Romance Dawn (One Piece – Parte 1)

Romance Dawn, que belo nome para se iniciar a trama. Nela já está contida a proposta de uma obra imensa, muito longa, talvez não tão longa como tenha se tornado, mas certamente já bastante longa em seu germe. E alguém se propor a algo tão exigente por si só já denota ser um autor enérgico, motivado a deixar um legado. Pois bem, talvez hoje, 2022, seja mais ou menos o anoitecer (ou já durante a noite) do romance, e é bom momento para voltar ao amanhecer e correr o dia.

Romance Dawn é o capítulo 1 da obra, resultado do one-shot que a gera. Também foi tema de dois one-shots anteriores, hoje conhecidos como Versão 1 e Versão 2, respectivamente. A Versão 1 tem até alguns elementos que aparecem na terceira e definitiva, como Shanks, mas a 2 é bem diferente, e tem algo a oferecer para entender, por oposição, a versão definitiva.

Na versão 2, que não muitos anos atrás foi animada e exibida como episódio 907 do anime, traz um Luffy envolvido em aventura em barco pirata comandado por um sujeito que aparenta ter poderes mágicos e está atrás de um pássaro misterioso. A dona e parceira do pássaro é Anne, uma Nami de cabelos azuis, mas basicamente com uma personalidade bastante similar. A trama é bastante simples, convencional, e pouco criativa, parece um filler genérico do anime, mas traz informações interessantes.

Uma delas é o diálogo entre Luffy e Anne, na qual o protagonista explica que é um pirata, mas um ‘peace main’, que é diferente de um ‘morganeer’. Os primeiros são piratas aventureiros em busca de emoção, os segundos os piratas típicos saqueadores que a cultura popular já conhece. Esta distinção, que já havia sido mencionada na Versão 1, inexiste na série definitiva, e é louvável, porque explica uma escolha narrativa menos previsível do Oda. Ora, dividir piratas entre tipos ‘bons’ e ‘maus’ é superficial demais, e a opção do autor em praticamente ter apenas piratas mesclados entre os dois tipos é bem mais instigante. Mesmo figuras como Kaido, Teach, Big Mom, Crocodile e outros dificilmente podem ser chamados de ‘morganeer’, pois também eles possuem elementos evidentes de ‘peace main’.

Por outro lado esta distinção parece se aplicar perfeitamente à Luffy e sua tripulação, porque dificilmente é possível dizer que algum deles tenha qualquer traço de ‘morganeer’. Basicamente esta distinção abandonada ajuda a explicar a opção de Oda por fazer a tripulação principal ser toda de ‘peace main’, mas todos os demais piratas da trama serem tipos mesclados, sem que tenha sido introduzido ainda um ‘morganeer’ típico. Talvez os mais próximos desse segundo tipo sejam Klahadore e o próprio vilão de Romance Dawn, derrotado por Shanks, ainda que este não seja, tecnicamente, um pirata, mas um líder de bandidos da montanha. E mesmo esta percepção é importante, porque se os personagens mais próximos de um ‘morganeer’ são do início da história é sinal de que em primeiro momento mesmo implicitamente Oda carregava esta distinção, mas que foi paulatinamente abandonada com o desenvolvimento da trama.

A superação da distinção superficial entre tipos de piratas demonstra uma escolha por construir um mundo ambíguo, em que os personagens não são todos catalogados facilmente, ficando apenas a tripulação principal e seus aliados como exemplos de integridade e caráter. Basicamente os chapéus de palha são os pilares morais da obra, e todo o restante do mundo pirata navegando em águas transitórias entre valores antagônicos e contraditórios. Neste aspecto One Piece participa de um processo que vem ocorrendo há alguns anos no mundo dos mangás e animes battle shounen, que é a recusa a fazer tramas, mundos e personagens excessivamente estereotipados como ‘bem’ e ‘mal’. Kimetsu no Yaiba, Jujutsu Kaisen são exemplos contemporâneos de resultados desse processo, que começaram a ser construídos por One Piece, Naruto, Bleach e outros, e que tem provavelmente em HunterxHunter o seu grande representante.

O momento mais definidor da versão última de Romance Dawn que consagra esta mudança é quando a tripulação de Shanks mata integrantes dos piratas inimigos que estavam importunando Luffy. Shanks, o exemplo de pirata para Lufft, se necessário mata, se necessário age como qualquer pirata violento. Shanks não é peace main, não é pacifista, se necessário, ele mata sem titubear. E aqui vale mais reflexões.

A versão 2 não tem Shanks, mas o próprio avô de Luffy como pirata exemplo deixando com ele o ‘seu tesouro’, o famoso chapéu. A versão definitiva tem Shanks, que não é um pai, avô, nem qualquer familiar. Portanto, Oda desiste da ideia de Luffy seguir o caminho da família. Ao colocar um outro personagem como herói e exemplo de Luffy, Oda opta por deixar claro que Luffy é um novo herói, que não precisa percorrer nenhum caminho pré-determinado pela sua própria família. Na obra isto fica claro quando sabemos que seu pai é um revolucionário em tom político e seu avô, um marinheiro de alta patente. Luffy se afasta seja de um caminho, seja de outro.

