Medaka Box

O All Fiction honra seu nome.

Aviso: esse post é cheio de spoilers. Pra quem ainda não leu Medaka e não quer spoilers, recomendo os ótimos posts do RocketWobbuffet no ShonenMania ou do Nintakun no Chuva de Nanquim (e, bem, recomendo Medaka Box). Caso contrário, vamos lá.

Começar esse post é difícil. Normalmente eu começo com sinopse, mas não há sinopse digna quando se trata desse mangá. Ele foi slice-of-life de conselho estudantil, foi battle shonen puro, foi battle shonen com diversos twists, foi aventura/RPG, foi meta-comédia, foi “comédia romântica”, foi tudo e mais um pouco. Sempre sob o nome de Medaka Box. Mas, por trás disso tudo, o que foi, afinal, Medaka Box? Existe alguma coisa que pode ser falada do mangá como um todo?

Talvez seja interessante falar um pouco de Nisio Isin antes disso, e de sua relação com a Shonen Jump. Creio que é uma aproximação importante para entender tudo direito.

É seguro dizer que Nisio é um dos autores mais ricos em toda a indústria otaku moderna. Não consegui encontrar dados concretos das vendas de suas light novels, mas basta dizer que o anime de Bakemonogatari (a obra original é uma light novel de Nisio) é o terceiro mais vendido da história. Nisemonogatari, sequência de Bake, é o quinto. O homem certamente não passa fome.

Outro aspecto importante é que as outras obras dele não têm nada a ver com a Shonen Jump. Suas maiores forças são os diálogos longos e impactantes, os personagens marcantes e as aproximações curiosas aos temas que decide abordar. Zaregoto, por exemplo, é uma curiosa exploração da mediocridade por meio de uma estrutura bem típica de obras de mistério. Bakemonogatari aplica alguns twists no gênero harém, e é difícil saber o que é sátira, o que é “sério”, o que é apenas pano de fundo pra algo maior. Nisio não é o tipo de cara que você imagina fazendo um battle shonen, um mangá de esportes ou até mesmo uma romcom padrão.

Enfim, Nisio Isin não precisa da Shonen Jump para viver e não cabe direito na estrutura da revista. Aparentemente, ele jamais teve qualquer motivo para publicar na revista. E ainda assim, Medaka Box foi publicado por lá. Por quê?

…Bom, jamais saberemos. O website All Fiction meio que tem a teoria que a revista o convidou. Teoria baseada vagamente no que aconteceu com Usamaru Furuya (que atualmente escreve na Jump Square) e fortemente em imensa especulação vaga: eu gosto dessa idéia, mas sinceramente, seu palpite, qualquer que seja, é quase tão bom quanto o nosso. Enfim, pouco importa, por isso nem entrarei em detalhes nessa brincadeira. O que importa é que Nisio Isin, um cara incrivelmente não-Shonen Jump, esteve na Shonen Jump. E, enquanto esteve lá, ele decidiu dinamitar a revista por dentro.

OK, OK, estou dando um passo muito maior que a perna aqui. Vamos devagar.

Obras de arte (no sentido genérico, livro filme música poesia HQ etc) se baseiam, fundamentalmente, num tema. Tudo ao redor se constrói ao redor do tema, fazendo que a progressão dos acontecimentos da obra (andamento do enredo, desenvolvimento de personagem) sirva o tema central, a idéia central. Pra ficar em exemplos já dados: em One Piece é a infância, em Sora no Woto é “seguir em frente”, enfim, acho que deu pra sacar. Mas Medaka Box leva isso um pouco além.

O tema de Medaka Box é perfeição e trabalho duro. O mangá propõe a existência de uma pessoa perfeita (a protagonista, Medaka) e lança perguntas a partir disso. Quais são as implicações disso? Como os indivíduos ao redor dessa pessoa reagirão? Como a sociedade (representada pelo microcosmo da escola) reagirá? Mas a primeira coisa que diferencia Medaka Box de qualquer outro mangá é que o tema aqui é ainda mais importante, mais necessário, mais visceral.

A imensa maioria tem um roteiro sólido e constante para complementar o tema, para servir como guia ao leitor durante a exploração do tema. Medaka Box tem um roteiro inconstante, que certas vezes parece até improvisado, tudo para entregar o tema de uma maneira mais nova, mais interessante, mais… fresca (piada intencional). A imensa maioria das obras tem como personagens indivíduos compreensíveis (se bem que arquétipos também servem), para nos fornecer empatia e ajudar na conexão do tema. Em Medaka Box, os personagens são as questões encarnadas, as idéias encarnadas. Zenkichi é a pessoa normal, Kumagawa é a “anti-perfeição”, outros indivíduos importantes podem ser resumidos a conceitos simples como esses. A perfeição e todas as reações a ela não são apenas trabalhadas por meio dos personagens, elas são os personagens. Cada uma das visões trabalhadas é a completa entidade daqueles personagens.

Medaka Box é um mangá que não pode se apoiar no seu roteiro para sustentar sua qualidade. É um mangá que depende pura e simplesmente de suas idéias. Boa parte de seus personagens são carismáticos, é verdade, isso sustenta a série, é verdade, mas os grandes personagens de Medaka Box são idéias personificadas. Tudo que o mangá tem de grande, para o bem e para o mal, gira em torno delas.

Eu não quero dizer que a fórmula que a imensa maioria usa é, em essência, ruim ou inferior, e que Medaka Box é imediatamente superior por se afastar dela. Não, a verdade pura e simples é que Medaka Box não tem interesse em ser uma obra comum.

Mas estou me afastando do ponto, o que farei inúmeras vezes durante esse texto, se acostume. Estou me afastando do objetivo do texto, tentar responder a pergunta “o que podemos falar sobre Medaka Box como um todo?” Talvez você esteja curioso querendo uma resposta, talvez você ache que não é uma pergunta tão interessante assim, talvez você tivesse esquecido que esse é o objetivo do texto. Tudo bem. De qualquer maneira, só há uma coisa a fazer: vamos dar uma voltinha pelo mangá.

Começamos com os School Days, um arco sobre o cotidiano de Medaka resolvendo os problemas dos alunos ao seu redor. É uma comédia simples e meio boba, que bebe muito da modinha de conselhos estudantis. Mas a idéia da perfeição já está presente. Nesse momento, porém, num estágio embrionário e numa abordagem simplista, mas ainda assim seu valor é notável. Os conflitos entre a garota perfeita e os indivíduos imperfeitos são motivos de piadas, mas há uma reflexão muito possível por trás de tudo. Até que ponto o esforço pode rivalizar com a genialidade? Até que ponto a perfeição de Medaka é bem vinda, a partir de que ponto ela pode estar excessiva? Nesse momento, as respostas apresentadas são meio inocentes; talvez como reflexo de conceitos e julgamentos ainda em formação, talvez para refletir a visão ainda simples de Zenkichi (que age como observador) sobre Medaka.

