Bakuman e o Sistema de Questionários da Jump (Parte II)

Acho que eu não sigo bem esse princípio. Afinal, esse texto ficou enorme.

Obs: Contém spoilers de Bakuman, Oumagadoki Doubutsuen e Assassination Classroom.

Nesta parte: A crítica de Reversi. O mangá modelo de Bakuman. Como Assassination Classrooom e Oumagadoki Doubutsuen seguem esse modelo. Como a Jump e a ToC incentiva ou suprime gênios e calculistas. A ToC substituindo o papel dos editores. E quem, de fato, deve escrever a Jump.

A maneira mais conhecida com a qual a Jump influencia o andamento dos mangás nela publicados não diz nada a respeito a seus questionários. Nisso, surpreendentemente, eles não têm culpa alguma já que é um tipo de prática adotada também em outras revistas que não tem nenhum sistema parecido. Quando uma série de sucesso se aproxima do fim, é comum que os editores da revista na qual a série é publicada pressionem o autor a postergar o fim da mesma. O fim de um título de grande calibre significa redução das vendas da revista, além da redução inevitável do retorno comercial que esta gera (na forma de animes, figuras de ação, brinquedos, etc). Tudo relacionado ao título e também a revista passa a vender menos.

Claro que postergar demais o fim de uma série significa, com toda a certeza, queda de qualidade da mesma. Um mangá, como qualquer tipo de entretenimento, desgasta com o tempo. As pessoas passam a eventualmente gostar menos e este processo tende a se acelerar ainda mais quando o autor da obra é forçado a fazer coisas que ele não quer ou que simplesmente estavam fora dos seus planos. Mesmo assim, postergar o fim de algo quase sempre tem retorno econômico. Muitos consumidores (os fãs principalmente) ainda vão comprar o título mesmo com a provável queda de qualidade o que significa mais dinheiro no bolso dos investidores.

Isso não dura por muito também, forçar demais a situação pode ter resultados ainda mais desastrosos economicamente do que um fim normal. Pode-se gerar um ressentimento muito grande no consumidor quando este percebe as intenções comerciais por trás da prática. Nenhum fã quer que pensem que sua série favorita é algum tipo de vaca da qual se ordenha dinheiro.

Contudo, é possível, sim, trocar qualidade por mais lucro. Tem que ser feito com cuidado e na medida certa, mas é bem praticável no fim das contas. E foi feito e ainda é feito não só com mangás, mas com qualquer coisa serializada por aí. E quanto mais popular uma obra do tipo for, mais poder-se-á abusar desse tipo de estratégia.

Bakuman, com a última obra dos mangakas fictícios: Reversi, critica esse lado mais comercialmente forçado e analisa como ele pode afetar a qualidade do mangá

Reversi é uma obra que supostamente se desvencilha dos vícios que os mangás da Jump costumam ter ao estrear. Ela ocupa ótimas posições nas ToCs em toda a sua publicação por possuir qualidade inquestionável vinda da grande habilidade e experiência que os dois autores-protagonistas do mangá adquiriram ao longo de toda a sua jornada. Reversi não se estrutura em arcos curtos, nem se baseia em ideias únicas. A série supostamente é boa demais por si só, tem uma história densa e não fragmentada, personagens carismáticos, arte fantástica e uma aura dark, mas que ainda apela ao mainstream (coisa fácil de falar, mas difícil de fazer, mas, como se trata de um mangá de mentirinha, é aceitável).

No entanto, Reversi é uma obra curta. Acaba antes mesmo do seu anime estrear na TV com menos de 100 capítulos. Mesmo sofrendo algumas tentações, os autores não se flexionam. Não postergam o fim da série e não forçam nenhum tipo de intenção comercial procurando fazer a melhor obra possível na visão deles. No mundo fictício de Bakuman, isso é eventualmente aceito por quase todos os personagens. Afinal é algo nobre, correto e rompedor de paradigmas. Valores que a Jump incita nos seus mangás, mas que ironicamente parece esquecer quando isso se trata de administrar os seus próprios títulos e lidar com seus autores.

Reversi tem notáveis semelhanças com Death Note, obra anterior dos autores reais de Bakuman e uma obra que de fato pode se argumentar que foi esticada por causa de motivações comerciais. E esse acontecimento talvez seja o principal motivo dessa crítica desenvolvida na reta final de Bakuman.

