N.H.K. ni Youkoso!

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E sinta-se em casa!

Parte I (Sem Spoilers)

Acredito que essa seja a minha primeira review de fato. Já fiz duas análises: uma a respeito de mangás de romance e outra a respeito do sistemas de questionários da Jump, mas fazer análise é diferente de fazer review. Numa análise, você quer entender algo e explicar para o seu leitor. Numa review você também quer fazer isso, mas, ao mesmo tempo, é obrigado a discutir a qualidade da obra e responder ao leitor se vale ou não a pena acompanhar aquilo.

Mesmo que se abstenha de dizer “eu (não) recomendo isso”, você ainda tem que dar informações suficientes ao leitor para que ele mesmo possa ser capaz de decidir se quer ou não acompanhar o título. Além disso, discutir qualidade é bem mais complicado que apontar e explicar coisas.

N.H.K. ni Youkoso! (Bem Vindo a N.H.K.!) também conhecida como Welcome to N.H.K.! é a obra que eu decidi abordar na minha primeira review devido a três motivos. O primeiro consiste no fato de que eu me identifico muito com ela. Vejo muita coisa de mim em personagens como o Satou e o Yamazaki. Isso fez com que eu criasse uma espécie de ligação emocional com a obra.

Tal fato já encaminha o segundo motivo: os temas abordados e os personagens presentes na obra levantam uma porrada de discussões interessantes. Não apenas eu, mas muita gente da geração atual também se identificará com esses personagens. Eles tem problemas que muitos de nós temos (talvez não na mesma escala de gravidade, mas, ainda sim, são parecidos). As dificuldade pelas quais os personagens passam e como estes lidam com elas também é algo digno de atenção. Isso sem citar ainda, é claro, que o tema principal da obra é o fenômeno social conhecido como Hikikomori (no qual jovens adultos se fecham em seus quarto e não interagem mais com a sociedade). Algo pelo que me interesso desde sempre.

O terceiro motivo consiste no fato de que o título é muito competente em conduzir e discutir esses problemas nas suas tramas. Os personagens são bons e interessantes, eles são bem desenvolvidos, o título é muito criativo e competente em criar e guiar cenas emocionalmente intensas. Além disso, tem um humor negro bastante sarcástico que faz piada a todo momento da cultura otaku e assemelhados.

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Sinopse e Informações Básicas

NHK conta a história de Tatsuhiro Satou, um Hikikomori experiente que já está fechado no seu quarto a mais de três anos. Depois de todo esse tempo, ele finalmente chega a conclusão de que a responsável pelo seu estado de ruína social é uma conspiração dirigida pela grande corporação NHK (uma emissora de televisão japonesa) que através do seus animes (e toda a cultura otaku em geral) incentiva que os jovens se tornem pessoas reclusas. Entretanto, antes que pudesse se começar a sua guerrilha, ele conhece Nakahara Misaki, uma adolescente misteriosa que se diz capaz de curar Satou do seu estado Hikikomori através do seu “projeto”. Além desses dois, a história segue também Yamazaki Kaoru, vizinho de Satou e antigo amigo de escola. E Hitomi Kashiwa, amiga e antiga veterana de escola de Satou.

NHK originalmente foi publicado na forma de uma Light Novel escrita por Tatsuhiko Takimoto. Diferentemente de outras novels japonesas, NHK é constituída basicamente de texto com a única ilustração da obra sendo a capa feita por Yoshitoshi ABe (character designer de séries como Serial Experiments Lain e Texhnolyze). A Light Novel foi publicada em 2002 na forma de um volume único com 11 capítulos.

Uma mangá baseado na novel com roteiro do próprio Takimoto e arte de Kendi Oiwa foi publicada na revista Monthly Shounen Ace entre 2004 e 2007. A série possui, no total, 8 volumes. Por fim, uma adaptação em anime foi transmitida no ano 2006 com 24 episódios produzida pelo estúdio Gonzo e dirigida por Yamamoto Yuusuke.

A Light Novel, O Mangá e O Anime: Diferenças e Considerações Técnicas

O enredo e a abordagem das três versões é diferente. A obra original, a novel, é narrada em primeira pessoa do ponto de vista do Satou. Enquanto que o mangá e o anime, por mais que estejam cheios de monólogos, são histórias em terceira pessoa. Eu li a novel com o objetivo de complementar a minha opinião e visão da obra. Das três, a minha favorita é o mangá por mais que não seja a obra original. Light Novels sempre me passam essa impressão desconfortável de amadorismo como se eu estivesse lendo uma fan fiction. NHK é um pouco melhor escrita comparando ela com o que eu vejo normalmente; no entanto, essa impressão persiste. Os parágrafos são curtos e as sentenças objetivas demais e pouco descritivas. Não sei se isso é culpa da tradução ou algo natural da linguagem japonesa (talvez na literatura nipônica seja normal os parágrafos serem curtos se comparados às obras ocidentais, mas nunca li um livro japonês para ter certeza disso). Ou, quem sabe, esse amadorismo seja aceito dentro do ramo das light novels e não tão bem visto em outros campos mais “elevados” da literatura do país. Contudo, já que isso é tudo especulação, prefiro me abster de uma análise mais rigorosa e usar a novel como se fosse uma espécie de ponto de vista diferenciado da obra.

A light novel (pelo menos a versão que li) é de leitura fácil e fluída. Tem um pouco mais de 150 páginas e é possível lê-la num único dia. Novamente, digo que prefiro o mangá, mas a novel oferece a interessante característica de contar a história do ponto de vista de Satou. Além disso, os personagens são levemente diferentes. Satou é um pouco menos burro, Misaki, mais misteriosa, Yamazaki, mais miserável. O enredo também é diferente do anime e mangá. O mesmo vale para a abordagem dos temas da obra (Hikikomori, por exemplo) e relacionamentos entre os personagens (é mais centrada em Satou por ser contada em primeira pessoa, assim todos os relacionamentos acabam sendo interpretados apenas pelo ponto de vista dele).

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O mangá, por sua vez, apresenta uma arte competente. Ela não é do tipo que te faz cair o queixo (não é cheia de detalhes ou realista, nem apresenta nenhum tipo de inovação significativa), mas é boa o suficiente para conduzir bem o roteiro de Takimoto. NHK é cheio de cenas de alto impacto emocional, além de várias viagens psicodélicas devido as alucinações dos personagens. O mangá possui um clima tenso e desesperado em quase toda a sua totalidade mostrando os personagens com os nervos a flor da pele o tempo todo. Até mesmo as piadas são nervosas. Mesmo assim, a arte de Oiwa não desaponta em nenhum desses momentos.