Sendo honesto, esse arco é bem melhor em retrospecto. Boa parte disso passa despercebido da primeira vez: tudo parece tão genérico, bobo, sem motivo. Ao ver o que o mangá se tornou em sua jornada, podemos olhar para esse começo com a premissa “isso pode ser bom de uma maneira diferente do que eu esperava da primeira vez” e, boom, ele é. Bacana isso. Mas enfim, vamos para águas mais interessantes.

O mini-arco do Unzen é o primeiro grande momento de Medaka. Alguns podem pensar que é porque a série finalmente decidiu ter ação, ser intensa, fazer sangue correr pelas veias do leitor. É uma visão meio aceitável, mas há um motivo mais importante: esse é o primeiro grande contraponto à idéia representada por Medaka. É um clássico embate entre o herói bondoso, campeão da humanidade e o vilão maligno, que odeia e não acredita nas pessoas (normalmente bem niilista). Estrutura batida, talvez, mas extremamente funcional. Há uns três capítulos em que Unzen é simplesmente fascinante, expondo suas idéias com discursos e explosões, usando tudo que tem para rebaixar Medaka a seu nível. Esse momento me lembra a louvada dinâmica Batman-Coringa no seu auge. E não deixa nada a dever a tal dinâmica.

E nesse ponto, Medaka é, como o Batman que conheço, uma personagem heróica além de todos os limites, e ainda assim humana, de certa forma. Podemos nos sentir empolgados com ela e com sua idéia de bondade, mas podemos reconhecer que ela, sem pessoas queridas para contê-la, se torna um monstro em um piscar de olhos. Quando Unzen fala que Medaka vive tentando copiar o que as pessoas falam, conseguimos ver isso: quando ela fala de trabalho duro, em especial, notamos que aquilo é basicamente da boca pra fora, sem grande sentido por trás. Podemos ver que a “perfeição” dela é, talvez, de certo modo, até certo ponto; louvável. Digna de uma heroína. Mas ao mesmo tempo podemos ver que há muita coisa horrível por trás dessa “perfeição”. Esse arco é uma prévia de muita coisa gigante por vir no mangá. Mas daqui vamos para o Flask Plan.

O conceito do Flask Plan, o projeto mantido no subsolo da Academia Hakoniwa, é grandioso: o que aconteceria se, num mundo com uma pessoa perfeita, todos os outros pudessem ser perfeitos? Como tal pessoa perfeita reagiria? Num mangá que vive de idéias, essa é uma que cria fantásticas possibilidades. Mas o arco do Flask Plan não é tão grandioso assim. Ele flerta com essa idéia, mas não a explora plenamente. Há momentos brilhantes no arco, como o assassino que não mata e a cientista que busca a dor, e esses momentos se conectam bem com as lutas (tenho um grande carinho por obras que usam a ação pra enriquecer suas idéias), mas eles parecem mais tangentes, digressões; não se conectam tão bem assim com o tema central. O vilão principal, Oudo, que deveria ser uma grande oposição ideológica a Medaka, é tristemente vazio se comparado ao Unzen do arco anterior. Em suma, o arco Flask Plan é um grande passo para trás… seguido por um fantástico pulo para a frente.

Ah, sim, isso é importante, antes que você perca o pouco de paciência que ainda tem com esse texto e seu tamanho: uma pergunta que eu me faço quando penso em escrever um texto para esse blog é “qual a coisa mais interessante a se dizer sobre essa obra?” No caso de Medaka Box, essa coisa talvez seja a própria existência de Medaka Box. E não dá pra pular etapas ao falar disso. Esse mangá foi coisas demais. OK? OK.

Sem meias-palavras agora: o Minus Arc é fantástico. Simplesmente fantástico. O conceito por trás é um dos maiores e mais fundamentais da obra: os “negativos perfeitos”, os que só falham, a perfeita oposição a Medaka. Sinceramente, me parece até sem sentido falar sobre todos os grandes momentos em que as idéias brilham nessa fase. A cada capítulo, o tema é trazido de uma nova maneira, aproximado de um diferente ângulo. Temos uma seqüência de lutas intensas, twists malucos e inversões de expectativa, que mantém sua coesão perfeitamente graças a suas idéias. Aliás, sobre lutas intensas: acho fascinante quando uma obra se propõe a usar lutas, conflitos físicos, para falar de idéias, coisas mais relacionadas com o psicológico. E é isso que Medaka Box faz aqui. As lutas não são instrumentos para manter as massas comportadinhas e impedir que elas reclamem das idéias; as lutas são as idéias. No meio do caos, tudo se integra de maneira completamente orgânica.

E é impossível falar do Minus Arc sem falar do motherfucking Kumagawa.

Kumagawa começa como o caos, e o caos mais absurdamente eficiente que já vi em qualquer história. Ele é diretamente responsável por toda a imprevisibilidade do arco. Tudo são suas maquinações. O leitor assiste o caos orquestrado por Kumagawa, e é surpreendido a cada capítulo com a magnitude da coisa. Quando ele assume a batalha contra Zenkichi, quando ele remove a visão de Zenkichi, quando ele se ressucita, quando ele revela que tudo era um plano para sabotar o treinamento que estava acontecendo paralelamente: é surpresa atrás de surpresa, pancada atrás de pancada. No sentido prático de roteiro, andamento e ação, ele é o fio condutor do arco. Os acontecimentos fluem muito bem porque ele é simplesmente muito bom.

Além de personificar esse caos, ele faz algo ainda mais importante: ele personifica a “anti-perfeição”, e assim ele gera todo o arco. Quando ele diz (em tradução livre) “aquele que disse ‘a vida é feita de altos e baixos’ certamente era uma pessoa feliz”, quando coloca todo o conselho estudantil em xeque ao fazer eles decidirem se vão realmente deixá-lo abandonar a escola, e em centenas de outros momentos, ele está levantando a bola para todos os debates. Em primeira instância, ele é simplesmente a pessoa ativa, o atiçador do debate, o cara que traz uma nova visão à discussão (nesse ponto já entendemos perfeitamente Medaka). Além disso, a visão dele é interessante. Cada desafio dele é relevante, cada posição dele tem um fundo de verdade. A proposição inicial da “pessoa perfeita” ganha muito mais profundidade graças a Kumagawa, porque ele é um contraponto fortíssimo à Medaka.

Acho que isso da contraposição ficou meio vago. Em linhas simples, é o seguinte: a Medaka é amada, o Kumagawa é odiado. As coisas dão certo pra Medaka, as coisas dão errado pro Kumagawa. A Medaka ganha, o Kumagawa perde.