Outra interpretação possível é considerar que os autores de Bakuman defendem, com Reversi, que seria muito melhor para o mundo dos mangás que os autores visassem criar obras de todos os tipos. Não apenas colossos de centenas de capítulos, mas também obras objetivas e curtas. O que é, de certa maneira, uma irônica volta ao começo de tudo. Aonde todas as histórias eram peças únicas.

Ainda sim, Reversi é a única obra do mangá inteiro que tem essa característica. Todas as demais obras de todos os demais autores fictícios tem como objetivo ir bem nos questionários e se estabilizar na revista. Para a falar a verdade, não há muito problema em pensar assim e ter esse objetivo. No momento em que as ToCs são totalmente aceitas, torna-se necessários jogar pelas suas regras. Não dá para adotar abordagens mais “nobres”, se isso significa ir para o fundo das ToCs logo nas primeiras semanas de publicação. Isso é totalmente compreensível.

O problema se encontra em como tanto os mangás de Bakuman quanto os da vida real tentam fazer isso.

O Primeiro Impacto

O que é visto em Bakuman é que quando os autores (reais) querem frisar que um mangá fictício é fantástico e fora de série para os leitores (reais) eles fazem isso fixando uma ideia única por trás do mangá e cuspindo elogios através dos personagens (“meu deus, a arte do Niizuma está fantásticas em Zombie Gun”, “essa luta acabou de forma incrível em Crow, que conclusão de arco!”, etc). A ideia geralmente causa um grande impacto inicial o que acaba instigando o desejo de ler os mangás fictícios no próprio leitor de Bakuman (eu mesmo quis ler Natural+ e Detective Trap e leria Reversi se o título de fato existisse). Isso é útil para o mangá, porque faz o leitor se interessar pelas obras fictícias o que acaba por dar credibilidade ao universo de Bakuman.

No mangá, a qualidade e as posições nas ToCs de um mangá está diretamente ligado ao estado mental e emocional do seu autor e da ideia por trás do título. Um mangá vai bem na Jump de Bakuman se o seu autor estiver confiante e tiver tido uma boa ideia. Essa visão tem problemas.

O primeiro problema dela é que ignora todo o aspecto técnico por trás da produção de um mangá. É óbvio que seria difícil abordar isso em Bakuman além de pouco conveniente, pois simplesmente não é divertido discutir mais seriamente coisas como traçado, diagramação, cinética, planos de fundo, posicionamento de quadros, etc. Tomaria espaço demais num mangá semanal, além de fugir demais do escopo do mangá que é mostrar a jornada dos mangakas fictícios até a conclusão dos seus sonhos e não uma análise técnica intensiva de mangá. Bakuman até dá crédito para coisas como character design e arte, mas isso fica na base do “a arte desse cara é boa e desse outro cara é ruim” sem nunca de fato justificar essas afirmações e mostrar por que a arte é boa ou ruim.

O segundo problema é que uma ideia de alto impacto inicial nem sempre assegura sucesso. É verdade que o mangá tende a ter boas posições nas ToCs no início, mas nada pode se dizer a respeito do seu futuro próximo. Se o autor não tiver habilidade suficiente para a explorar a premissa única nos capítulos seguintes aos iniciais, a sua série vai falhar. O histórico recente de mangás publicados (e cancelados) na Jump está repleto de mangás que apresentaram ideias diferenciadas, mas que falharam por que nos capítulos subsequentes nada significativo aconteceu. Não houve desenvolvimento da ideia inicial e nada respondeu ao hype que o primeiro capítulo e a própria ideia geraram.

Oumagadoki Doubutsuen trata-se um exemplo interessante. É um mangá que trata de um zoológico amaldiçoado cujo dono é um ser humano que foi transformado parcialmente em coelho e cujos animais nele existentes podem se tornar parcialmente humanos. Para remover a maldição, o homem-coelho tem atrair e divertir um grande número de pessoas com o seu zoológico. A protagonista é uma garota “boa para nada” que se torna zeladora do zoológico e que acompanha o coelho e o seus animais nas suas aventuras. Os animais tem “superpoderes” baseados na sua natureza animalesca, o mesmo vale para o dono do zoológico. Em suma, trata-se de um battle shounen com elementos de comédia.