Das três obras, o mangá é a obra mais diferenciada. As diferenças no enredo são o que mais salta aos olhos, mas o comportamento dos personagens, as discussões e como o mangá aborda os temas propostos também acabam por ser consideravelmente diferente do que é apresentado na novel e no anime.

O anime apresenta character design emprestado do mangá. O enredo, por sua vez, pega coisas emprestadas das duas outras mídias. A animação é bonita e também é competente em mostrar e conduzir os momentos emocionalmente intensos típicos de NHK sejam estes brigas, alucinações ou algum outro tipo de bizarrice.

tumblr_lkh7qp9KDL1qfn1nro1_500Eu não sou um especialista em trilhas sonora e dublagem, mas os dois me parecem bons. A trilha sonora me pareceu estranhamente destacada. Parece que o anime não tem medo de que você escute as músicas que o conduzem (me lembra FLCL nesse aspecto). O primeiro episódio é particularmente interessante já que é a primeira vez que se escuta essas músicas e o impacto que elas causam acaba por ser maior. Além disso, ela é bastante eclética (Jazz, Rock, Folk, até alguma coisa de erudita).

O anime, dentre as três obras, é que apresenta o enredo mais coeso e melhor apresentado. Os arcos se ligam melhor uns com os outros (existe uma relação de causa-consequência que explica a sequência deles). E tudo que o anime apresenta, em geral, é melhor mostrado se comparado com as outras versão. O anime é mais dramático também, não é necessariamente mais emocionante, mas ele trabalha melhor as situações emocionais a ponto de torná-las mais enroladas e melosas. Há mais choradeira e gritos no fim das contas.

tumblr_m137c5xoxy1rraazto1_r1_500O anime, no fim, é mais “covarde”. Isso é melhor explicado na parte com spoilers, mas, em suma, ele escolhe saídas mais fáceis para os problemas dos personagens e da trama, além de não levantar discussões mais problemáticas e de não fazer perguntas mais difíceis de responder. Na novel, se identifica essa mesma tendência.

O mangá, por sua vez, é mais agressivo nesse aspecto. Ele é mais curto e grosso, muito menos dramático, mas põe em pauta problemas mais sérios e discussões mais difíceis. Não tem medo de mostrar que os problemas dos personagens realmente são complicados e as soluções pra eles são bem mais complexas e profundas do que a princípio se imagina.

Personagens e Seus Relacionamentos

NHK tem uma porrada de coisas boas. Citando alguns exemplos: as viagens e alucinações dos personagens que são bem criativas e psicodélicas e, também, a temática polêmica que, além de lidar como Hikikomoris, brinca também com Otakus e Truants (também conhecidos como matadores de aula). Entretanto, a coisa mais legal de NHK, na minha opinião, são os personagens e suas relações.

Cuspir “os personagens são bons, os desenvolvimentos deles é bom, etc” é fácil. Complicado é explicar o porquê disso. No caso de NHK, dá pra justificar esses elogios com um grupo conciso de razões.

NHKV8C36P301) As relações entre os personagens muitas vezes são únicas. Não dá pra chamar simplesmente de amizade ou de amor. Geralmente, elas são algo a mais. Algo diferente. Coisas misturadas, nubladas, mas que continuam sendo consistentes (e aí está uma das coisas que revela a competência dos criadores da obra).

Eu gosto muito quando uma história carrega uma relação diferenciada entre personagens junto ao seu enredo. Um bom exemplo disso é o que eu chamo de “amizades de aço”, quanto a amizade de dois personagens é tão forte que justifica ações diferenciadas dos personagens e através dela se guia o enredo e o desenvolvimento da história. Eu consigo citar Mahou Shoujo Madoka Magica como uma obra que apresenta isso. A amizade de duas personagens é praticamente o que explica boa parte dos mistérios da história e carrega o enredo.

tumblr_lzoctwNd5p1r81gn8o1_1280NHK não tem uma, mas várias relações desse tipo. A relação entre Satou e sua Senpai (Hitomi) é particularmente interessante. Não é de amizade, não é de amor, não é de dominação, nem mesmo de admiração. Ela acaba tendo um pouco de cada uma dessas coisas criando uma mistura que é difícil de definir, mas que ainda é o suficiente para afetar significativamente o destino dos dois personagens na história. Ela é, principalmente, consistente. É normal se perder quando se lida como algo tão nebuloso. O bom é que esse não é o caso de NHK. Um dos momentos de maior brilho de NHK é justamente quando os dois personagens são levados ao limite (mental e emocional) e se agarram a sua relação para tentar se entender e achar soluções para as suas dificuldades.

2) Existe um diálogo intensivo entre os elementos das obras. Tudo influencia tudo. O comportamento dos personagens influencia na relação destes personagens com os outros. Os eventos que acontecem na história do mangá afetam as relações entre os personagens, da mesma forma que estas relações influenciam outros eventos. Se uma crise acontecer, os personagens vão sentir o impacto e vão modificar o seu comportamento.

Isso é, justamente, desenvolvimento. Os personagens mudam conforme a história avança da mesma forma que a história é afetada pelos mesmos. É muito difícil executar bem esse aspecto, mas NHK fez um trabalho competente.

NHKV3P0193) O título leva tudo isso ao limite. NHK apresenta um clima tenso com personagens a beira de um colapso nervoso boa parte do tempo e o enredo está cheio de situações complicadas como desventuras, brigas, encontros inesperados, etc. Essas situações testam os personagens e os seus laços o tempo todo.

NHKV4C19P31É como se o título soubesse que esse é o seu forte e fizesse questão de ser agressivo, de esfregar isso na sua cara e mostrar o quão legal isso é.

Identificação

Apesar de que poucos de nós nos encontramos em situações tão complicadas quanto as dos personagens de NHK, ainda é possível encontrar semelhanças entre os problemas que nós enfrentamos e os que estes personagens enfrentam.

tumblr_lgu6ucNT4C1qzqleuo1_500A necessidade de fuga da realidade, a incapacidade de lidar com uma perspectiva de futuro nebulosa, o peso da responsabilidade que a sociedade e os nossos parentes põe em nós e no nosso futuro, as consequências que a obsessão com elementos como o Moe, a Fantasia, os Games e outras coisas “estranhas” trazem, o contrapeso entre os desejos pessoais e os desejos alheio (como o que eu quero fazer com você, vai te prejudicar, e vice-versa), entre outros, são todos temas que são enfrentados no cotidiano dos personagens.

tumblr_m2rfinWO6s1qbv8g6o1_500E, por mais que NHK não seja absurdamente realista, ele não dá soluções mágicas. Muitas das dificuldades até acabam não tendo respostas claras, e não é porque o autor seja preguiçoso, é poque as respostas ou são muito subjetivas (dependem de cada um), ou é porque os personagens simplesmente eram incapazes de conseguir essas respostas.