“A Medaka ganha, o Kumagawa perde” é importantíssimo. É isso que começa a gerar o que talvez seja o mais fascinante de todos os lados de Medaka Box: a crítica ao status quo de mangás shonen e da Shonen Jump. Kumagawa, desde o começo, soltava vários jabs na filosofia shonen (e da Jump em particular), motivado pela ironia acima de tudo. Colocando seu lema como a inversão completa do lema da revista (“amizade, trabalho duro e vitória” se torna “relações frágeis, trabalho inútil e vitórias vazias”), sabotando arcos de treinamento, entre coisas do tipo. Isso se conecta muito bem com a imprevisibilidade do arco, porque brinca com as expectativas que temos devido ao conhecimento de todas as tropes do battle shonen, e se conecta perfeitamente com a contraposição à Medaka. Mas pra falar dessa última perfeita conexão, é necessário falar de um momento em especial.

Até o capítulo 88, Kumagawa é o caos, é a destruição, é a demolição de tudo o que conhecemos. Ele é extremamente interessante ao contrapor Medaka, sim, mas é basicamente isso que ele faz, e por isso foi basicamente disso que eu falei até agora. Mas tudo se torna muito maior no 88.

Com o discurso de Ajimu, Nisio Isin eleva a crítica ao ponto mais alto, mais cruel e mais verdadeiro durante todo o mangá, e diabos, talvez durante toda a história recente: “A mensagem dos mangás shonen para nós não é ‘amizade, trabalho duro e vitória’; é que os poderosos ganham no final”. Isso é grandioso e grandiosamente cruel porque é verdade. Os battle shonen que saturam o mundo atual se baseiam na simples premissa de que o protagonista vence, e todo o resto é consequência. Se você não é perfeito, se você não é o protagonista, você jamais será algo além de um personagem secundário marginalmente relevante. E se você se opor ao protagonista, meu amigo, você está acabado. Não há vitória. Jamais haverá.

E Kumagawa, como a suprema oposição ao protagonista, é isso. A falta de vitória. E seu discurso é lindo, é tocante, é absurdamente maravilhoso. É um grito do oprimido contra o opressor, é um grito contra o monopólio das vitórias, das conquistas e das esperanças. É o indivíduo mais sofredor do planeta dizendo que tudo o que quer é uma fatia do bolo.

O capítulo 88 se chama “É um prazer conhecê-lo”. E é isso que finalmente fazemos com Kumagawa.

É fascinante pensar que, por trás da pura audácia e beleza de cada uma das idéias que tornam isso possível, Nisio Isin eleva o carisma de Kumagawa a níveis astronômicos com a tática mais antiga de todos os tempos: ele cria o underdog supremo. É uma atitude natural do ser humano torcer pelo azarão, apoiar quem tem menos chance de ganhar. E nunca alguém teve menos chance de ganhar do que Kumagawa. É assim que funciona o battle shonen, afinal.

E a batalha final entre Medaka e Kumagawa entende isso tão perfeitamente… ok, parei. Parei.

Nem preciso dizer mais nada

O arco seguinte também começa a 100%. Resgatando o conceito de Flask Plan tão odiado por Medaka (que ainda se apega ao discurso de “trabalho duro”, presente desde o início do mangá) e com a nova figura de Ajimu Najimi, impossivelmente poderosa com seu quatrilhão de habilidades, porém insistindo que não pode derrotar Medaka, já que ela é a protagonista. É a simples e direta crítica à Shonen Jump novamente, e a introdução de uma nova e criativa oposição a Medaka: uma pessoa ainda mais poderosa que ela, porém que perderia num conflito direto. Há espaço para maquinações imensas por trás disso, e maquinações imensas estavam por vir.

O arco da caça ao tesouro é um pouco inferior a tudo do capítulo 88 até então, mas é meio injusto falar isso. É um pouco inferior no sentido que Sasurai Emanon é um pouco inferior a Omoide Emanon, ou no sentido que o próximo álbum da Joanna Newsom será um pouco inferior ao Have One on Me. Como diabos seria superior, ou ao menos do mesmo nível? Chega a ser surreal esperar algo assim. Enfim, de qualquer modo, a caça ao tesouro é fascinante em seus próprios méritos, e seu único ponto inferior ao resto é que não há uma grande oposição a algo, não há um grande debate de idéias que está na raiz de todo o arco. Não, Medaka senta no banco de trás, Ajimu senta no banco de trás. Kumagawa até está solto fazendo suas maluquices, mas sem um papel de oposição tão grandioso quanto o que tinha anteriormente.

Ainda assim, o arco brilha da maneira em que o arco do Flask Plan deveria ter brilhado: sendo interessante e envolvente em cada uma de suas interações, tangentes, e pequenos momentos não tão importantes no contexto geral da coisa. Os desafios são sempre criativos e bem-trabalhados, e as resoluções são simplesmente muito legais. A eleição do mais odiado e as maquinações de Akune para superá-la, o intenso jogo de cartas entre Kumagawa e Aka, a batalha da mahou shoujo Tsugiha contra o Cerberus imaginário, tudo é muito empolgante. Em diversos momentos, temas tangenciais são muito bem desenvolvidos: a relação entre a cozinha e a vida é lindamente explicada por uma robô que não pode experimentá-las, a batalha contra o Cerberus é uma linda ode à imaginação, o desenvolvimento de Akune é brilhante em seu clima de coming-of-age atrasado, e qualquer outro momento do arco serviria de exemplo.

Na caça ao tesouro, Medaka Box parte em direção a dezenas de objetivos que não são o seu principal, e alcança praticamente todos eles de forma infinitamente superior a imensa maioria. Apesar de não ser o pico da obra, esse arco me faz confiar quase cegamente em qualquer outro projeto em que Nisio coloque seu coração e sua caneta. Ele faz de tudo aqui, e prova que sabe fazer de tudo bem pra caralho.

E depois disso, partimos para a conversão de Zenkichi… tenho mesmo que falar sobre a conversão do Zenkichi? Isso não dispensa explicações?

Esse é um dos momentos mais cruciais do mangá inteiro, porque a partir daí tudo o que pensamos sobre Medaka (que, vale reiterar, é a peça-chave da obra) vai ser levado a outro nível. Uma coisa era ver Kumagawa encarar de cabeça erguida um monstro de poder inigualável, mas outra totalmente diferente é ver Zenkichi, que esteve ao lado de Medaka desde o capítulo 1, entender esse aspecto de monstruosidade. O fim do Minus Arc ainda contrasta o “heroísmo” de Kumagawa com o “heroísmo” de Medaka, mas aqui vemos a garota numa lente muito, muito mais negativa. Vemos seu mundo desmoronar enquanto as perspectivas de todos os personagens ao seu redor mudam. E vemos o mangá se transformando em algo simplesmente fascinante.