Oumagadoki foi cancelado por volta do fim do seu primeiro ano de publicação com 5 volumes. É possível notar nele os problemas condicionados pelas ToCs (citados na parte 1). Era um mangá estruturado em arcos curtos que, mesmo que tivessem conclusões dramáticas, não desenvolviam em nada a história. Por mais que a temática fosse algo único, os elementos dos battle shounens eram os mesmos de sempre sem nenhum tipo de inovação significativa. Era notável que ele também tinha essa característica imediatista de “se virar” ao invés de ter algum tipo de plano a longo prazo.

O impacto inicial causado por um tema ou premissa diferenciado TEM que ser respondido com um enredo a altura dessa premissa. É frustrante ler um mangá com um primeiro capítulo fora de série, mas que volta a usar os mesmos clichês de sempre nos capítulos seguintes. A diferenciação também tem que se fazer presente no resto do mangá (na sua organização, na sua história, nos seus personagens), se não ela se torna completamente superficial. Apenas uma maquiagem em volta da mesma carcaça da sempre veiculada na Jump.

Além disso, não é necessário causar esse tipo de impacto sempre em todos os mangás publicados na revista. Alguns gêneros de mangá se beneficiam bem mais de uma boa execução do que é feito desde sempre do que de uma premissa inovadora. Em mangás de romance, por exemplo, é muito mais importante apresentar e desenvolver os sentimentos dos personagens e as relações entre eles do que tentar algo diferenciado. Pode até dar certo, mas não é o principal.

A ToC também incita esse tipo de comportamento. Uma estreia estrondosa garante boas posições iniciais nos rankings o que é uma grande tentação para qualquer autor que esteja trabalhando na Jump e não tenha estabilidade. Tenho a opinião de que isso não quer dizer nada a longo prazo, mas é muito pedir para um autor que está tentando desesperadamente ter uma série serializada começar sua série de maneira pacata. Isso se torna ainda mais arriscado quando se percebe que todo o resto dos autores está tentando causar o maior impacto possível. Torna-se praticamente suicídio para o novo título.

Nota-se esse padrão em outra série da Jump: Assassination Classroom. A série realmente começou causando um grande estardalhaço. Com uma premissa que envolve assassinatos, um monstro super-humano capaz de causar um buraco na lua e se mover a Mach 20 e uma escola aonde esse monstro é um professor e onde discriminação é liberada e usada para melhorar o desempenho geral dos estudantes.

Assassination não só causou estardalhaço com sua premissa, mas também com seu posicionamento nas ToCs acabando por invadir o top 3 que antes era dominado apenas por battle shounens como One Piece, Naruto, Toriko e Bleach. AC, a princípio, parece uma obra diferenciada, mas a pergunta que fica é se a obra será capaz de manter essas características únicas e prender seus leitores além dos capítulos iniciais.

A resposta ainda não é clara, pois, da mesma forma que os arcos subsequentes ao inicial não lidam a fundo com o tema do assassinato e possível apocalipse global, eles também não se parecem tanto com o que é visto em Slices of Life escolares comuns. Eles ficam numa espécie de meio-termo, explorando o aperfeiçoamento das tentativas de assassinatos dos alunos e a análise dos hábitos e personalidade do Koro-sensei, porém lidando também com os problemas dos alunos e passando lições de moral. Assassination também encaixa coisas como viagem escolares na sua história, só que vistas do ponto vista da série o que acaba por envolver tentativas de assassinatos, bizarrices do polvo, etc.

Eu, como bom fã de ficção científica, fico um pouco decepcionado em como Assassination Classroom ignora completamente o impacto social e físico que um buraco na lua e a presença na terra de um monstro que pode destruí-la causa. Que mudança políticas e econômicas aconteceriam? O que aconteceria com a órbita da terra e da lua? Que novas religiões surgiriam e o que aconteceria com as já existentes? Que guerras começariam e terminariam? Claro que responder essas perguntas é praticamente impossível, mas AC sequer as faz. Eu até entendo que não é interesssante para uma série mainstream entrar tão a fundo no campo da ficção científica, mas eu também penso que na abordagem correta e inteligente desses aspectos AC encontraria muito sucesso.

Ao invés disso, AC se foca completamente na classe de delinquentes e no Koro-Sensei. Talvez isso até se mostre interessante mais a frente, mas é algo que parece tão ínfimo e desimportante se comparado com tudo que poderia e deveria estar acontecendo no mundo de Assassination Classroom.

Isso é algo generalizado visível em todas as novas séries. Elas poderiam ser bem mais do que são hoje se não tivessem sido condicionadas por todas essas interferências negativas que a ToC gera.