Portanto, a versão definitiva deixa claro o abandono de ideias estereotipadas e superficiais demais e antecipam um mundo complexo que se desdobraria na trama.

Focando na última versão nela podemos sintetizar alguns elementos centrais que serão decisivos para toda a trama: a) Luffy como criança consciente de seu potencial; b) Shanks como exemplo na formação de Luffy; c) o valor dos ‘nakama’, d) o tesouro; e) as Akuma no Mi.

O item ‘A’ será desenvolvido melhor no próximo texto, quando ele deixar claro que será o Rei dos Piratas, mas já no capítulo 1 a criança Luffy é um menino difícil de ser educado por imenso em energia e ambição, ao ponto de ser difícil até para um herói como Shanks lidar com ele. Se fosse fácil Shanks não teria perdido um braço… Portanto, Luffy criança é já forte, corajoso, ambicioso, alguém que facilmente se destaca não apenas da multidão, mas dos melhores. Luffy criança é introduzido já como uma pessoa bastante especial, tal como fica explícito no ato de Shanks deixar com ele seu ‘chapéu favorito’, o famoso chapéu de palha.

O item B já foi abordado implicitamente no presente texto, e de resto basta explorá-lo em conjunto com o Item C. Por que Shanks é tão admirado por Luffy? Certamente também porque é forte, corajoso, aventureiro, livre, amado por todos, tem aquele ar de superioridade que faz parecer que tudo em que toca se torna heroico e superior. Ou seja, Shanks é dono do próprio mundo, e portanto, livre. Luffy parece amar esta conquista de liberdade que Shanks alcançou. Mas não apenas isto causa admiração em Luffy.

Shanks é seguido por uma tripulação admirável, forte, poderosa. Shanks tem poucos e valorosos, especiais companheiros. Shanks não tem uma tripulação enorme, mas poucos e poderosos companheiros, nakama. Shanks é um grande líder, capaz de constelar personagens complexos e habilidosos no seu entorno. Esta capacidade certamente move Luffy, e impacta o seu ideal de pirata, que é o de capitão com pequena, especializada e pujante tripulação. Shanks é forte, livre, carismático, líder. Eis o modelo que Luffy segue em seu próprio desenvolvimento. O que não significa que Luffy seja mero fã ou imitador, porque já em Romance Dawn, ao se separarem Luffy fala abertamente que um dia irá superá-lo. Portanto, Luffy admira Shanks, sem tratá-lo como ídolo. São coisas muito diferentes.

Aliás, aqui cabe uma interrogação interessante: por que Shanks não levou Luffy como tripulante? Isto porque Romance Dawn tem várias páginas com Luffy querendo ser levado na tripulação de Shanks, até ele mesmo desistir da ideia e se conscientizar de que formará a própria tripulação.

Dizer que Shanks considerava perigoso levá-lo é superficial, afinal ele mesmo foi levado por Gol D. Roger como criança nas viagens. E como isto foi apresentado por Buggy já em um dos primeiros volumes é de se supor que a ideia de Shanks ligado a Roger existisse já em Romance Dawn. Lembremos que as famosas palavras de Roger sobre o tesouro abrem o volume, não apenas o anime.

A minha suspeita é que Shanks sabia que Luffy seria uma figura única naquele universo, e que tenderia a ser livre e dono de si em todos os momentos. Shanks não via Luffy como tripulante de forma alguma, nem mesmo quando criança. Luffy queria ser capitão e precisaria ser capitão desde o início. Nesse sentido implicitamente Shanks já reconhece que Luffy irá a lugares que nem ele conseguiria ir. A passagem de chapéu é um rito simbólico de que reconhecia Luffy como alguém talvez predestinado a grandes feitos. Não sem razão a temática do predestinado voltou com força no recente arco de Wano.

Em relação ao tópico ‘Nakamas’, este certamente move grande parte da obra e é apresentado já na relação de Shanks com seus tripulantes e piratas. Shanks não se preocupa em ser humilhado por Higuma, mas quando este incomoda um amigo provoca a sua fúria. Shanks não se arrepende de sacrificar um braço para salvar um amigo, e ali não parece ser devido a Luffy ser especial, mas sim que Shanks o faria por qualquer amigo. De todo modo, na relação profunda que Shanks mantém com seus amigos e tripulação parece estar a origem da ideia de nakama, que tanto animará Luffy e sua tripulação. Shanks não se refere a Luffy como nakama, mas como amigo, mas estas atitudes de Shanks devem ter sido o modelo para Luffy sobre como liderar sua futura própria tripulação. Nakama não é apenas amigo, nem mesmo parceiro, é companheiro de viagem, companheiro de vida, alguém com quem você compartilha momentos de alegria e dor, conquistas e decepções, alguém por quem você se sacrificaria e também um alguém que se sacrificaria por você. Isto voltará a ser enfatizado no arco de Thriller Bark com o famoso momento de Zoro…

Portanto, os nakama são companheiros de uma longa, difícil, divertida viagem, também repleta de dificuldades, dores e desilusões.

Acerca dos últimos dois tópicos deixarei para comentar em outros momentos. Sobre a ideia de tesouro falarei quando chegarmos ao arco de Arlong Park, quando há o momento clássico da interação com Nami. Sobre akuma no mi no arco de Buggy.

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