A cada capítulo, uma nova perspectiva é levantada e um novo ângulo é usado para demolir Medaka, sua perfeição, e algo muito mais amplo que isso. Aqui Medaka é, mais do que nunca, a representação do pior tipo de protagonista que temos hoje: o que, em seu núcleo, é simplesmente a perfeição, o cara certo e bonzinho que faz as coisas certas e boazinhas. As consequências de tal perfeição que cobre um núcleo vazio são completamente catastróficas, e é isso que o mangá quer mostrar aqui. É fascinante ver o grupo formado ao redor de Medaka desmoronar por perceber seus problemas, e é igualmente fascinante ver um novo grupo surgir ao redor de Zenkichi por perceber que ele é o mais louvável da situação.

É isso que devemos valorizar?

Enfim, durante toda essa maravilha crítica e exploração conceitual de todo o mangá de massa, o mangá vai dando dicas que está se aproximando do fim. Não com simples progressão de roteiro, desenvolvimento de conflito e construção até um gigantesco clímax: o mangá faz tudo isso, mas não só isso. Os personagens falam coisas como “esse é o tipo de coisa que só acontece nos últimos capítulos”, o narrador implica que “o fim está próximo”, coisa do tipo. Até que Anshin’in, a personagem mais meta, poderosa a ponto de ser transcendental, diz “eu vou encerrar esse mangá antes do começo do anime”.

OK, hora de contexto. O anime de Medaka Box foi anunciado lá pelo capítulo 115, esse anúncio de Ajimu ocorreu no 127. Não lembro se no momento tínhamos como apontar exatamente qual era o prazo limite (estréia do anime), mas se a memória não me falha, já sabíamos que seria na temporada de verão, o que nos dava uma boa estimativa. Um ou dois capítulos depois do 127, descobrimos a data exata, e assim, o capítulo limite, o último antes do anime. Era o 140. E o que se segue é completamente fascinante.

Nesse ponto Medaka Box foi, pura e simplesmente, o mangá que melhor usou uma característica intrínseca da mídia, a de “em publicação”. Aliás, não só mangá, me atrevo a dizer que foi um dos maiores nisso em qualquer mídia. Foram fatores externos usados para criar hype pelo andamento do roteiro, fatores internos usados para criar tensão pelo futuro mais prático da obra (“não vai ter mais?”), e simplesmente funcionou como se fosse fucking alquimia. Não consigo explicar porque algumas partes essenciais dessa experiência deram tão certo (as ameaças de Ajimu, por exemplo, soam meio nonsense no papel e fora do contexto), mas deram. E algo imenso foi criado.

Você nunca vai entender um Gen Pés Descalços tão bem quanto um japonês testemunha de Hiroshima/Nagasaki, um livro do José de Alencar tão bem quanto um brasileiro burguês do século 19, ou mesmo um Tropa de Elite tão bem quanto um carioca do início do 21. Mas o que diferencia todos esses exemplos do “leitor que entende a Shonen Jump e acompanha Medaka Box semanalmente” (sou o primeiro a admitir que esse é um grupo cultural muito menos “sólido”, mas não é o ponto) e do fenômeno que houve nesse mangá, nesse momento, é simples: mesmo revisitando a obra, a sensação não será a mesma.

Ninguém pode tirar sua nacionalidade ou etnia de você, e grandes obras criadas pra grupos assim continuarão ressoando fortemente por toda a vida do grupo, principalmente daqueles que a presenciaram. Mas a característica “em publicação” de Medaka Box nasceu como transitório, fadado a um fim. A partir do momento em que esse arco acabou, ele se tornou uma sombra de si mesmo, até para aqueles leitores que entendiam a Jump e acompanhavam o mangá.

E eu jamais vi qualquer obra que encarou isso com tamanha prontidão. Que partiu intencional e corajosamente para a obscuridade que estava a meros dias de distância simplesmente porque acreditava que a melhor experiência possível viria disso, mesmo que tal experiência fosse efêmera como foi. Provavelmente existiu outra obra assim por aí. Outra obra que teve as bolas e a capacidade para fazer isso. Digam-me o nome dela, porque eu quero conhecê-la. Porque essa atitude vale ouro puro.

Enfim, tentando recuperar alguma fração de imparcialidade aqui, preciso dizer que “as coisas que realmente acontecem” por alguns capítulos a partir do 127 não são tão empolgantes quanto todo esse contexto fantástico. O jogo de cartas e a batalha das bandas são bem empolgantes, ricos em significado e servem um propósito maior (o de intensificar a inevitabilidade do fim), mas não são exatamente os momentos mais brilhantes do mangá. Esses ainda estavam por vir. Esses começam na eleição.

our springtimeO capítulo 138 é absurdamente rico por um simples fato: não é simplesmente uma eleição em uma escola fictícia, é uma eleição sobre valores e discussões que são completamente nossos. E o público naquele momento, os que votarão na Academia Hakoniwa, somos nós. Cada um dos discursos fala sobre a Shonen Jump, o battle shonen, a perfeição, o trabalho, a honra, a humanidade. Cada um fala conosco.

O discurso das cinco Not Equals tem como foco a crítica estrutural à Shonen Jump e a seu público. Ele fala de como os sistemas de ToC e popularidade estão destruindo o verdadeiro diálogo e as políticas realmente construtivas de relação entre público (estudantes da academia, nós) e “sistema de controle” (conselho estudantil, Shonen Jump). Ele é um discurso acusatório, ele nos critica e diz que somos parte do problema, e pede a nós que possamos descobrir um modo melhor de fazer isso.

O discurso de Zenkichi nesse capítulo é a maior, melhor e mais fantástica crítica ao espírito podre que contamina o battle shonen, a Shonen Jump e seus leitores. É um discurso acusatório, que nos fuzila e diz que somos a essência do problema, e implora a nós que façamos as coisas do jeito certo daqui em diante. É tudo que Nisio Isin precisava realmente dizer.

Aqui, ele fala o quão patéticos somos com nossa auto-indulgência, com nossa pena de nós mesmos. Fala como somos verdadeiramente idiotas, talvez desprezíveis, por querermos uma presidente perfeita que pode resolver todos os nossos problemas. Nesse discurso, Medaka Box diz que não precisamos de uma caixa da Medaka. Que a perfeição pela perfeição é criminosa com todos. Esse discurso é uma belíssima ode ao indivíduo, ao livre-arbítrio e ao esforço levando às maiores vitórias. Nada mais apropriado vindo de Zenkichi. O homem comum.