Os personagens não conseguem superar certos problemas, pois eles, de fato, são muito difíceis de serem superados. E o mangá é excepcional em mostrar como os personagens reagem a essas falhas e como eles se afundam ainda mais quando falham.

E esse tipo de “realismo” é bem mais interessante para mim do que uma obra motivadora com um final feliz onde os personagens superam todos os obstáculos e atingem a glória. Isso não é o que a gente vê na nossa vida. Falhas acontecem e nós temos muitas vezes que aprender a conviver com elas.

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Qual é a de NHK?

De fato, NHK não é uma obra motivadora (a ponto de fazer Hikikomoris deixarem de ser Hikikomoris, truants deixarem de ser truants, etc), muito menos é uma obra excessivamente crítica. Em, praticamente, nenhum momento, ela vai nos pilares do que ela acha ser a causa desses fenômenos e os ataca. Muito menos é uma obra que faz apologia a essas coisas (como existem uma porrada de animes por aí que louvam o estilo NEET como se fosse algo especial e mágico). O que ela faz é retratar a situação de pessoas com esses problemas com algum realismo e mostrar o quão desesperador essa situação pode se tornar. Os personagens ficam durante boa parte da obra no limite. E você pode apostar que mesmo que os personagens já pareçam estar no fundo do poço, eles conseguirão ir ainda mais fundo. Além disso, para o nosso pavor, a obra mostra o quanto pessoas como nós podemos nos identificar nessas criaturas miseráveis. E o quanto a gente pode aprender com eles.

Isso tudo, é claro, contado num tom depressivamente cômico e ininterruptamente nervoso meio único de NHK. A obra te pede que acompanhe, entenda e se envolva com esses fantásticos personagens nas suas desventuras e problemas. Emocione-se. Ria deles. Aprenda com eles.

Afinal, é justamente isso que a obra te pede no título (Bem vindo a NHK!), então, por favor, sinta-se em casa!

tumblr_lp5dahxHtD1qgov6zo1_500OBS: A Parte sem spoilers acaba por aqui. Vai ler o mangá. Xô.

Parte II (Com Spoilers)

Enredo

Agora que eu posso revelar coisas do enredo, é fácil dizer que pelo menos uns 80% de NHK é pura humilhação e sofrimento. Não é que o mangá seja um título masoquista, mas é que dessas desventuras que o mangá tira suas piadas e, através delas, que ele passa as suas mensagens e aborda as suas discussões. Existem duas maneira de motivar alguém. Uma é oferecendo recompensas a outra é administrando punições ou fazendo ameaças.

NHK abusa da segunda opção.

No caso do mangá, é possível dividir o enredo em três grandes etapas: “cavando cada vez mais o fundo poço”, “chafurdando na lama” e “levantado-se com o maior número de tropeços possível”. O anime e a novel se focam mais na primeira parte e só lidam com as duas últimas em seus respectivos episódios e capítulos finais (ou próximos do fim).

Na parte “cavando cada vez mais o fundo do poço”, nós temos duas coisas sendo trabalhadas paralelamente. A primeira se foca em mostrar a vulnerabilidade de Satou a diversos tipos de “escapismos culturais” como Moe, Eroges, MMORPGs, Pornografia (Normal e Infantil) e Marketing de Rede. O cara praticamente afunda nelas. E, em nenhum momento, elas parecem contribuir positivamente para o problema Hikikomori de Satou.

Na verdade, uma das principais conquistas dessa parte é justamente mostrar o quanto essas coisas que são feitas para esse público não contribuem em nada para ele. Não tem chance nenhuma de torná-lo melhor e, no máximo, podem se transformar em vícios completamente contra-produtivos para pessoas especialmente suscetíveis (como o nosso querido Satou).

NHKV1P086No fim, depois de conhecer todas essas coisas Satou se encontra com novos vícios, doente, endividado e, principalmente, muito mais perdido do que estava antes.

Correndo paralelamente a isso, nós temos a apresentação dos novos personagens e a familiarização com eles: Yamazaki, ex-calouro de escola e otaku hardcore, Misaki, a garota misteriosa que se diz um anjo que vai salvar Satou do seu estado Hikikomori, e Hitomi, ex-veterana de escola e recém noiva de um psicólogo bem sucedido, mas dependente de remédios antidepressivos e completamente incerta a respeito da sua situação atual e do seu futuro.

A história nessa primeira parte dá dicas da real natureza desses personagens e das relações deles ao mesmo tempo que realiza pequenos desenvolvimentos. A insistência estranha de Yamazaki na parceria para a criação do eroge (quando Satou se mostra claramente incompetente repetidas vezes), os comportamentos suspeitos de Misaki e a recusa dela de se abrir impedindo Satou de conhecer melhor ela. Todos esses detalhes caminham para a construção de um cenário que o título vai destroçar (e destroçar com estilo) revelando a verdadeira gravidade dos problemas dos personagens.

NHKV2P178NHK não é o tipo de história que apresenta tramas complexas, mistérios nebulosos e muitos plot twists. Sendo conciso, a única revelação dramática de toda a história é quando Satou descobre a verdadeira natureza da Misaki.

No anime e na novel isso é feito aos poucos, a descoberta do passado da Misaki e a tentativa de suicídio da mesma são os pontos críticos. Nós temos uma garota com sérios problemas de autoestima causados por traumas passados que pensa que apenas gera problemas a todos com que interage. O ápice disso é atestado quando até mesmo o Hikikomori se revela menos miserável que ela (na visão dela). E, na sequência, temos um final dramático aonde Satou quase se sacrifica para mostrar que o mal que aflige Misaki não é culpa dela e, sim, de uma grande conspiração (a corporação NHK). Em suma, fazer a garota ter mais autoestima e provar para ela que coisas ruins acontecem e ela não é culpada de nada. Tal final é bem parecido com o da própria novel.

Apesar de dramático, esse final é menos problemático que o caminho que o mangá resolveu seguir. Nele, Misaki não possui um passado tão conveniente para explicar os seus problemas atuais. No momento em que se admite que ela teve um passado desafortunado (mãe suicida, padrasto abusador), é fácil identificar o problema de Misaki. E, com o problema identificado, basta corrigi-lo. “Consertar” um trauma na vida real (principalmente um tão horrível quanto o de Misaki) é tarefa difícil, mas, no caso do mangá, basta uma ou duas cenas dramáticas (como o pseudo-sacrifício de Satou) para conseguir salvar Misaki.

O mangá desenvolve uma Misaki diferente e até brinca com o fato de que a sua Misaki talvez tivesse um passado tão triste (ela conta essa mentira para o Satou e ele quase se suicida por causa disso, algo irônico tendo em vista os finais do anime e da novel). Os problemas da Misaki do mangá são bem menos claros e mais abstratos que a do anime.

