Leituras Caseiras #03

Vocês conhecem a broca.

Antes de mais nada: a partir dessa edição das Leituras Caseiras, temos uma pequena mudança nas regras. Não limitarei mais a coluna à mangás em andamento (até porque eu tenho um costume de pegar coisas já concluídas para ler), e vou acrescentar um grupo aos comentados por aqui: mangás bons que li esse mês que não ganharão review por qualquer motivo (“não tenho tanto o que falar” sendo o principal motivo).

Vamos nessa.

A Drunken Dream and Other Stories

A Drunken Dream

“Quarenta anos atrás, a lendária mangaká Hagio Moto reinventou o gênero shojo com uma série de histórias inteligentes, psicologicamente complexas e suavemente poéticas. Aqui […] estão dez das melhores dessas histórias.” (sinopse adaptada da edição americana)

Acho que essa sinopse resume toda a informação técnica necessária sobre A Drunken Dream and Other Stories. Dito isso, posso falar logo da obra, e vou direto ao ponto. Ela sofre do problema que muitas coletâneas de one-shots sofrem: inconsistência. Algumas histórias são absolutamente fantásticas, e é triste não poder falar delas por risco de soltar spoilers (o que é comum com one-shots), já que algumas delas podem ser estragadas com isso. Pra jogar nomes aqui, “Marié, Ten Years Later” e “Hanshin” são facilmente dois dos melhores one-shots que já li. Porém, outras são de um nível mais baixo, arrastando a apreciação total da coleção um pouco mais pra baixo.

Mesmo assim, o trabalho de Hagio Moto é muito interessante. Algumas premissas simples (“Bianca” ou a já citada “Marié”), outras um pouco mais criativas (“A Drunken Dream” ou “Iguana Girl”), mas a autora se dá bem nos dois campos, colocando muitas facetas pessoais nas histórias (certa dificuldade no relacionamento com a mãe mais de uma vez pela coletânea, e confirmada na entrevista) e fazendo um trabalho notável, mesmo que de qualidade inconstante.

Ou talvez, como a própria Hagio fala na entrevista que acompanha o volume americano (aliás, a entrevista também é muito interessante: uma aula de história do mangá, em especial da demografia shojo), garotos sejam “incapazes de ler histórias pra garotas”. De qualquer forma, o que eu consegui captar, eu definitivamente recomendo, para garotas e marmanjos. Tem realmente muito ouro nessa coleção.

Uzumaki

Uzumaki

Kuzo-cho, uma pequena cidade na costa do Japão, é amaldiçoada. Não por espíritos, e sim por um formato, um padrão. O padrão da espiral. De início, acontecem coisas pequenas, como redemoinhos na água e no ar. Porém, com o tempo, as espirais passam a ter cada vez mais influência na cidade, causando acontecimentos cada vez mais impressionantes, e colocando os habitantes numa verdadeira espiral em direção à loucura.

Uzumaki é um mangá do famoso Junji Ito, que é provavelmente o mais renomado mangaká de terror, e um autor muito controverso. Alguns ficam realmente assustados com as obras de Ito, enquanto outros acabam rindo das bizarrices que povoam suas obras. Se esse efeito cômico é intencional ou não, só uma interpretação aprofundada do autor pode dizer. Não é minha intenção, visto que esse é apenas meu segundo contato com o autor (o primeiro foi com o excelente one-shot The Enigma of Amigara Fault).

Enfim, pra resumir, fiquei mais perto do segundo grupo. Ao contrário do que possa parecer, isso não significa que não gostei. O perturbador caminho dos personagens em direção à loucura é fascinante (cada evento um pouco mais louco que o anterior, deixando os personagens um pouco mais loucos do que antes, num padrão que lembra muito… uma espiral), mesmo que eu mesmo não tenha seguido tal caminho junto com eles. E, apesar disso, Uzumaki presenteia os leitores que não sucumbiram à loucura espiral com o humor. Intencional ou não, um subproduto natural da extrema bizarrice de cada capítulo (homens virando caracóis, gritos que criam furacões, etc), e é um jeito do mangá se mostrar agradável mesmo falhando em seu outro possível objetivo (assustar). Apesar do final um pouco decepcionante (que não comentarei por questão de spoilers), Uzumaki é outra leitura extremamente recomendada.

Depois disso, vamos para o de sempre.