E o discurso de Medaka, francamente, é patético. É o espírito podre do battle shonen tentando desesperadamente se justificar simplesmente por sua perfeição. É um discurso cheio de carinho por nós, que passa a mão na cabeça do público e diz que tudo vai ficar melhor se eles continuarem confiando na titia Medaka. É o que acontece quando se perde visão dos temas e sentimentos que realmente importam. É a perfeição pela perfeição representada pela primeira vez como realmente é: vazia.

Mas realmente crucial é o capítulo 139. Se o 138 é o golpe fatal, o 139 é a confirmação da morte. E a ressurreição.

Zenkichi vence. As cinco Not Equals ficam em segundo lugar. Medaka fica com pífios 2% dos votos, e quebra.

As análises de Maguro e de Anshin’in sobre os motivos de tamanha derrota são importantíssimas. Maguro defende que ela caiu por ser horrível e o público finalmente ser capaz de perceber isso. Anshin’in defende que ela caiu porque o público finalmente percebeu que ela tinha uma bondade dentro de si que não merecia o que estava sofrendo. Do jeito que é exposto no mangá, talvez possa passar despercebido, mas escrevi desse jeito para ser possível notar que esses são conceitos conciliáveis. Porque eu acredito que o essencial está na conciliação dos dois. Na morte e na ressurreição.

Zenkichi destruiu a perfeição de Medaka com o golpe mais eficaz possível. Ela não pode proteger se as pessoas não querem ser protegidas. Ela não pode causar mudança se estamos decididos a mudar por nós mesmos. Ela se torna completamente inútil. Em uma sociedade finalmente consciente de seus valores e seus erros, não há lugar para a Medaka que conhecemos até o capítulo 138. O público rejeita o battle shonen sem alma, o universo rejeita a perfeição desumana, e os rejeitados perdem sua razão de ser. Isso é a morte.

Quando Medaka pergunta a Zenkichi “por que motivo eu nasci?”, ele claramente balança. Ele pode fazer a garota de seus sonhos completamente sua com rápidas frases. Ele pode dar a ela um novo motivo de vida. Mas ele não o faz.

Qualquer discurso bonito que Zenkichi pudesse fazer sobre um novo propósito (fosse esse qual fosse) seria um instrumento de retórica vazia. Qualquer novo propósito criado do nada teria o vazio em sua alma. Medaka não seria mais a representação do podre no battle shonen, mas seria no romance, na comédia, no mistério ou no que quer que viesse. Seria tão falho quanto o que acabou de ser demolido.

Zenkichi propicia a Medaka a única verdadeira ressurreição possível: a de criar seu próprio caminho, com a ajuda daqueles que gostam dela. E o mais bonito e essencial de tudo é a frase seguinte: “If you reach the same conclusion, that you do want to make people happy and that you wish to fight for that, then I will root for you all the time”. Esse é o núcleo emocional e empático que coloca a crítica de Medaka Box numa posição muito distante do simples ódio ao battle shonen. Aqui a obra reconhece que há um lugar para isso, para a verdadeira paixão pelo ser humano, pelo verdadeiro desejo de deixar a vida das pessoas felizes. Aqui, Medaka Box entende que o battle shonen pode ter alma, e deixa o caminho aberto pra isso, e respeita isso profundamente.

Em sua crítica visceral àqueles que percorrem o caminho errado, esse mangá é a maior homenagem aos que fazem isso por todos os motivos corretos. De certo modo, lutar contra o conceito de battle shonen nunca foi o objetivo da obra. Na verdade, ele homenageia muitos dos grandes na linda página da conversão de Zenkichi. Mas nesse momento, ele deixa claro que há um caminho para Medaka, e há um caminho para nós. Que podemos realmente fazer isso direito. É a mais pura ressurreição.

E o 140, imediatamente posterior, é a glória. Ele é genial por combinar planejamento anterior absurdo e revelação de altíssimo impacto para criar uma fascinante metalinguagem, ao mesmo tempo imensamente cerebral e imensamente visceral. Ele é genial por usar tudo isso para fortalecer o que acredito que mais importa, personagens, criando a “caracterização relâmpago” de Anshin’in, como o fez com Kumagawa no capítulo 88. Ele é genial por criar uma das mais impressionantes motivações na história de um chefão final, a de perder, para confirmar a si mesmo que sua existência ainda tem motivo. Mas ele é absolutamente transcendental por um único motivo: porque é a glória.

Tudo se resume a uma única questão: Medaka salva uma vida nesse capítulo. A nova Medaka, a Medaka reformada, a Medaka que não mais acredita que a perfeição se auto-justifica, salva uma vida. De maneira totalmente visceral, ainda não verbalizada ou até mesmo formalizada por um narrador, ela acredita que pessoas valem à pena. Ela faz o que talvez seja sua maior e melhor ação, e a faz, pela primeira vez, pelos motivos certos. O capítulo 140 é a glória do battle shonen correto. É a coroação dos valores realmente fundamentais. É o mangá nos dizendo que, do jeito certo, não há nada mais importante do que isso. E ele nos convence. E como convence.

É o final perfeito. Em personagens, temas e sentimentos, é o final perfeito.

…O que nos leva a uma série de complicações. Porque Medaka Box não acabou no 140.

Não é difícil formular uma possível razão. Animes são oportunidades de ouro para dar um upgrade imenso nas vendas dos mangás, e a Shonen Jump teria imensa dificuldade em abandonar tamanha galinha dos ovos de ouro em potencial. Na mesma temporada, Kuroko no Basket estreou e rapidamente multiplicou por muito suas vendas. Pelo menos para mim, parece razoável imaginar que a Shonen Jump usaria alguma tecnicalidade legal para impedir Medaka Box de simplesmente acabar no 140.

Não estou dizendo que foi isso que aconteceu. Estou dizendo que é uma explicação bem plausível. Pessoalmente, acredito em algo do tipo (talvez de maneira menos dramática, não seria insano pensar que Nisio não insistiu muuuuito). De qualquer maneira, Medaka Box não acabou em seu final perfeito. O que aconteceu, então?

Bom, aconteceu o arco Jet Black Bride, o momento mais baixo do mangá até então. Olhando objetivamente, talvez empate com o School Days, mas aquilo foi o início, e isso foi a sequência do ápice. É um arco fraco tornado pior pela maravilha que veio antes.

Meh. Nem dá muita vontade de falar disso. Alguns conceitos mais amplos são interessantes (Medaka lutando por si mesma, por exemplo), mas… Acho que Nisio aqui estava só procurando uma desculpa pra brincar com o que talvez seja seu artifício favorito, brincadeiras linguísticas (o que torna tudo ainda pior para nós, já que não estamos lendo em japonês e quase tudo se perde na tradução). Novamente temos um arco sem grande antagonista para se contrapor a Medaka, e apesar de alguns momentos funcionarem bem (Kumagawa sempre será Kumagawa), em suma, é um arco com pouco brilho. Mas acima de tudo, talvez o maior problema com ele seja simples: é muito difícil fazer Medaka Box funcionar depois do 140.