NHKV4C20P24Em seguida a essa tentativa frustrada de suicídio, o mangá caminha para a etapa “chafurdando na lama”. Depois do suicídio falho, Satou e os demais personagens se encontram completamente perdidos. Não tem ideia de como sair do poço, não tem ideia real da sua situação, tentam melhorar, mas falham porque são esforço fracos e sem futuro já que não sabem nada a respeito de si mesmos e nem dos seus problemas.

NHKV5C21P22Não tem ideia de como pararam ali, não tem ideia de por que é tão difícil de sair dali, não sabem como sair dali, não tem a mínima noção nem mesmo de por que deveriam sair da lama. O Satou é o astro dessa parte com inúmeros eventos de coisas que eu chamo de “pseudo-epifanias” (onde ele aparentemente achou a resposta para todos os seus problemas e tenta se convencer de que é aquilo o salvará, mas resulta em falhas sempre, porque essas epifanias contemplam soluções mágicas e convenientes demais e nunca revelam a natureza real dos seus problemas).

NHKV5C23P30Aos poucos, os personagens vão descobrindo algumas coisas mais sólidas a respeito dos seus problemas. No entanto, diferente das epifanias, esse processo é bem mais lento e problemático. E a cada vez que eles resolvem algo acabam dando de cara com uma nova dificuldade. Isso marca a transição entre as etapas “chafurdando na lama” e “levantando-se com a maior número de tropeços possível”. Essa é uma maneira bem mais realista de mostrar o processo de superação de problemas tendo em vista que quase nada se resolve com uma única revelação. O processo de superação pode justamente consistir de diversas barreiras a serem quebradas uma depois da outra numa jornada chata, difícil, demorada e com muita chance de retrocesso observando que quase ninguém consegue seguir apenas em frente.

O final de NHK é feliz. Com os personagens finalmente achando respostas suficientemente boas para sair do poço ou, pelo menos, adquirindo as ferramentas necessárias para fazê-lo. Eu poderia ser mais detalhista agora, mas prefiro deixar para mais tarde na parte do problema Hikikomoris e na parte que vem na sequência e fala dos personagens.

Personagens

Satou

Nosso protagonista é o principal personagem onde se identificam as forças de NHK. Ele é o personagem com o qual é mais fácil se identificar e também é o centro de todas as relações da obra. Ele é um personagem meio burro, com pouca iniciativa e muito passivo socialmente. Ele teve os seus sonhos e tem um forte senso de justiça, mas, justamente por causa da combinação dessas características é que ele se tornou um recluso social.

Por mais que indiscutivelmente ele seja um Hikikomori, ele não é um Hikikomori pleno. Ele sai de casa com considerável frequência e não tem problemas de comunicação nem traumas passados. Isso faz com que o mangá perca poder de crítica social (afinal, Satou não é um Hikikomori hardcore), mas seria difícil levar em frente um mangá tão centrado em personagens e relações pessoais com um protagonista traumatizado e que não se comunica.

NHKV2P022Os problemas que levaram Satou a se tornar um recluso social tem muito a ver com a sua personalidade e de como ele encara a vida. Isso permite que esses problemas sejam tratáveis dentro do mangá já que se pode usar raciocínios para lidar com eles e que essas resoluções ganhem força conforme as relações dos personagens sejam trabalhadas. Além disso, esses problemas de Satou o tornam bem mais identificável do que um possível Hikikomori traumatizado que não saiba falar.

A relação de Satou com sua Senpai é onde muito disso é identificável. Satou sempre amou e admirou Hitomi, mas nunca procurou tentar ter um relacionamento amoroso com ela, além de muitas vezes desperdiçar as chances que ela mesma proporcionava. A razão desse comportamento é um coquetel de razões: primeiro, porque ele é naturalmente covarde, segundo, porque não se vê como um homem digno para ela. Ele se vê incapaz de trazer felicidade para ela e de dar uma vida de luxo e de segurança. Isso só se agrava pelo fato de ele ser um Hikikomori e do marido de Hitomi ser um psicólogo de sucesso. Mesmo na escola, onde Hitomi não tinha um namorado fixo e Satou ainda não era um Hikikomori, essa situação se verificava. Satou nunca teve autoestima e se via repetidamente incapaz de ajudar sua Senpai quando ela precisava.

NHKV3C17P29 NHKV3C17P30No fim, isso se mostra como um misto de covardia, passividade e auto desprezo que nunca permitiu que Satou tivesse um relacionamento sério com Hitomi (no mangá apenas, porque no anime e novel ele transa com ela, o que para mim tira um pouco a mágica da trama por mais que torne as coisas um pouco mais realistas). Ele só entende completamente isso quando os dois dividem o mesmo apartamento por algum tempo (mangá). O final desse episódio, quando, mesmo depois de Hitomi aceitar todas as bugigangas fetichistas (que inicialmente deveriam fazer ela mesma desistir já que Satou trouxera coisas realmente bizarras), Satou não transa com ela e, em vez disso, oferece um baralho de cartas, é símbolo disso. Afinal, jogar cartas juntos foi a única coisa positiva que Satou conseguiu fazer por sua Senpai desde sempre.

NHKV7C32P26A amizade de Satou com Yamazaki, por sua vez, não é uma relação tão dramática. Não existe um grande estigma entre eles como no caso Satou-Hitomi. Para falar a verdade, o mais interessante da relação dos dois é o fato de ela não ser quase nunca positiva. Yamazaki foi veículo de muitas das obsessões que levaram Satou a cavar ainda mais o seu poço. Por causa de Yamazaki, Satou conheceu o Moe, se prendeu muito mais do que deveria a MMORPGs, teve acesso a pornografia bem mais pesada, recebeu drogas ilícitas pesadas e, por fim, se envolveu no projeto da criação de um jogo erótico bizarro quando tanto Yamazaki quanto Satou sabiam, no fundo, que aquilo não tinha futuro (principalmente Yamazaki que soube disso desde o começo, mas insistiu porque estava desesperado tentando tirar algo mais da cultura otaku depois que ficara desiludido com a mesma). Claro, Yamazaki providenciou algo de positivo aqui e ali (como o discurso anti-suicídio na última tentativa de Satou, divertimento para os dois, companheirismo e interações sociais frequentes que um Hikikomori precisa se não quiser desaprender a lidar com seres humanos).