Claymore, capítulo 134: “The Troops of Hades”

Metade do capítulo foi Claymore fazendo uma das coisas que Claymore faz melhor: criar designs malucos para monstros malucos (“despertados”, pra usar o termo técnico sem graça). Um ou outro deixou a desejar, mas no geral, a Iron Maiden, aquele humanóide fodão meio-genérico-porém-legal, a pseudo-Easley com chicotes (?) em vez de arcos, e, enfim, você entendeu. Realmente gosto muito desses designs criativos. Dessa vez não tiveram muito espaço pra brilhar, com muita gente pra pouca luta, mas enfim, foi interessante. Se forem usados mais um pouco, será melhor ainda. Se a batalha continuar, espero mais desse tipo de coisa.

Ver a Riful/Dauf dando uma sola na Priscila foi bem empolgante à primeira vista, mas depois de pensar um pouco, cheguei à conclusão de que é impossível que a Priscila seja derrotada só com isso. Mesmo raciocínio com a Cassandra ser parada agora. Ou, talvez, quem sabe, o autor esteja raciocinando à minha frente, e preparando algo realmente nessa linha. Espero que sim. Do contrário, eu não consigo ver essa última batalha se resolvendo satisfatoriamente. E Claymore merece um bom final.

Maoyuu Maou Yuusha, capítulo 21: “‘Thank You’ Is What They Told Me”

Esse provavelmente foi o capítulo mais focado em desenvolvimento de personagens de todo o mangá até agora. Houve outros brilhantes, como aquele com o discurso da Big Sis Maid, mas até agora, eles desenvolviam muito bem “apenas” um ou outro personagem. Esse brilhou desenvolvendo vários. Começou na sequência inicial, com a Head Maid contendo a Demon Queen dominada pelos antigos Demon Lords (aliás, puta trabalho fascinante do Akira Ishida com essa Demon Queen, o visual está fantástico). Aquele diálogo com ela falando que escolheu seu destino quando escolheu a Demon Queen completa perfeitamente a natureza de “serva” (que começamos a ver lá atrás, no capítulo 2, quando ela foi introduzida), e ela abrindo mão do próprio braço pra dar à sua mestra a chance de realizar novamente seu sonho… Fantástico. Head Maid digna do nome, fez uma linda representação de sua classe.

Mas o capítulo não parou por aí. Female Magician também foi bem fundamentada. A confirmação de que elas são do mesmo clã foi necessária, mas a mensagem que Magician repassou para ela dá a entender que elas aprenderam coisas relativamente parecidas (ela entende bem dessa questão da varíola), além de indicar que elas têm uma certa proximidade entre si. Acima de tudo, o que eu acredito que seja o núcleo da personalidade dela, esse calmo (e até sonolento) desejo de ver um mundo mais pacífico e agradável, que ela expressou tão bem, com o clássico, porém ainda adorável se bem utilizado, autismo moe. Espero mais dela, porque a introdução foi promissora.

Por fim, o general. Ele tentando lidar com o louvor da população já foi bonito o suficiente, mas a cena em que ele defende as Maid Sisters (a mais velha disfarçada de Crimson Scholar) foi sensacional. A cena em que ele para a estocada do inimigo com o braço teve uma dinâmica muito bela, com movimentos fluidos e bem vivos. Além disso, foi brilhante considerando a questão das forças e fraquezas (ter a firmeza pra apostar um braço é uma força absurda, como Head Maid provou mais cedo no mesmo capítulo). Além disso, o diálogo sobre seguir em frente apenas com o apoio do povo foi simples, comum e lindo, com um toque de fantasia clássica que Maoyuu, mesmo subvertendo o gênero, ainda faz questão de ter (ou todos esqueceram o “outro lado da colina”?). Em suma, um dos melhores capítulos do mangá, e considerando o mangá em questão, isso é um imenso elogio.

AH, e por fim: a última cena, com os mercenários famintos e Female Knight disposta a não atacá-los, me faz acreditar que Maoyuu vai, no próximo capítulo, fazer referência a um dos momentos mais bonitos de toda a história humana (na minha opinião). Não vou cantar a pedra agora, mas tem a ver com a Primeira Guerra Mundial. Espero que aconteça.

Sengoku Youko, capítulo 46: “Memories”

A explicação sobre o poder de Teru foi bem interessante. Gosto da liberdade que Sengoku Youko dá para esses acontecimentos malucos. É uma fantasia bem “livre”, aberta a todo tipo de loucura. Em um mundo onde montanhas andam, falam e lutam, uma pessoa que pode ver o passado e o futuro não parece fora do lugar. Além disso, curioso como ele trata isso, aceitando eventos aparentemente catastróficos (a própria morte) com tranquilidade. A maioria dos viajantes do tempo que conheço (em obras de ficção, claro) luta até o fim das forças contra o poder do tempo, para eventualmente decidirem que não há como derrotá-lo. Yoshiteru entendeu o poder do tempo e se contentou com a vida submetida a isso, e moldou seu próprio destino usando seu poder dentro desses limites. Um viajante no tempo exemplar. Mizukami provando que não é apenas mais um autor.