E esse também é o maior problema do arco seguinte. Mas a Fresh Ride é mais complicada.

O arco do Iihiko, o “Unknown Shiranui”, começa tão ruim quanto ou pior que o seu antecessor. Apesar de o grande contexto ser relativamente interessante, até promissor (Shiranui era claramente menos explorada que qualquer outro personagem relevante da obra), a execução é meia-boca demais. Nisio parece não se esforçar pra fazer algo relevante, parece esquecer o peso por trás das mensagens que tinha. Premissas que poderiam ser usadas brilhantemente em outros momentos (como a do quarteto principal lutando contra clones de si mesmos) são um troço pálido e sem graça, que se torna ainda pior por contrastar com o antigo brilhantismo da obra.

Até as premissas antigas parecem ser esquecidas, quase desonradas. Ajimu, cujo conceito se baseava fortemente na premissa de que ela não podia perder… perde. E não há um novo conceito relevante para justificar isso. Parece que Nisio decide que não poderia escrever um mangá com um personagem literalmente onipotente. É o tipo de coisa que deveria parar um autor medíocre que joga pelas regras, mas não poderia parar Nisio Isin. E o aparecimento relâmpago dos personagens do Flask Plan pra promover a segunda temporada do anime… é uma das coisas mais deploráveis que já vi. Não há a menor justificativa pra aquilo. É um golpe baixíssimo, é um insulto infantil ao público, e é deprimente vindo de um autor e de uma obra que são muito maiores do que isso.

Mas as coisas nunca são simples quando se trata de Medaka Box. Depois de meses de horrenda irrelevância, algo acontece. Não me cabe o entendimento das forças maiores em movimento na cabeça dos mangakás. Talvez Nisio tenha cansado de fazer merda. Tido uma crise de consciência pesada e decidiu se redimir. A Jump tenha mandado ele fazer o que costumava fazer. Jamais saberemos. O que importa é que Medaka Box, timidamente, volta a significar algo importante. E talvez mais do que isso.

As mudanças são realmente tímidas. O conceito de “herói caído” usado pra definir Iihiko soa interessante, a idéia de que apenas palavras podem alcançá-lo soa criativa, o plot-twist sobre Fukurou é impressionante, a luta contra a garota que canta pra deixar todos mais jovens se mostra surpreendentemente conectada com idéias maiores, e lentamente o mangá vai se recompondo. Aliás, não se recompondo; isso implicaria que ele volta a ser o que era. Não é bem isso que acontece.

Como deve ter ficado claro depois de tanto texto, Medaka Box foi muitas coisas diferentes. Mas em seus momentos mais marcantes e mais memoráveis, foi um mangá crítico, quase cruel, em relação ao battle shonen. Desmontando seus clichês e expondo seus piores problemas, mergulhando no âmago de muitos e revelando todo o vazio que se encontrava por lá.

Mas em seus melhores momentos pós-140, a obra faz algo que só fez no próprio 140: mostrar o outro lado. Ser o outro lado. O battle shonen com vigor, com alma, com razão de ser. Nessa parte, Medaka Box pouco parece battle shonen, se olharmos para a estrutura de lutas ou para o andamento do roteiro. Mas se olharmos para os temas? Para as idéias, para as emoções em jogo, para as maiores razões pelo qual apreciamos obras? Aí as coisas se encaixam muito bem.

Iihiko é um herói que protegia sua terra, punia os maus, lutava com seus companheiros. Um herói caído, que perdeu o que tinha que defender. Os heróis atuais têm que usar styles para derrotá-lo porque “palavras podem alcançá-lo”. Para derrotar a garota que canta, Medaka usa uma canção, definida no mesmo capítulo como um meio, não um fim. Como comunicação. Como “um estilo que nos permite sentir com todo mundo”.

Os perigos do heroísmo. Um inimigo inegavelmente cruel. Uma tênue esperança de redenção. Empatia. Esses são conceitos que fazem parte da alma de um battle shonen, ou talvez de qualquer obra onde “herói” e “inimigo” sejam conceitos aplicáveis. São muito mais importantes do que sistemas de poderes, lutas tradicionais ou coisas desse tipo. Essas coisas são a forma. Os conceitos são o conteúdo. E Medaka Box, mais uma vez, pouco se importa com a forma. Porque domina bem demais o conteúdo.

Se não está convencido, pense um pouco mais. Iihiko, o herói caído, não soa como o battle shonen que saiu de seu caminho, que perdeu sua essência? O professor Fukurou, valorizando imitações falsas e descartáveis, não nos lembra da perfeição pela perfeição? Do battle shonen pelo battle shonen? Não é isso que Medaka ataca com sua canção, quando entende que a canção (e a perfeição, e o battle shonen: tudo são analogias) são meios, não fins?

Medaka Box se reergue. A era de “fingimento”, de protagonistas dolorosamente errados, de vilões honrados nos mostrando o que realmente importava e sendo dizimados por isso, havia passado. Foi uma era fantástica, e o 140 a encerrou com perfeição. Medaka Box se reergue com protagonistas que realmente entendem como se relacionar com o mundo ao seu redor, enfrentando todas as falsidades que o mundo pode oferecer. A obra se reergue de maneira verdadeiramente heróica.

Essa fase não é tão boa quanto o Minus Arc, ou o arco de Ajimu pós-conversão de Zenkichi. A oposição Medaka/Iihiko não é tão forte quanto Medaka/Kumagawa ou Medaka/Ajimu, Nisio não parte em praticamente nenhuma tangente muito interessante, de vez em quando a obra fica tão emocional que quase parece sentimentalismo barato. E como já falei, o começo desse troço é horrendo, e isso reverbera pelo resto do arco.

Mas ainda assim… há a luta de canções e a empatia. Há o professor Fukurou e seu amor pelos produtos falsos, e a crítica presente nas entrelinhas. Há o capítulo 179, um dos mais belos momentos do mangá, o confronto entre uma heroína e uma ex-heroína, uma das mais fantásticas defesas ideológicas da bondade e do heroísmo. Há a última resistência de Medaka contra Iihiko, a honrosa e verdadeira incapacidade de desistir dos amigos, uma das características mais amáveis em qualquer herói.

Há a linda conversa entre Zenkichi e Nienami, onde é brilhantemente defendido que maior do que a força, o intelecto ou o potencial, é a empatia. Há a luta final entre Zenkichi e Iihiko, que usa o poder da amizade no sentido quase literal, de alguma forma beirando o sentimentalóide e mantendo a pura e simples honestidade ao mesmo tempo. Há o absurdamente magnífico capítulo 185, onde Kumagawa explica com mal-disfarçada emoção tudo o que ele próprio significa (e porque ele é um personagem tão fantástico), e Zenkichi sintetiza o arco, o mangá, e, me atrevo a dizer, o centro de bondade da espécie humana. Empatia. Tudo é empatia, e aqui isso é defendido com paixão, talento e determinação que raramente vi igualadas.