NHKV1P089O projeto do jogo erótico destinado ao fracasso, de certa maneira, foi um jeito de expressar um problema que Hikikomori (e pessoas pouco ativas, em geral) tem. Que é a ilusão de que coisas fantásticas podem ser facilmente realizadas sem esforço e competência. Uma pessoa que trabalha, por causa da sua experiência, tem noção do quão difícil é fazer algo. Por exemplo, um desenvolvedor de games sabe o quão é difícil fazer um jogo, porque ele trabalha com jogos. Porém, uma pessoa que nunca trabalhou com isso, é incapaz de ter noção real dessa dificuldade, por isso, para ela é normal imaginar que aquilo seja fácil.

Essa “subestimação” dos problemas é uma das chaves para explicar por que Satou tem tanta dificuldade de sair do estado Hikikomori. Isso é muito forte nele por causa dos três anos em que ficou fechado em casa fazendo nada. Para ele, é possível que um milagre o salve de tudo e que exista uma solução mágica e fácil para todos os seus problemas. Só depois da fase “chafurdando na lama” que ele percebe isso não é verdade com todas as epifanias inúteis e discussões com o outro Hikikomori pelo MMORPG.

NHKV5C26P09A sua relação com a Misaki é, provavelmente, a mais importante do mangá. É através dela que Satou consegue muito dos seus problemas e, também, suas soluções.

Algo interessante é que, no começo, o título dá a entender que esta relação se trata de uma típica “anjo-abençoado”. Muitos mangás são centrados em relações em que um protagonista se encontra numa situação difícil cheia de problemas, então, milagrosamente, um “anjo” surge e conduz o personagem para uma situação melhor. Algo muito comum em mangás de romance aonde uma heroína aparece e começa a interagir com o protagonista.

NHKV3P062Isso se trata de uma ironia já que cedo ou tarde a própria Misaki revelará que não é anjo coisa nenhuma e tem motivos bem distorcidos e egoístas por trás das suas ações.

A partir desse ponto, a relação dos dois torna-se nebulosa. Boa parte das “epifanias” que Satou tem fazem menção a Misaki e isso apenas fez com que ele chafurdasse ainda mais na lama do que deveria. Misaki também parece criar uma espécie de obsessão por Satou quando estes se separam (vivendo no quarto dele, justificando iniciativas bizarras por causa dele). Na perdição dos dois (característica da parte “chafurdando na lama”), muitas das ações deles visam o outro. É daí que eles tiram a primeira coisa concreta: que tem de tirar satisfações um com o outro. Há assuntos inacabados entre eles e eles precisam resolvê-los antes de poder seguir em frente. Isso pode parece dramático demais, mas é aí que você nota um dos fortes de NHK: a dupla, de fato, encontra soluções para os seus problemas através do outro. Seja simplesmente convivendo ou trabalhando juntos. A reta final do mangá retrata isso.

No fim, a interação dos dois se revela positiva para ambos; entretanto, não sem inúmeros tropeços e dificuldades que quase destruíram os sentimentos que eles compartilhavam.

NHKV4C18P32Para finalizar os pontos do Satou, existe o detalhe de que ele é um Hikikomori e toda a problemática que isso implica, mas vou deixar isso para mais perto do fim.

Yamazaki

O Yamazaki é um personagem pelo qual os criadores veiculam duas discussões interessantes: a inconformidade com um destino planejado e a desilusão que a obsessão por uma cultura escapista (como a otaku) inevitavelmente vai trazer e as consequências negativas que podem acontecer quando se insiste nessa desilusão.

Yamazaki é um personagem que usou a cultura otaku como escape para a vida miserável que levava (bullying, desilusões amorosas, etc). Ele se maravilhou com esse mundo, mas, depois de se dedicar a ele, percebeu que as coisas não eram tão convenientes. Seus personagens moes eram fruto de intenso estudo com fins estritamente comerciais afim de apelar a pessoas com problemas e desejos parecidos com o dele. Além disso, o mundo que era “apenas dele” começou a se popularizar e passou a pertencer a pessoas e campos da sociedade dos quais ele não queria que o seu mundo fizesse parte, pois se tratavam de coisas que ele previamente odiava.

NHKV6C29P15 NHKV6C29P16 NHKV6C29P17 NHKV6C29P18 NHKV6C29P19 NHKV6C29P20 NHKV6C29P21 NHKV6C29P22 NHKV6C29P23O fato de ele insistir nisso, de esperar que um “milagre” acontecesse só causou desgraça. Ele arrastou Satou para um projeto que ele mesmo sabia que não teria sucesso, além de viciá-lo em coisas que Satou nunca precisaria ter conhecido e era especialmente vulnerável. Ele fugiu das suas responsabilidades como filho de um grande fazendeiro, pois não queria fazer parte do futuro planejado pelos seus pais; no entanto, o futuro que ele mesmo escolheu era infrutífero e baseado em escapismos.

Insistir em escapismos como fonte de felicidade só causou problemas a Yamazaki. Acredito que um dos momentos mais memoráveis disso é quando Nanako dá um “choque de realidade” em Yamazaki depois que este faz um discurso emocionado sobre o seu mundo milagroso e suas esperanças. A maneira com que ele enxergava o mundo só não estava errada, como quase o destruiu quando foi despedaçada pelo “choque” administrado por Nanako.

NHKV6C29P32Yamazaki em algum momento desiste dos seus “sonhos” e volta para a fazenda. O ponto crítico disso varia de mídia para mídia, mas no mangá trata-se da revolução. Uma tentativa desesperada de fazer alguma coisa para tentar destruir a causa da sua infelicidade. Ele não sabe o que ele quer mudar com a revolução, não sabe o que deve destruir, mas ele sente a necessidade de fazer alguma coisa, mas, como não tem nenhuma ideia do quê, a sua revolução obviamente falha.

Dos personagens mais importantes, ele parece ser o personagem com o fim menos “feliz” já que toda sua trajetória no mangá pode ser resumida “em tentativa sem sentido de insistir em coisas erradas que inevitavelmente fracassariam”. Mesmo assim, isso é, de certa forma, justificado. De todos os personagens significativos, ele é o mais fechado. Ele não tira nada de positivo da sua relação com os outros personagens. Ele não aprende nada da mesma forma que os demais aprendem muito pouco com ele. Os outros personagens, no fim, nem sabem direito quais eram os seus problemas de forma que quase sempre ele sofreu sozinho.

NHKV8C38P33Hitomi

A Senpai de Satou é uma personagem que incorpora desde começo uma discussão chave do mangá. Ela é uma personagem inteligente, bonita, madura, noiva de um psicólogo rico de sucesso, bem empregada. Tudo isso deveria resultar numa vida feliz, porém o problema é que isso não acontece. Ela não é feliz. Não chega nem perto disso.