Aliás, falando em Mizukami provando que não é apenas mais um: muita gente pensava que esse capítulo seria sobre Senya descobrindo mais sobre o passado dele e de Shinsuke, e entrando no puro melodrama barato estilo CRAWLING IN MY SKIN. Ou seja, muita gente esqueceu que esse mangá é escrito por Mizukami Satoshi. Além do óbvio talento do autor, que evita sabiamente todos os clichês que tornariam o mangá ruim, temos um motivo mais in-story: acho que simplesmente não dá pra odiar o Shinsuke. Puta que pariu, o cara é legal demais. Não consegui evitar um sorriso no quadro em que ele faz um cafuné no Senya falando “We’re friends, and you’re just a little kid”. Ele simplesmente transborda carisma. Definitivamente um dos meus personagens favoritos em todas as obras do Mizukami.

Mas, é claro, não podemos deixar de destacar o Senya, que finalmente recuperou as memórias. Foi muito bacana usar como catalisador do processo um flashback para a cena em que Shinsuke chora por não conseguir matá-lo, fez um paralelo bem interessante com a situação atual e ressaltou o papel do Shinsuke na vida do garoto. A proposta de conversa entre Senya e os demônios principais foi muito interessante, espero que vejamos o diálogo se desenrolando. E por fim, o capítulo se encerra com a introdução de mais uma peça no tabuleiro, aquela nuvem-demônio gigante, que pela conversa, parece ser algum tipo de “campo de batalha”. Não sei como isso será usado em conjunção com a invasão do palácio de Teru, mas estou muito ansioso para ver.

Soul Eater, capítulo 106: “The Dark Side Of The Moon III”

Tivemos mais um pouco do interessante diálogo sobre as conexões, a ordem e a loucura. Um comentário desses chega a ser bizarro para um battle shonen, mas esse capítulo se torna mais interessante quanto mais se pensa sobre os questionamentos. O debate não é essencialmente novo, mas esteve cheio de frases interessantes (“In the end, people are always all alone!”) e foi um belo tratamento do clássico tema de Soul Eater.

Aliás, sobre esse tema, foi bem interessante como ele se ligou com o battle shonen “clássico”: o “poder da família” com Maka e Death Scythe lutando juntos (cantei essa pedra meses atrás, mas enfim, foi muito bacana mesmo assim) e o simples e efetivo show de poderes que foi ver Maka soltando uma enxurrada de golpes em Chrona (traço do Ookubo sempre sendo o traço do Ookubo, dando uma beleza notável a uma sequência quase estática: a página dupla, em especial, é linda pra caramba). Enfim, Soul Eater padrão, e o Soul Eater padrão é muito bom, obrigado. Acho que a única coisa que não gostei foi a total inutilidade da Maka antes do pai dela chegar, mas isso tem mais a ver com o fato de eu não gostar do Black Star, o que é só minha opinião de merda, e não um demérito de verdade  para o capítulo ou o personagem.

No fim, temos a volta do Kishin. E agora a porra fica mais séria. Se nem a loucura de Chrona foi capaz de contê-lo, prevejo loucura e destruição como jamais vimos antes. Vamos lá, Ookubo, faça desse arco o ápice de Soul Eater. Você pode.

Spirit Circle, capítulo 8: “Stona”

 

E lá estava eu, preparado para manter as especulações não-confirmadas por um tempo, esperando ver recorrências do círculo (sacou? sacou?) de amigos de Fuuta pelas outras vidas. Mizukami, sendo Mizukami, decidiu fazer algo melhor do que o que eu esperava, acelerando o mangá incrivelmente. Nada de dicas, nada de joguinhos de adivinhação, apenas acontecimentos atropelando o leitor.

Os personagens estavam pegando fogo nesse capítulo. O ódio controlado de Vann por Kouko caiu muito bem com o personagem, que realmente odiava a bruxa por causa da maldição, mas viveu feliz e não guardou todo o rancor que Fone guardou. Por outro lado, Fone odeia Stona (e, por extensão, Kouko), e vimos isso bem nesse capítulo. O ódio de Kouko por Fuuta provavelmente tem muito a ver com Fortuna, que é o elo mais misterioso de toda a história. Aliás, sobre esse ódio, Fuuta falando que Vann foi feliz é um dos momentos mais bonitos do mangá até agora.

