A Ideologia Problemática de Stain

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A diferença entre um vilão cativante e um vilão ridículo.

Contém spoilers leves de Boku no Hero Academia.

Em Boku no Hero Academia, os dois primeiros vilões que se destacam são Shigaraki Tomura, aquele que invade o USJ a fim de assassinar All Mighty, e Stain, o assassino de heróis. Contudo, existem diferenças significativas entre os dois que o anime/mangá faz questão de enfatizar repetidas vezes. Tomura é um vilão que simplesmente quer destruir o que ele não gosta, isto é, All Mighty. Sua principal característica é imaturidade. Stain, por sua vez, é mostrado como seguidor dos princípios de uma ideologia. Esse contraste é usado como catalisador para o desenvolvimento (da maldade) de Tomura. O crianção percebe que Stain é capaz de atrair seguidores mais leais e causar admiração não só em outros vilões, mas até mesmo naqueles que não possuem inclinação para o crime. Apesar de os dois estarem no mesmo patamar de poder, Stain é muito mais popular do que Tomura.

É raro um autor procurar desenvolver seus vilões tanto quanto seus heróis, mas isso acontece em Boku no Hero Academia. Deku e Tomura seguem caminhos paralelos a fim de que possam crescer (no heroísmo e na vilania, respectivamente) para se tornarem dignos de suceder os seus mestres, All Mighty e All for One. Stain é uma etapa importante no desenvolvimento de Tomura, pois ele introduz o conceito de ideologia e demonstra como ela é crucial para motivar e atrair seguidores. Ser malvado e poderoso não é o suficiente, é preciso proporcionar direção e justificação ao que se faz. Sem isso, é muito difícil obter seguidores leais. Tomura compreende isso no decorrer da história, porém usa ideologia apenas como ferramenta. Na verdade, ele continua sendo cínico e egoísta, e não acredita nos princípios que proclama. Seu caso é bem diferente do de Stain que incorpora seus princípios nas suas ações e decisões.

Entretanto, há problemas na ideologia de Stain. O mangá mostra com competência as dinâmicas que existem no entorno de ideologias (motivação, seguidores, mártires, etc), porém, na minha opinião, falha na ideologia em si. Ela é superficial e apresenta muitas inconsistências. Algumas delas são evidenciadas no próprio comportamento do vilão.

Eis a minha tentativa de articular a ideologia de Stain em um único parágrafo: O mundo de Boku no Hero é um mundo de heróis, pois mais de 80% da população possui algum tipo de peculiaridade. Contudo, apesar de possuir uma quantidade gigantesca de heróis em potencial, poucos o são de fato. Ainda que muitos sejam heróis na carteira de trabalho, poucos são, com efeito, heroicos. A maioria é vã, pois busca fama, dinheiro e poder. Esses heróis egoístas e falsos, no ponto de vista de Stain, são uma vergonha e mancham o título de herói. Para o ideólogo, essas vaidades que os “heróis” mostram são motivo suficiente para justificar seus assassinatos. Heroísmo para Stain é sinônimo de sacrifício pessoal em prol do bem dos outros. E é unicamente isso e nada além disso. Fama, dinheiro e poder que são motivações para os heróis de Boku no Hero Academia, para Stain, não são apenas valores não-heróicos, eles corrompem e inviabilizam qualquer heroísmo. De certa forma, Stain é um super-moralista.

Todavia, no ponto de vista do leitor, pouco é mostrado durante a história que fortaleça o argumento de Stain. Eu sou capaz de identificar só dois personagens que se encaixam (mais ou menos) na crítica do ideólogo: Mt. Lady e Endeavor. Mt. Lady é uma heroína preguiçosa que busca intencionalmente a fama com os seus atos de heroísmo. Porém, ela é só uma coadjuvante e a vaidade dela não a atrapalha na hora H. Endeavor, por sua vez, faz tudo por poder, mas o seu comportamento não é desprezado apenas por Stain, mas por todos. Ainda que tenha salvado uma quantidade absurda de pessoas em sua carreira, poucos simpatizam com ele e o vêem como um herói modelo.

Além desses dois, não nos é mostrado mais ninguém a quem as críticas de Stain se apliquem. Para piorar a situação, Stain ataca personagens inocentes que preenchem os requisitos da sua definição de herói. Ingenium, o herói que foi atacado no estopim do arco, é exemplo disso. Ele era um herói de reputação imaculada e ele era o principal modelo de conduta de Ilda, um dos personagens mais importantes do mangá/anime. Stain, assim, não começa com o pé direito, pois ataca justamente aquilo que ele que ele professa.

Em um momento do arco da luta no beco, a crítica de Stain se aplica a Ilda. A motivação do jovem não era heroísmo, mas vingança pelo que foi feito ao seu irmão mais velho. Entretanto, Ilda percebe seu erro no meio da luta. Esse é um momento importante no desenvolvimento do personagem, porém faz com que o resto da luta tenha menos peso e elimina qualquer possível justificativa para Stain continuar atacando. É certo que mais tarde é revelado que Stain pegou leve com os heróis em treinamento, mas isso não é aparente durante a luta.

A maioria das ideologias é construída no entorno de uma verdade problemática. O comunismo na Rússia foi terrível, mas as critícas dos comunista ao regime czariano que os procedeu era válida. A Rússia imperial era pobre, sub-desenvolvida se comparada com o resto da Europa e profundamente desigual. São esses defeitos seríssimos que deram combustível indispensável ao discurso dos revolucionários. Toda ideologia para que tenha apelo precisa se fundamentar em um problema real. E, se em Boku no Hero Academia, o discurso de Stain parece vazio é porque esse problema nunca foi mostrado de maneira evidente. Essa vaidade dos heróis denunciada por Stain nunca é mostrada ao leitor. Por isso, é difícil levar a ideologia dele a sério e, sendo assim, perde-se a oportunidade de se criar vilões mais críveis, porque não vendo o que eles sentem, suas motivações nos parecem ser vazias e estúpidas.

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Uma resposta para A Ideologia Problemática de Stain

  1. Ruhan disse:

    Sempre pensei nisso. O arco do Stain é um dos mais aclamados por quem acompanha o mangá, mas a ideologia e motivações do vilão nunca me convenceram. E agora que você falou, ficou bem mais claro pra mim o que o autor deixou faltar.

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