Todo esse condicionamento de causar o mais impacto possível (quando isso muitas vezes não é necessário, além de ser feito de forma superficial), de interpretar erroneamente as ToCs como se fossem um prova concreta de qualidade (quando apenas reflete popularidade num curto intervalo de tempo) e de ter sua estrutura de enredo e apresentação da história distorcida a ponto de que a sucessão de inúmeros arcos não causa nada significativo na história geral são problemas que agem a nível de obra, diretamente nos mangás novatos, mas que não tem tanto impacto em obras de grande porte como Dragon Ball e One Piece. Esses autores que publicam sucessos indiscutíveis e que a Jump considera gênios desde o começo tem carta branca para fazerem praticamente o que quiserem com suas histórias. Não importa que dezenas de mangás sejam cancelados por ano enquanto um único One Piece vender infinitos volumes e obter sucesso mundial. Por causa disso, a Jump acaba não dependendo muito do sistema das ToCs para garantir seu sucesso comercial.

Ou melhor, a afirmação correta é que a ToC por mais desastrosa que possa ser não afeta a Jump a curto prazo.

Ainda é necessário entender ainda mais a fundo as motivações da existência dela para que se possa compreender a real dimensão dos danos que a ToC pode causar. O resto da análise destinar-se-á a entender quais são os problemas básicos de implementar um sistema como a ToC e o que esses problemas básicos podem causar a longo prazo. Não apenas na escala de obras, mas na escala da revista e, talvez, na de todo mercado. E, se esses danos se tornarem suficientemente graves, não vai haver Oda ou Toriyama que salve a Jump de uma crise.

Gênios e Calculistas

Bakuman enumera dois tipos de mangakas: os gênios e os calculistas. Enquanto os gênios são os autores que desenham o que querem e como querem, os calculistas são aqueles que estudam mangá em geral com o objetivo de criar a melhor e mais conveniente obra possível tendo em vista as tendências do mercado. É claro que a vida real não é tão simples assim, todo mundo tem um pouco de gênio e calculista e alguns tem mais de um tipo do que o outro. Porém, para fins de simplificação, vamos considerar que essa divisão pode ser feita e que um mangaka que tem em si mais características de um tipo pertença àquele tipo.

No próprio mangá, é admitido que o mangaka tipo gênio costuma ter muito mais sucesso e vender muito mais do que o tipo calculista. Não é nenhum absurdo admitir que tanto Eiichiro Oda e Akira Toriyama são gênios e que One Piece e Dragon Ball são produtos das respectivas genialidades.

O que não foi mencionado no mangá é o motivo da situação ser essa. Por que mangakas tipo gênio fazem mais sucesso do que o tipo a calculista? A resposta é simples e objetiva: É porque o ambiente presente no atual mercado de mangás não favorece o sucesso do tipo calculista.

O gênio surge de forma quase espontânea. Ele é produto muito mais das tendências culturais de um povo e de um alinhamento casual de algumas características genéticas convenientes para aquela atividade do que de incentivos de uma editora. Genios aparecem, literalmente, com uma obra-prima ou com título que tenha potencial para ser isso na frente da sua editora. Basta ter sorte e suficiente exposição para que o gênio venha sozinho até a sua porta. Gênios também tendem a ser pessoas mais jovens. Muitas vezes são pioneiros, apresentam elementos inovadores e quebram paradigmas com suas obras, tendo essas qualidades muitas vezes conexão com sua juventude.

O calculista, por sua vez, para que seja capaz de criar um sucesso precisa de investimento, estabilidade e, principalmente, tempo. A vantagem que calculistas tem sobre gênios é que, além de poderem ser “produzidos”, criam obras sólidas e que tentam utilizar o máximo potencial dos seus gêneros e elementos presentes nele. De certa forma, pode se dizer que gênios criam novos gêneros e calculistas tiram o melhor deles.