Esse arco é muito, muito irregular. Sempre parece seguir numa direção por um tempo, até dar uma finta no leitor e partir por outro caminho, melhor ou pior, mas sempre um novo caminho. Ele contém momentos apenas passáveis, momentos que são abominações da natureza, e momentos entre os mais grandiosos já criados na mídia.

Esse arco é puro Medaka Box.

O fim não-oficial do mangá é o 185. A Corrida de Cem Flores e o epílogo são simples pontas sendo amarradas e temas ganhando um último retoque. É menos o último ato de uma peça e mais o momento em que os atores se juntam para se curvar à platéia. É fanservice, é bobo, é artisticamente desnecessário, mas a gente gosta. Fazer o quê? É uma despedida bonitinha e digna.

E ainda assim vale muito, por um único motivo.

Empatia. É isso que Medaka aprendeu. É isso que Medaka Box ensinou. E por isso, tudo vale a pena.

Esse texto, em seus estágios iniciais, foi motivado por uma única pergunta: “como lembraremos de Medaka Box?” Pode parecer uma pergunta meio jogada, meio gratuita, mas as respostas podem nos dizer muito sobre nós mesmos. Valorizamos mais a qualidade constante ou o efêmero brilhantismo? Os golpes incisivos ou as mãos estendidas? Que tipo de obras queremos, afinal?

Depois de pensar um bocado, cheguei a uma conclusão que me soou bem razoável. Medaka Box é um mangá que está longe, muito longe da perfeição, por sua própria natureza. Ele tenta muitas coisas, e tem diversos resultados bem diferentes nessas tentativas. Mas sua maior força está nisso. Em sua ousadia de falar o que outros não falavam, de mergulhar nos sentimentos que outros não encarariam, de tentar o que a maioria jamais tentaria. E, se quisermos ser razoáveis, precisamos respeitar isso. Esse é o tipo de obra que merece profundo respeito simplesmente por sua existência.

Mas ser razoável não combina com essa obra. Ela foi tudo, menos razoável. Ela foi muito mais do que isso.

Até mais, Academia Hakoniwa. Foi um prazer conhecê-la.

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Sobre rauzi

Escrevendo para me lembrar que era verdade.
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7 respostas para Medaka Box

  1. Ever disse:

    Que isso ein, esse texto foi escrito com uma empolgação sem tamanho. Não sei se já disse, mas seus textos são sempre muito bem escritos, aliás, praticamente todos os textos do blog são bem escritos.
    Enquanto tem uns blogs por aí que nem um bom português apresentam, aqui, mais do que isso, tem uma estrutura de texto ótima, demonstrado por esse fucking walltext que deu pra ler de boa.

    Como não li nem sequer 1 capítulo do mangá, não posso comentar muito, mas parece ter umas sacadas bem boladas no âmbito de criticas a Jump. E bem, se de fato Medaka Box apresenta pelo menos um pouco do que você expressou aqui, acho que pelo menos cumpriu o seu objetivo.

    Enfim, boa… epic review, talvez.

  2. dozen51 disse:

    Parabéns pelo incrível post.
    Ainda estou no meio da saga dos minus,mas esse post me empolgou bastante.
    Estou muito curioso pelos arcos seguintes.

  3. BELÍSSIMO texto. Finalmente alguém conseguiu me explicar porque gosta de Medaka Box. (Desculpa, camaradas BuffetDance e Nintakun) Ainda acho o mangá uma droga em geral, mas ainda assim acho as opiniões válidas. Fiquei muito feliz de encontrar vários comentários parecidos com interpretações minhas de Medaka Box, o que me deixa aliviado por eu não ser um maluco. (Ou talvez torne o autor do texto outro maluco 😛 )

    Só senti falta do texto citar algo que, pra mim, é o segundo maior momento de genialidade de Medaka Box: que é quando no último capítulo revelam que todos os poderes dos personagens sumiram quando eles chegam a vida adulta. Isso é importante como crítica aos battle shonen (sempre eles), de que parece que só crianças podem ter poderes e fazer coisas fantásticas. É como se os poderes dum battle shonen fossem uma metáfora à imaginação, e como esse elemento fosse exclusivamente infantil, e que adultos são essencialmente inúteis nesse mundo. O próprio mangá subentende isso, se lembrarmos como nenhum professor nunca teve papel ativo numa história que se passa essencialmente numa escola. Shaman King é outro mangá que flerta com esse tema, fazendo a maravilhosa metáfora do “teto” (quem leu, sabe). Mas, essa revelação é importante também por outra coisa, que também é um dos elementos centrais de Medaka Box: é como se Nisio Isin, ao tornar o fantástico e o lúdico algo infatil, estivesse perguntando ao leitor adulto o que ele está fazendo lendo mangás shonen. Foram 4 anos de publicação de Medaka Box. Uma pessoa muda muito em 4 anos. Nisio Isin, no capítulo final, lança ao leitor a pergunta “Ok, há 4 anos atrás você gostava de mangás de lutinhas com poderes. Mas, você ainda gosta disso? Você sabe que eles são feitos pra crianças, né? Será que não está na hora de seguir em frente e buscar novos horizontes?”

    Mesmo no último capítulo, Medaka Box se mantém firme em instigar e criticar tanto o meio que ele está inserido (o battle shonen, principalmente da Shonen Jump) quanto o leitor. Em 1 capítulo ele conseguiu expressar quase tanto conteúdo quanto o arco dos Not Equal inteiro. Ainda acho Medaka Box um mangá falho. Por mais que eu adore ficar tirando interpretações malucas do mangá, como entretenimento ele não é bom. Ler Medaka Box em si é um saco. Na minha opinião, se uma obra diverte mais com elementos paralelos a ela do que por ela mesma, ela é um produto falho. Mas não me arrependo de ter lido Medaka Box. Apenas não recomendo o mangá pra NINGUÉM, pois ele é um produto datado a partir do momento que seu último capítulo foi publicado, como bem disse o texto.