NHKV7C31P34Por causa disso, ela é neurótica, suicida e se entope de drogas antidepressivas. Essa situação só melhora depois do encontro com Satou e da época em que os dois compartilharam o mesmo apartamento. Ela finalmente pode acertar algumas coisas e entender o que ela estava de fazendo errado.

A conclusão dela é que “algo” não estava certo. Esse “algo” é justamente o problema básico de toda a história sendo que ela foi a primeira a descobrir. Não fica claro como exatamente ela descobre isso, mas tenho o palpite que foi comparando a sua relação com Satou com a com o seu marido. Junto de Satou ela se sente bem, ela se sente atraída por ele e compreendida. Coisas que ela não sente junto ao seu esposo. Resume-se a alguma coisa que ela sente por Satou e que não sente pelo seu marido.

Satou e Misaki ainda teriam um caminho difícil e traumático a trilhar antes de poder descobrir isso também.

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Misaki

Bem, antes de tudo, existem duas Misakis. Os demais personagens são bem parecidos com as suas respectivas versões de outras mídias. O Satou da novel, do anime e do mangá são praticamente a mesma pessoa. Existem exceções quando se considera personagens menos importantes como a Nanako (garota normal no anime, garota bizarra no mangá), mas nenhuma é tão impactante quanto a Misaki.

A Misaki do anime incorpora bem o espírito da versão animada. Ela é uma coitadinha azarada e, como tal, é uma personagem fácil de lidar. Trata-se de uma garota traumatizada que acha que toda a desgraça que acontece a sua volta é culpa dela (como o suicídio da mãe e a agressividade do padrasto). Com isso identificado, bastava que Satou a convencesse do contrário. Que coisas ruins acontecem e nada é culpa de uma garota tão doce quanto a Misaki. Satou faz isso através de um discurso que cita a conspiração de NHK como a causa real das desgraças e quase se suicidando depois.

NHKV4C18P44Já a Misaki do mangá é bem mais interessante. Ao invés de uma coitadinha traumatizada, temos uma vaca sacana, ciumenta, egoísta e mentirosa. Ela não chega a ser má, mas está bem perdida. E, ao invés de um trauma, esta Misaki levanta uma questão bem diferente.

NHKV8C36P11E é aí que entra o seu projeto. Tendo em vista esse comportamento típico da felicidade, Misaki criou um plano. Um plano que usa de um ser miserável com o objetivo de fazê-lo se apaixonar perdidamente por ela afim de torná-lo seu cativo. E, no fim, quando isso finalmente acontecesse ela descartaria esse amor. Destruir a felicidade suprema afim de gerar a tristeza suprema e, com isso, se tornar uma pessoa mais forte capaz de lidar com as infelicidade inevitáveis da vida.

NHKV8C39P33Claro, muita coisa não deu certo. Satou é covarde, incapaz de amar algo direito. Dá atenção demais a sua Senpai o que gera ataques de ciúme na garota (que é o que motiva a mentira de Misaki que resulta na última tentativa de suicídio de Satou que o quase destrói). E, por fim, a própria Misaki não consegue, no fim, descartar Satou. Não consegue descartar a felicidade por já estar ligada demais com ele.

Entretanto, o questionamento de Misaki, como também suas dificuldades, ainda contribuem positivamente para alguma coisa. Satou, desde o meio da parte “chafurdando na lama” procurou por algo. Algo que permitisse que ele finalmente tivesse um objetivo concreto na sua vida. Algo que permitisse que ele superasse o fato de ser um Hikikomori. Algo que seria possível apenas encontrar um no outro.

O Hikikomori

Antes de tudo, é uma ilusão pensar que NHK é uma obra que faz uma crítica social pesada aos Hikikomoris. O próprio protagonista não é um Hikikomori pleno. Ele não tem problemas de comunicação, nem traumas. Coisas que complicariam em muito a abordagem. Mesmo assim, a obra não foge de algumas perguntas.

Por que pessoas se tornam Hikikomori?

Segundo NHK, devido aos seguintes fatores: (1) Pressão e Fracasso Social, (2) Abundância de elementos que incentivam o escapismo (fuga da realidade).

São as pessoas que ficam para trás que se tornam Hikikomoris. Aquelas que não conseguem responder as exigências que a sociedade impõe. Falham na universidade. Falham na escola. E, que por mais que tentem, continuam falhando. Coisas como bullying, dificuldades com relacionamentos (sejam estes amorosos ou simplesmente de amizade) apenas contribuem mais para esse fenômeno.

tumblr_m4xsmvGV2N1rw48xxo1_500A abundância de conteúdo escapista que se pode acessar via internet é uma coisa que facilita o processo de se tornar Hikikomori. Um Hikikomori não é exatamente isolado. Com acesso a internet, ele pode interagir com outras pessoas online. Ele pode até mesmo satisfazer as suas necessidades amorosas via eroges e pornografia. Humanos são animais sociais, e, como tal, precisam responder aos seus instintos de socialização de alguma maneira, nem que esta maneira seja bastante distorcida. O conteúdo escapista também permite que esse Hikikomori possa obter vivências virtuais. Ele pode viver em outros mundos (ou achar que está vivendo em outros mundos) através de MMORPGs e outros jogos.

Por que é tão difícil curar um Hikikomori?

NHK propõe que é necessário responder outra pergunta antes: Por que alguém deixaria de ser um Hikikomori? Ele tem conforto, alimentação, segurança, amor, amizade. Ele consegue satisfazer a maioria das suas necessidades com facilidade. Ele também não tem motivo para se expôr às dificuldades de um mundo difícil.

O que ele ganharia com isso? Existe algo lá fora que valha a pena ser conquistado? NHK vai ainda mais fundo nisso, já que Satou chega a conclusão de que tudo é uma ilusão. Nada de fato é real, porque nada conquistado implica numa felicidade plena. Não existe nada que valha a pena ser conquistado, porque o mundo não oferece nada que dê felicidade plena.

NHKV8C36P16NHKV8C36P17NHKV8C36P18NHKV8C36P19NHKV8C36P20NHKV8C36P21É o que eu chamo de efemeridade da felicidade. Todo o tipo de felicidade conquistável é passageira. Isso perturba Hitomi que, mesmo tendo tudo que uma mulher pode querer, não consegue ser feliz. É o que perturba Yamazaki que se desilude com coisas que antes eram as suas paixões e, mesmo insistindo desesperadamente nelas, não consegue ser feliz. Misaki que, mesmo tendo boas experiência em alguns oportunidades, sabe que isso vai passar e que eventualmente a tristeza e a incerteza vão dominá-la. E, por fim, o próprio Satou, que não consegue achar nada que não seja uma ilusão. Nada pelo que valha a pena lutar.

Como salvar um Hikikomori?