O mercado atual de mangás já naturalmente não favorece a existência de calculistas. Como dito antes, calculistas precisam de tempo e num ambiente aonde tendências se popularizam e são esquecida no espaço de meses não há tempo para que alguém faça um estudo delas que seja o suficiente para criar uma obra de qualidade. As modas passam rápido demais e calculistas precisam de anos e, ás vezes, de décadas para aprender e aperfeiçoar suas habilidades a ponto de criar obras de qualidade inquestionável. Ainda é possível criar obras que se encaixem nessas tendências, Love Hina, de Ken Akamatsu, por exemplo, foi uma obra que solidificou os clichês presentes em comédias românticas hormonais. Muitos dos elementos trabalhados na série podem ser encontrados em séries anteriores mais pioneiras como Golden Boy, Tenchi Muyo e I”s, mas só em Love Hina pode se encontrar a primeira compilação deles dentro de uma única obra. A partir de Love Hina finalmente se pôde ter um ideia mais precisa do que uma comédia romântica para garotos teria que ter e que estrutura devia seguir. Mesmo assim, Love Hina é uma obra oportuna que dependeu da perspicácia do autor em perceber que havia um nicho a ser explorado e que o material necessário já se fazia presente espalhado em várias outras obras.

No passado, movimentos culturais duravam gerações o que permitia que pessoas pudessem gastar suas vidas inteiras para entendê-los e, daí, ser capaz de criar sua obra-prima, A nona sinfonia de Beethoven é um exemplo disso, é a mais célebre das nove e também a última.

Dragon Ball e One Piece como obras de tipos majoritariamente gênios encontraram o seu sucesso explorando e criando novas maneiras de fazer Battle Shounen. Além disso, a mágica nesses mangás principalmente nos seus inícios é perceptível a um olhar mais crítico. É genial perceber como a história em Dragon Ball flui por entre os quadros. Muitas vezes não é nem necessário ler os balões para saber o que está acontecendo bastando olhar as expressões dos personagens. Isso é algo muito difícil de ser feito “artificialmente”. É praticamente natural do Mangaka.

A existência da ToC, enquanto é capaz de identificar (e não produzir) gênios, geralmente suprime os calculistas. O tempo que já é uma dificuldade natural presente por causa do nossa época e ela se alia a falta de estabilidade. Um autor da Jump pode ter sua série cancelada em menos de 30 capítulos. E um cancelamento para um autor novato é algo muito perigoso, pois pode significar o fim das suas chances na Jump. Não há espaço para riscos e experimentos. O autor TEM que fazer sucesso nas suas primeiras tentativas.

Isso afasta qualquer possibilidade de existir um ambiente onde calculistas possam se desenvolver dentro da Jump. E, como é impossível produzir gênios, a Jump fica incapaz de por si própria criar boas obras. Ela fica completamente sem controle sobre a sua capacidade de criar hits e totalmente dependente de gênios que batam na sua porta.

Ironicamente, Bakuman é a iniciativa mais próxima da Jump tentando incentivar o aparecimento de novos autores. A maneira como o mangá mostra os bastidores é excitante. O departamento editorial parece um lugar cheio de competição, pessoas interessantes e divertidas e busca pelos sonhos. Além disso, Bakuman mostra que a criação de uma bom mangá pode ser um processo divertido. Como eu já disse, os mangá “exemplos” de Bakuman não são os melhores para isso. Não são modelos que os novatos devam seguir a risca. Contudoo, já é alguma coisa ao menos.

Antes de ir para a conclusão, vale a pena dizer que o sistema de questionários da Jump trás algumas vantagens para a revista. Ela permite um rápido exame da popularidade de séries novas permitindo que se estas forem realmente ruins, possam ser rapidamente canceladas garantindo lugar para uma possível nova série. De quase vinte possíveis novas séries por ano, este número diminuiria para 5 ou menos tendo em vista que o único outro parâmetro de análise de sucesso e popularidade seria a venda de volumes o que toma tempo inevitavelmente.

As ToC também representam risco para as séries de sucesso obrigando mesmo medalhões a não relaxarem no seu trabalho. Não haveria cancelamento de séries realmente populares por pior que ficassem, ou, pelo menos, não seriam tão rápidos quanto hoje são por causa da ToC.

Entretanto, esses dois problemas que a ToC resolve, poderiam ser solucionados com uma administração competente. 5 ou menos séries de sucesso bem escolhidas por ano é muito melhor que vinte cancelamentos. O mesmo pode ser dito de autores de sucesso, um bom editor aconselhando este autor nunca o deixaria cometer erros com sua a série a ponto de justificar o cancelamento.

Em suma, a Jump deveria ter simplesmente mais confiança no que decide para a sua publicação.

Quem escreve a Jump?

O principal problema da ToC não é a maneira como ela afeta os mangás publicados na revista ou como ela frusta e condiciona os autores novatos. O problema é muito mais básico que isso e esses outros aspectos apenas são consequências.