    • mr. Poneis disse:

      Eu acho muito legal como você define o manga como falho, mas o faz após tê-lo lido por completo… muitas pessoas simplesmente desistem de ler a coisa toda ou julgam o material sem ter qualquer base relevante… só por isso seu comentário é por demais louvável… Sua análise sobre o último capítulo me caiu como uma bomba também (eu, velho demais para ler a Jump?), para lá de perspicaz…

      Mas tenho de discordar a respeito de sua constatação de como o manga é falho… A ideia de que uma manga perde valor por depender de motivos externos para gerar diversão não me parece uma argumento válido… o manga tem como premissa ser uma desconstrução de tudo o que estamos acostumados em um shounen manga… provavelmente toda aquela mecânica de síntese, tese e antítese seja válida aqui…

      e se me permite, uma outra coisa que eu acredito, é que um autor e sua obra são um aglomerado de tudo o que os cerca… você precisaria de um status divino para criar algo do nada… Usando de exemplos, várias obras de comédia são contruídas (ou fazem uso dada a oportunidade) em cima de shout outs como Gintama, Sket Dance, Nichijou, The Simpsons etc etc…

      Sobre ser datado, esta com certeza esta é uma opinião completamente leiga de minha parte… mas o que hoje em dia, já está em publicação a mais de seis meses e esta livre de ser considerado datado? A única resposta que me ocorre é a Bíblia e esta afirmação tende a variar dependendo de sua orientação religiosa…

      Agora sobre ser um saco, você me pegou com as calças na mão… eu adorei os personagens, as propostas apresentadas pela obra e o andamento da história como um todo (todo o nonsense inclusive)… o que me torna a pior pessoa para argumentar a respeito… prefiro até evitar o domínio que rege o quanto uma opinião é bela e válida simplesmente por ser um gosto pessoal porque é um tópico civilizado (leia politicamente correto) demais para mim… temo que a minha idade mental é apenas 12 anos de idade…

      Até mais ver
      mr. Poneis

      Ps.: Muito obrigado por citar Shaman King!

  4. mr. Poneis disse:

    Outro texto incrível… grande, detalhado, cheio de belíssimas recordações, mas ainda assim incrível… ainda tenho que ler qualquer outra coisa que já tenho sido escrita por Nishio-sensei mas Medaka Box é, tenho certeza certeza uma leitura ímpar… diferente de muita coisa que você lê na Shounen Jump, diferente de muita coisa que você lê em manga hoje me dia, infelizmente uma leitura para poucos, se é o que comentários que com que me deparei internet afora me fazem acreditar… o que aumenta em muito o valor deste post.

    Eu até diria que o texto carece de alguma menção a arte de Akatsuki Akira… mas talvez vocês tenham algum post para falar apenas disso…

    Lembro que uma das únicas coisas que eu acredito foram lastimáveis durante a minha leitura foi que era difícil acompanhar os rankings da Jump e ver que Medaka Box nunca era bem posicionado durante as avaliações semanais promovidas pela revista… Eu até entendo que competir com One Piece é algo aquém do que muitos autores cogitam hoje em dia… Também entendo que a publicar na Jump era mais por gosto do que um trabalho remunerado, mas ranquear na metade de baixo do ranking sempre me pareceu inaceitável…

    Bom, resta saber se Good Loser Kumagawa vai ter mais capítulos na Jump SQ…

    Até mais ver
    mr. Poneis

  5. De5ert0r disse:

    PF alguem me diz o manga parece não ter tradução alem do capitulo 170 e termina no capitulo 185 é isso? qualquer outra explicação agradeço.

  6. Medaka Box foi Incrivel, comecei a lé esses dias junto com o anime, viciei e conclui em 4 dias, porém, por mais que o final tenha sido lindo e épico, eu não fiquei satisfeito com ele, simplesmente aconteceu o mais obvio, se o anime tivesse acabado no capitulo 140 (que na minha opinião, foi um dos melhores de todo o manga e me fez bater palmas) ainda teria sido melhor. Primeiro vou explicar os meus motivos:

    1. A relação de Zenkichi e Medaka foi incrivel, era obvio que grande parte do povo via o manga justamente por causa desse casal e do Kumagawa,falo isso como um fã também, porém, não gostei pelo fato de ele não ter feito Zenkichi realmente ”declarar-se” totalmente para a Medaka, por mais que a cena do beijo deles ter sido perfeita, so teve aquele, e inclusive o Zenkichi teve momentos fodasticos pra se declarar a ela, e se isso tivesse acontecido, seria mto Foda. Como na hora que eles vão se despedir, no ultimo arco, e ela pede pra ele ir com ele, mais ele recuso e ela fala” ”Caramba, ser rejeitada pela mesma pessoa duas vezes. ”Bem já era de se esperar com esse meu poder femenino”.”Mas ainda assim, essa forma de se machucar nem se compara com aquela vez de quando eu tinha dois anos, eu tomei mais dono do que quando o IIhiko perfurou o meu estômago”.”Não parece que essa ferida pode ser curada com uma habilidade, eu vou la chorar onde ninguém possa ver, por favor, Zenkichi, não me siga”. Nessa hora eu pensei que ele ia agarrar ela pelo braço e dar um beijo apaixonante e o cap justamente terminar ai, e no seguinte uma verdadeira ”declaração”. Porém isso não ocorreu.
    2. O segundo ponto vai justamente para o Time Skip, não achei bacana a ideia de mostrar eles mais velhos, namoralzinha, qual tipo de pessoa que ia esperar 10 anos pra se declarar para a amada? Porém caso tudo tivesse terminado ja, ai seria interessante.
    3. Final comum e simples, porém, esse final poderia até ser o suficiente, se tivesse acontecido um beijo, ou então até mesmo mostrado mais paginas, tipo o casamento deles ou algo do tipo. O final foi lindo e épico como já disse, quase me arrancou lagrimas, porém não arrancou porque quando fui passar a pagina, simplesmente já era os créditos… Dá até a sensação que o manga foi ”cancelado”, porém não foi, simplesmente independente do resultado eles iam se casar, porém, deixou apenas na imaginação dos fãs e não mostrou, algo que não gostei.

    Esses foram um dos motivos por eu não achar o final bom, porém nao foi ruim, até agora que eu já reli algumas vezes eu ainda fico triste, pois realmente acabou :(. Oque me deixou bolado, foi o fato do especial do Kumagawa ter mais de 40 paginas, enquanto o manga final dos protagonistas não ter mais que 23 paginas, realmente não entendo esses autores. Mais concluindo tudo, foi uma obra prima, principalmente para aqueles que conseguiram enxergar a essência do manga, os personagens, metáforas, tudo, foi esplendido, pena que foi um manga injustiçado. Mesmo que o manga já tenha acabado a algum tempo, espero que a Jump pelo menos no futuro tenda a continuar o anime, já que vários estão voltando, bom, sonhar não é ruim 🙂

    Pretendo aprender a desenhar e copiar os traços, e refazer um final digno pra serie, pode levar tempo, mais isso não vai me parar 🙂

    Saudades eterna da Medaka-Chan, vai ficar marcado em mim pelo resto da minha vida, ou melhor, ja me marcou *.*

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