Entendendo duas coisas:

1) Os fatores que transformam pessoas em Hikikomoris são essencialmente artificiais. A necessidade de entrar numa boa escola ou numa boa faculdade. O incentivo de formar uma família e de ter um bom emprego. O discurso de ser cidadão que contribua ativamente para a sua comunidade.

Como também as culturas escapistas que oferecem situações convenientes com garotas puras, fofas e simpáticas ou mundos alternativos onde se pode escapar das dificuldades da vida real.

Tudo isso é manufaturado. Foi criado pela sociedade. Nada disso é uma obrigação natural. Nada disso está escrito no seu DNA ou qualquer coisa do tipo.

NHKV8C40P28Com isso em mente, você entende que todas as razões que usualmente forçam as pessoas a se tornarem reclusas não tem validade. Não faz sentido se culpar porque você não está fazendo nada de errado. Nada de anti-natural.

E, principalmente, falhar nessas coisas não implica que você deva ser infeliz.

2) Só existe uma única coisa que tem chance de conferir ao seu dono uma felicidade que não seja efêmera:

Amor.

NHKV7C34P07É clichê, eu sei, mas eu, de certa maneira, concordo com isso. Não apenas amor, mas todo o tipo de relação pessoal. Amor, amizade, amor fraterno. Ou, até coisas não tão positivas, como inveja e ódio.

Satou percebeu que todas as coisas que o forçaram a se tornar um Hikikomori são essencialmente fabricadas. Foram coisas que enfiaram na cabeça dele e que não eram necessariamente corretas. Entretanto, no momento em que se livra delas, ele corre o risco de não ter mais um objetivo, porque tudo parece ser uma ilusão.

O que ele escolheu para acreditar foi o amor, porque foi a primeira coisa a qual ele pode se agarrar. Afinal, finalmente, estava se apaixonando por Misaki.

Considerações Finais

NHK tem alguns problemas. O estilo narrativo acaba por complicar várias coisas. Como eu mesmo disse, o anime liga bem suas sagas, enquanto que o mangá acaba por se bem mais fragmentado. Acontecem muitos timeskips aonde o leitor tem que parar e entender bem o panorama que o mangá apresenta depois dos pulos correndo o risco de se perder na história se compreender algo errado. Além disso, muitas informações importantes são dadas de maneira sútil (uma única frase curta dentro de um balão, um quadro pequeno escondido no canto da página).

Os personagens também são bem poucos claros e inconstantes na suas resoluções. Há muitas alegorias que só tem o objetivo de causar impacto no leitor enquanto que outras coisas, que são bem importantes as vezes, não tem tanto destaque. Dá para perceber que os criadores não tinham muita coisa planejada e modificaram suas visões de maneira considerável conforme o mangá avançava. Suspeito que a Misaki do mangá seja fruto disso.

Enquanto que ela é, sem dúvidas, bem mais interessante e identificável com o leitor que a Misaki apresentada no anime, é uma bronca lidar com ela. Até mesmo o seu projeto e as motivações por trás dele não ficam claras e parecem forçadas quando, na verdade, tal projeto deveria ser um ponto que exigiria uma das melhores explicações por ser a causa de muitos acontecimento no mangá e do destino de vários personagens.

As invocações da NHK são dispensáveis e abruptas em muitas momentos. O mangá ignora isso tempo todo, e, quando finalmente a evoca, parece algo fora de lugar. O mangá decidiu por um caminho em que a discussão da efemeridade da felicidade é o ponto principal da narração sendo que a conspiração da NHK é algo que encontra bem mais identificação com as discussões do anime e novel.

E, talvez a coisa mais importante, é que NHK não dá perspectivas realistas a respeito dos Hikikomoris sendo que muitas vezes é vendida como tal. Ela é muito mais eficiente, em se tratando dos assuntos que ela realmente escolhe discutir. Isso não chega a ser um problema, porque nunca se deve impor uma visão prévia em cima de uma obra quando ela não se propõe a lidar com aquilo, mas que pode gerar confusão. E, no mais, NHK por ser uma obra errante e abrupta pode confundir muito um leitor. É fácil ver o que não existe, porque a obra por mais que seja impactante é muitas vezes vagas. Se você não pegar bem o contexto de algumas cenas, pode muito entendê-las de maneira errada. Eu mesmo não tenho certeza de algumas coisas que apontei pelo fato da obra não ser incisiva o suficiente quando elabora os seus pontos.

Mesmo assim, espero que a própria obra e esse meu texto como complemento tenham sido o suficiente para você reconhecer os pontos em que a obra se destaca. É fantástico a quantidade de cenas emocionantes e desesperadoras que a obra possui em apenas 8 volumes. E o mais legal disso é como elas se combinam com os personagens. Como tudo isso é levado ao limite e, mesmo sendo tão exagerado, ainda é possível se identificar com as coisas que estes personagens fazem, pensam, brigam, berram, etc.

É justamente na sucessão dessas cenas impactantes e na condução das relações dos personagens através delas é que NHK ni Youkoso mostra ao que veio. NHK não oferece respostas, oferece, na verdade, caminhos. Experiências pelas quais pessoas parecidas com você passaram afim de chegarem nas suas próprias respostas. Não se iluda pelas soluções de Satou, Misaki e cia. Não as pegue para si porque o contexto em que eles estão inseridas não se aplica a você. Nem todo mundo tem anjo caído, um vizinho otaku ou uma veterana gostosa.

O que vale a pena ser observado é a natureza que a experiência de superação consiste. Não é fácil, está cheia de tropeços e perdição, mas que pode se tornar bem menos difícil se você for capaz de parar de fugir dos seus problemas e, principalmente, de procurar ajuda. A chance de encontrar respostas por si mesmo é baixa, porque alguém sozinho se perde muito fácil. É necessário se relacionar com os outros, se abrir, porque neles é que talvez as resposta se encontrem.

Enfim, apesar dessa impressão, NHK não é uma obra de autoajuda. É bem desmotivadora na maioria das vezes, além de não ser clara. Contudo, vale o esforço de tentar ser compreendida. Eu devo ter gasto quase duas semanas em cima dessa review seja pensando, relendo, assistindo, catando imagem, escrevendo, etc. E o que eu posso atestar dessa experiência é que NHK respondeu ao meu esforço. Eu dei chance a ela, e ela não me desapontou.

E isso é a única coisa que eu espero que qualquer obra que eu acompanhe seja capaz de realizar.

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7 respostas para N.H.K. ni Youkoso!

  1. Shiro disse:

    Gostei bastante da review, devo confessar que comprei todos os volumes da Panini, mas ainda não cheguei a ler. Depois de tanta convicção nessas suas palavras, resolvi pegar para ler o mais breve possível. Eu já sabia que a novel era contada de um ponto de vista diferente, só não sabia que era do principal. Vou ler a obra, quando tiver concluído todas as minhas opiniões volto a comentar aqui e, leio a parte 2.