O problema é que a ToC ocupa uma função que deveria ser de responsabilidade humana. Deveriam ser os editores e empregados da Jump que deveriam decidir o que é popular (ou não) ou o que deve ser cancelado (ou não). Ao invés disso temos um sistema que é controlado pelo público.

Por mais que possa parecer interessante dar ao público a chance de escolher o que fica e o que sai da revista, principalmente numa revista comercial, o sistema de questionários, na verdade, é uma prática que revela preguiça e pouco profissionalismo do departamento editorial. O público não dita tendência ou cria inovação, o pública apenas recebe o que o artista cria. É o artista e todo pessoal dessa esfera (críticos e editores) que deve ter a responsabilidade de reconhcer o que é ou não popular.

O público NÃO SABE o que quer. E, mesmo que goste de algo, não sabe dizer porque gosta. É trabalho do editor e do mangaka descobrir, estudar e explorar essas coisas. No momento em que se atribui ao público essas tarefas, se perde praticamente todo o controle que se tem sobre o seu trabalho. Escrever um mangá passa a se tornar uma espécie de prostituição. Se perde todo o lado artístico e moral que uma obra pode ter o que muitas vezes resulta na perda da validade da obra até mesmo como entretenimento.

Essa preguiça por trás da criação do sistema de questionários tem consequências seriamente prejudiciais. No momento em que se declara que “uma obra foi cancelada por que a ToC atesta que a obra não era boa” se perde toda a possibilidade de se tirar algum tipo de aprendizagem ou benefício desse fracasso. Não se estuda mais o porquê de uma obra ter sido cancelada e quais foram os problemas do autor que motivaram essa medida. A ToC não diz quais são foram os problemas, ela só afirma que o mangá tem problemas, quando este está numa posição ruim (e alguns desses problemas que talvez tenham sido causados pela própria ToC). Ela apenas fornece números. Sem essa análise mais profunda o autor não aprende com seus erros, e vai acabar por repetí-los na próxima obra. E vai falhar novamente pondo a sua carrreira em perigo.

A ToC, por fim, parece um sistema auto-sustentável. Ele parece só precisar receber novos dados e naturalmente diz o que é popular e o que será sucesso. Contudo, é se iludir pensar que algo desse tipo, uma galinha de ovos de ouro, existe. O que está por trás do sucesso de coisas como One Piece e Dragon Ball é a criatividade e competência humana, tanto do autor que foi capaz de criar a obra quanto dos editores que foram capazes de reconhecer a qualidade e potencial da obra. Algo sistemático e mecânico como a ToC é incapaz de criar sucesso. Ela só mata, corta e cancela.

E isso não vai mudar. Pessoas criativas, competente e que trabalham duro serão aquelas que atingirão o sucesso. Não existem truques ou trapaças que facilitem isso. Chega a ser irônico como isso se encaixa nos valores que a Jump passa nos seus Battle Shounen.

Talvez alguém precise lembrar a própria Jump os valores que ela mesma passa nas suas revistas.

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2 respostas para Bakuman e o Sistema de Questionários da Jump (Parte II)

  1. rafael dos santos tomas disse:

    gostei bastante dessa segunda parte apesar do texto ter sido longo ,foi uma leitura bem proveitossa
    outro erro que eu gostaria de apontar na toc que voce não citou no texto ,o fato de que as pessoas em sua maioria votam na sua serie favorita mesmo o capitulo sendo ruin,assim nao dando chase a series novatas

    • erequito disse:

      O texto ficou grande mesmo, mas tu tem que ver o textos do Lancaster no blog Maximmum Cosmos. O cara escreve muito bem, mas cada post é uma bíblia.

      Quanto ao negócio das séries favoritas, eu acho que a Jump deve levar em conta, mas, mesmo assim, o ranking ainda só leva em conta basicamente popularidade. Então faz sentido e não é nada de se espantar que as séries favoritas estejam no topo. Seria surpreendente se elas não estivessem, afinal é a função da ToC perceber essas coisas.

      Mas, de fato, seria interessante a Jump rever isso. Nos questionários só dá pra votar em três mangás. Ou seja, se o cara é fã de battle shounen (no que a maioria dos fãs da Jump se encaixa) dificilmente ele vai votar em qualquer coisa que não seja Bleach, Naruto e One Piece. Qualquer mangás menos conhecido e novato acaba por não ter uma avaliação decente ou, pelo menos, tão boa quanto poderia ser.

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