, ao absorver todo o mal, também compromete sua humanidade. O resultado final é miserável: subordinados indolentes superprotegidos e um rei caído da graça que carrega dentro de si um sofrimento inimaginável. Ás vezes, — talvez isto não se aplique a Nori — a causa por trás disso é um tipo irônico de egoísmo. O altruísta egoísta não quer realmente o que é melhor para os seus súditos, mas aquilo que os faz amá-lo e admirá-lo mais. Alternativamente, o altruísta verdadeiro faz apenas o bem, independente se gostam dele ou não, ou se suas ações são reconhecidas ou não. É dessa diferença que o nome aparentemente contraditório “altruísta egoísta” vêm.

Nori encaixa-se bem nesse arquétipo. Ela absorve as dores dos outros e concentra tudo em si literalmente através do sistema Kizna, ao fazer isso cega-se para o fato de os seus amigos terem se tornado vegetais. Ela os priva da dor necessária que fá-los-ia ser plenos seres humanos. Além disso, ela está tão entreicherada na sua obsessão a ponto de ser incapaz de ver o que está fazendo, perseguindo uma memória do passado que ela mesma, de certa forma, fora a responsável pela destruição.

O personagem em si não é ruim. Pelo contrário, seria perfeito em outro contexto, mas no presente ela infelizmente não adequa bem. Como eu disse, ela deveria ser o final boss que seria derrotado por Katsuhira com o poder de toda a experiência que acumulara nas últimas semanas. Porém, o drama dela é ainda mais particular e excepcional que o de Honoka. Os problemas da loira são relevantes para adolescentes emos, mas não existem muitos “altruísta egoístas” por aí que precisem ser tratados.

Outro aspecto é que Nori propaga uma espécie de ideologia nos episódios finais que não é compatível com a própria situação dela, nem com as situações anteriores da série. Ela quer conectar a dor de todo mundo ao sistema Kizna; contudo, o que ela realmente busca é a reprodução da situação agradável que ela guarda em suas memórias. Logo, a ideologia que ela declara nos carros de som dos dark gomorins nunca é levada a sério, visto que a própria idéologa-mor se contradiz.

Nori, portanto, não carrega um desafio digno de ser o ponto culminante da aventura filosófica de Katsuhira. Tudo que ele precisa fazer é informá-la de que ela é uma imbecil e de que, provavelmente, seu plano vai criar milhares de vegetais iguaizinhos aos seus amigos queridos. Eu sei que Katsuhira era para ser o imbecil, mas as ações de Nori são muito mais sem pé nem cabeça. Salvando-a, Katsuhira faz algo bonito e emocionante, mas que começa e acaba em Nori, visto que ela é um ponto extremamente fora da curva. Um problema tão específico, tão insólito, tão fora da realidade, que não oferece a mínima dica para a solução dos questionamentos mais universais apresentados em episódios anteriores da série.

E mesmo que Nori fosse um desafio relevante, Katsuhira também deixa a deseja. Ele não fez a sua parte. Passa episódios inteiros pensando, pensando e pensando, mas é incapaz de chegar numa resposta contundente. Até os episódios finais, Kiznaiver mostra amizade não com palavras, mas com imagens e situações, seguindo “show don’t tell” a risca. Ao fazer isso, o anime age de acordo com a ideia de que amizade é algo mais para ver e sentir do que para pensar sobre; chegando a tomar uma posição meio contraditória nos episódios finais: a de que o sistema Kizna, o troço mais único deste anime, foi irrelevante para a formação da amizade entre eles.

O problema é que o “show don’t tell” é abandonado nesse ponto. Há, simplesmente, muito diálogo nos episódios finais. Argumentações extensas que contrastam mal com o bom uso de recursos audiovisuais que as precedem. O passado de Honoka, por exemplo, é contado com justaposições e truques de edição. Há o diálogo entre os Kiznaivers e os pais de Ruru; contudo, de certa forma, o cenário dessa cena é muito mais efetivo em explicar a situação (fotos de Ruru por todo lugar, mãe depressiva, pai rezando, etc) do que qualquer coisa que é dita. Por sua vez, boa parte do décimo episódio é uma explicação longa e monótona sobre o passado de Nori. É triste que todo o teasing sobre o passado de Nori e Katsuhira feito em episódios anteriores culmine em uma aula da professora Urushii. No décimo primeiro episódio, Katsuhira junta a gangue e faz um discurso para tentar explicar suas ideias. A ironia é que diálogo excessivo acaba por seu contraprodutivo para os objetivos do anime. Às vezes, há tanto diálogo que se passa a impressão de que o anime está tentando nos enrolar. Eu sinto isso principalmente, na altercação final entre Katsuhira e Nori na ponto, onde parece que eles falam sem parar, por não saber direito o que dizer. Se o anime soubesse o que dizer, que fosse espartano na sua exposição, curto e contundente. Alternativamente, eles poderiam ter persistido no bom uso do “show don’t tell” que precede os episódios finais. Mostra em vez de dizer.

E essa série tem coisas interessantes a dizer. Por exemplo, há outra altruísta egoísta: Chidori. Ela fez sempre tudo o que estava ao seu alcance para proteger Katsuhira, mas por trás dessas boas intenções, ela secretamente gostava de ser a única com a qual ele compartilhava esses momentos. E, paradoxalmente, mesmo que o protegesse, ela desejava que as dificuldades nunca fossem superadas porque assim não haveria mais necessidade de proteção (consequentemente, não haveria necessidade para ela). Esse egoísmo de Chidori evolui tanto no passar dos episódios a ponto de fazê-la ser incapaz de enxergar a situação fora do seu mundinho. Ela se vitimiza, quando na verdade causa tanto mal a Tenga, quanto Katsuhira causou a ela. Se Chidori termina a série sendo uma pessoa melhor que no começo, é porque agora ela entende tudo isso. Reconhece o seu egoísmo que só esses conflitos interpessoais foram capazes de revelar. Assim sendo, Chidori, com apenas umas cenas esporádicas, apresenta uma ideia sobre amizade muito mais universal do que Nori e Honoka, sem precisar de flashbacks ou episódios inteiros de exposição. O experimento do sistema Kizna para ela (e para nós) é proveitoso, pois destaca esse aspecto da amizade que teria se mantido ocultos caso nada tivesse acontecido.

Nori, assim, perde em todos os critérios para outras personagens. Em termos de storytelling e direção, perde para Honoka. Em termos de relevância da mensagem, perde para Chidori.

Um dos criadores comenta no episódio zero que o anime é oportuno para a nossa época e nossa sociedade porque muitas pessoas atualmente tem apenas amigos virtuais; só que essas amizades, na opinião dele, não são “o real deal”, que é algo muito maior e mais bonito e que oferece muito mais para o crescimento pessoal de uma pessoa que seus contatos no facebook. O anime serviria para que essas pessoas descobrissem isso (amizade de verdade). E, de fato, a maioria dos personagens depois da aventura tornam-se pessoas melhores. Chidori é o exemplo mais nítido, mas o resto também fica menos mesquinho do que era antes. O problema é que os personagens mais importantes, Nori e Katsuhira, aqueles que estão no centro da série e que deveriam levar consigo os pontos mais importantes, não os possuem. Em suma, Katsuhira não precisou chegar às respostas, porque Nori nunca lhe ofereceu uma boa pergunta. Uma lástima, porque o anime têm a infraestrutura perfeita para explorar essas questões, mas a abandonou no começo do décimo episódio.

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Uma resposta para Kiznaiver

  1. Madoka box. disse:

    Não deixem esse blog morrer.

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