  2. Panino Manino disse:

    Em primeiro lugar tenho que te parabenizar pela resenha, estou impressionado.
    Não, eu não li tudo, nem metade. Vou ler tudo mas não agora, é muito grande, mas das parte que li reparei em algumas coisas por alto que gostaria de comentar.

    Eu não li a Novel, apenas o início dela.
    Minha preferência pessoal é pelo anime, e o mangá me decepcionou muito. O autor quis abraçar o mundo e fez uma zona absurda. Só dou destaca para o desabafo do Sato na casa dos pais, aquela “confissão” foi perfeita, infelizmente na cena seguinte o mangá volta com os exageros.
    O mangá vai e volta com os personagens em reviravoltas ridículas, aquela história do Yamazaki com aquela menina… a cena na estação de trem é das mais absurdas que já vi em toda minha vida, ali dava para pegar o mangá, amassar e jogar no lixo.
    A mesma cena ridícula se repete com a Misaki na versão do suicídio dela naquela cidadezinha. Porra, o mangá se envergonhar daquela forma uma vez tudo bem, mas duas? Falando nela a Misaki não existe como um personagem. Vai e volta num faz de contas irritante, no final nem o autor sabia o que ela tinha, incompreensível aquela “relevação” no final.

    O mangá dramatiza muito sem ter uma linha lógica.
    Entrando no anime….

    Sobre o Sato não conseguir ficar junto da Hitomi, entendo não gostar disso, assim como eu não gostei, eu torcia para que os dois ficassem juntos, mas tem um ponto aqui imo. Como você mesmo aponta o Sato tem uma personalidade covarde. Ele desistir dela faz parte da construção do personagem para ele ser o que ele é no final da história.
    Ele entende o problema que tem e sobretudo ele aceita isso. Até porque nesse caso específico ele não tinha condições de dar para ela tudo que queria e ela precisava, igualmente ela poderia fazer o mesmo por ele.

    Eu aprecio MUITO o final do anime e discordo do anime ser covarde, eu vejo de outra forma. Ele é otimista. Ele é bem mais pé no chão que o mangá, e tenta encarar o mundo de uma forma otimista apesar de conformada.
    Francamente, não existe uma solução milagrosa para ninguém, dificilmente alguém vai mudar o que é e o anime fez o excelente favor para a humanidade de deixar isso claro, e que isso não é um problema. No final tanto o Sato quanto a Misaki ainda são quem eles eram, com seus problemas, ela apenas mudaram um pouco suas atitudes. É possível CONVIVER, essa é a mensagem. Desnecessário ter um romance e beijo final ali porque não era essa a solução correta. Eles estão seguindo com a vida deles e ponto.
    Nesse final (episódios finais) o anime também deixa mais claro que não é só sobre hikikomoris otakus. Ele é até bem didático em uma boa parte dele, abordando vários problemas sociais, se fazendo mais fácil entender para as pessoas que precisam que todos podemos ter problemas, internos ou externos e dá para vivermos bem com isso, como por exemplo o Yamazaki que acabou vivendo uma vida que ele não tinha sonhado para ele mas estava vivendo uma vida satisfatória e feliz mesmo assim. É algo bastante positivo.
    Até a Misaki se torna uma personagem de verdade, a escolha por ela sofrer violência do pai foi uma boa escolha, e isso afetar a mente dela de não se sentir amada e carente, aquele pedido de ajuda dela foi bastante emocionante.

    Depois lerei tudo com calma e se tiver algo a mais para comentar eu volto aqui.

  3. Trajano disse:

    po cara realmente muita bem feita a resenha,me fez dar atenção a detalhes que eu tinha deixado passar,realmente eu tenho uma opinião parecida com o panino manino,gostei mais do anime,achei a lição que ela passa muito mais forte, acho que pelo fato que vc mencionou na misaki ser diferente…realmente a misaki do mangá é bem mais sombria,e se desconfia constatemente dela a do anime é mais idealizada(é a mulher que nós queríamos…kkk),só sei que esse anime vai fazer uma falta muito grande,gostei muito e me identifiquei bastante mesmo o com os personagens e quanto a carga emocional a última vez que ví algo do tipo foi em clannad
    sei que é meio tarde para postar 2014…
    kkkkkk mas vlw cara boa a resenha

  4. Adorei sua resenha, meus parabéns por ela.

    Eu reli o mangá recentemente e estou revendo o anime, só a novel que desconheço. Concordo com você sobre a suposta “conspiração da NHK” entrar e sair da história de maneira abrupta no mangá…quase como uma obrigação contratual que em nada interferia na trama. Outro ponto que desde a primeira vez que li me incomodou, foram os momentos finais da relação do Sato com a Misaki. Sabemos que o mangá não era necessariamente de romance, e que haviam muitas coisas a serem trabalhadas naquela relação, mas eu achei o cúmulo do anti-clímax passar 40 capítulos lendo uma obra em que o tempo todo o personagem se imaginava ou sonhava fazendo sexo com uma garota, ou ao menos beijando, pra no fim o mangá apenas insinuar que fizeram, ao mostrá-los dormindo ao lado um do outro e nus, com naturalidade.

    Sabe, ver um personagem que tremia dos pés a cabeça quando uma mulher chegava muito perto ou era carinhosa, ser mostrado na etapa seguinte já vendo o sexo com naturalidade, sem sequer mostrar um único beijo entre eles, foi decepcionante.

    De resto foi uma história que me marcou, uma obra original em meio a tantas obras medíocres por ai.

  5. well disse:

    Obrigado pelo review completo, mesmo depois de tanto tempo alguem ainda vai dar valor pelo trabalho! Não li inteiro pois estou cansado. Acabei de assistir os 24 episódios direto, e é como você disse, assustador como a gente se identifica com a obra, gostei da comparação entre manga e anime!

  6. Caramba meu irmão, que resenha hein …
    terminei agora de ver o anime e realmente me emocionou muito.
    concordo com tudo que você escreveu e realmente foi um choque assistir ela, mas no fim fiquei contente com o final e espero poder levar essa experiência como uma lição.
    Obrigado.

  7. Excelente resenha, parabens! Em alguns pontos o manga e animes sao bem diferentes. A Misaki do anime nem parece muito a do mangá (que e bem mais expressiva e escrota). Isso pq eles quiseram dar um ar mais misterioso a ela, e no final uma resolução (falando do por que dela ser do jeito que era). Enfim, gostaria que tivesse uma continuação, mas pra ser algo bem-feito. Gostei tmb do realismo, sem finais felizes, assim como na vida real.

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