A idéia de fazer cada um “preencher as lacunas” do outro é interessante, e pode levar a um entendimento mais profundo entre Fuuta e Kouko. Nesse capítulo, falando sobre o fim de Stona, notamos que o papel dela era muito parecido com o de Vann (pessoas que fazem o mal pelo que acreditam ser o bem do povo), e que o ódio dela é basicamente hipocrisia (isso com Fortuna fora da equação, já que ainda não sabemos o que ele fez). Talvez essas conversas ajudem a Kouko a ficar menos loco. Talvez as próximas vidas deixem Fuuta tão loco quanto Kouko.

Ah, e ler as últimas duas páginas foi como ser atropelado por um trem. O quadro ensangüentado, o “but nothing had changed, had it”, Fuuta caindo de joelhos, Stona falando com os espíritos em paz, e Fuuta ainda no chão, sendo abraçado por Rune, sussurando “no”. Não consigo explicar o que senti quando li, mas doeu. Pra caralho.

Vinland Saga, capítulo 90: “The Price For A Meal”

 

Antes de tudo, gostaria de avisar que, se você leu o capítulo antes do dia 25, você leu uma versão com duas páginas faltando. Não muda muita coisa, mas ainda assim, recomendo que você vá ler a versão arrumada e volte depois.

Capítulo de preparação acima de tudo, porém, ainda assim muito interessante. A cena inicial, com as forças de Ketil lançando flechas nos navios “fora de alcance” para serem atingidas por flechas imediatamente depois, mostrou de forma simples e inteligente a diferença entre as forças de Ketil e de Canute. Força que pouco depois foi salientada com o reconhecimento de Snake (aliás, Jomsvikings me dão a leve esperança de ver algum ex-companheiro de Thors. TALVEZ), e deixou a situação de Ketil ainda mais desesperadora, como ele próprio parece ignorar. Aliás, sobre Ketil, agora temos a confirmação de que ele não é o verdadeiro Iron-Fist Ketil (como aquele artigo que citei na primeira coluna indicava), o que significa que ele está MUITO fodido, e potencializa o que Yukimura mostrou mês passado, sobre a imbecil ideologia viking que obriga até quem não tem força a fingir que é forte. Aliás, prevejo (e até torço para) um final cruel para Ketil. Ele simplesmente é um homem errado demais.

Porém, o ápice do capítulo esteve com Snake e seus colegas. Acredito que eles ensinarão a Thorfinn, mesmo que indiretamente, que é possível lutar com certa honra e dignidade, que existem certas coisas pelas quais vale a pena lutar (e acredito que esse é um passo necessário na vida de Thorfinn). Porém, também acredito que eles vão morrer. O que é uma pena. Snake, pelo menos, parece ser um personagem com muito e ainda mais para contar. Seria interessante que ele sobrevivesse, mas acho difícil. E o mangá já matou o grande Askeladd, então nada é inacreditável. Olhando por outro lado, a morte de Askeladd trouxe imensos benefícios para o mangá (sim, Farmland Saga foi muito melhor do que o mangá era anteriormente. O choro é livre), então, quem sabe. De qualquer forma, confio em Yukimura, e aguardo ansiosamente o próximo capítulo.

Poisé, galerinha. Até a próxima.

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Sobre rauzi

Escrevendo para me lembrar que era verdade.
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3 respostas para Leituras Caseiras #03

  1. Hagio Moto é maravilhosa, mas o que me levou a comentar aqui foi apenas para dizer que, como disse Junji Ito certa vez, “a linha entre o terror e a comédia é bem tênue”. A mesma definição é dada por Hitchcock para o seu suspense de terror B: “Para mim, Psicose foi uma grande comédia. Tinha que ser”. É como você disse, isso fica bem polarizado entre o sentir medo e o achar divertido/engraçado com relação a este gênero. Eu por exemplo, não sinto temor algum lendo Junji Ito, embora sinta a tensão de algumas de suas obras. Já outra pessoas, ficam perturbadas, rs.

    • rauzi disse:

      Definição excelente para o Junji Ito (pelo menos julgando pelo pouco que li dele). Eu tenho uma certa raiva daqueles filmes de terror que se levam muito a sério e não conseguem entregar uma tensão decente, ficando aquele clima de “comédia-sem-querer”. Acho que o Ito consegue fazer comédia e terror sem prejudicar nenhum dos dois, o que é prova da qualidade dele.

  2. Pingback: One-shots | All Fiction

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