Crybaby, afinal, é sobre Devilman?

Este texto talvez esteja atrasado, afinal o sucesso estrondoso deste anime foi com o seu lançamento em 2018. De todo modo por variadas razões somente agora senti necessidade de assistir esta produção original da Netflix, conduzida por Masaaki Yuasa, que faz uma releitura ocidentalizada de Devilman, clássico de Go Nagai. Crybaby deve ser compreendido como movimento em um jogo complexo dentro da indústria de animação.


Não considero Crybaby uma boa adaptação, porque nos detalhes trai o espírito da obra original. E explorarei isto no texto. Por outro lado, a série merece análise enquanto elemento dentro de um novo cenário do mundo da animação, aquele em que a Netflix tenta se tornar não apenas distribuidora, mas também produtora de animes, e que além disso, tenta se destacar como pioneira em um novo estilo de animação, que seria resultado de uma mistura eclética e contemporânea de características da animação japonesa com as expectativas do público ocidental. Não é exagero dizer que a Netflix tenta ser a protagonista do mercado de animes para ocidentais.

Primeiramente, preciso explicar porque afirmo que Crybaby serve como releitura ocidental, mas não como adaptação. E por releitura ocidentalizada quero dizer releitura segundo certos cânones do público ocidental contemporâneo. O valor de Crybaby não está na trama. Excluindo o estilo criativo de animação imposto por Yuasa, pouco há de se louvar. O roteiro é fraco, e sobretudo para quem já conhece o mangá de Go Nagai, se torna difícil de continuar acompanhando, principalmente nos primeiros episódios, nos quais são inseridos muito elementos que não estão no original e nada acrescentam à trama, como a ênfase excessiva nos esportes e no atletismo, a metáfora de passar o bastão sendo jogada na cara do espectador a toda hora, aquela aventura bizarra nas florestas sul-americanas, bem como a inserção e morte dos pais de Akira Fudo. Enfim, tudo isto incomoda, porque não acrescenta nada e não é sequer interessante. O episódio da revelação da existência dos demônios em uma competição de atletismo é particularmente tosco.


Portanto, o ritmo da trama é muito fraco, sendo que em 10 episódios é bem possível que uns 2 ou 3 sejam repletos de situações que pouco acrescentam ao desenvolvimento da narrativa.

Mas até aqui é ok, é passável. São problemas, mas facilmente vistos em tantos outros animes, ou seja, dá para aturar, porque a animação criativa acaba se sobrepondo ao roteiro ruim. Aliás, mesmo a animação tem seus altos e baixos, mas no geral faz valer o estilo Yuasa. O problema começa agora. Uma adaptação pode mudar situações, acrescentar e eliminar personagens, fazer alterações, afinal não é simples transportar uma narrativa feita em uma mídia (mangá) para outra (anime). O problema está quando a adaptação trai o espírito, a mensagem do original.


Existem modificações sutis, que podem ter passadas despercebidas mesmo a olhos de fãs, mas que impactam a identidade da obra de base. São tantas, mas focarei em apenas algumas, aquelas que considero as mais substanciais. Por exemplo o personagem de Ryo, que no mangá já começa como uma figura taciturna, melancólica, misteriosa, mas certamente ainda conscientemente procurando a sobrevivência dos humanos. Mesmo quando Zenon e seu exército se revelam a toda a população mundial ele influencia Akira a evitar intervir precocemente não porque deseja o fim dos humanos (conscientemente), mas porque considera estratégico deixar o Devilman ainda oculto da sociedade. E de fato, em meio ao caos total da reação humana não parecia sensato o envolvimento de Devilman. É somente depois, ao perceber que tudo que ele projeta de fato se dá na realidade, que ele começa a suspeitar de tudo, o que deságua na recuperação da sua memória como Satanás. E mesmo após isto ele continua dividido, continua abertamente amando o amigo Akira. Ou seja, a divisão interna entre Satanás e Ryo é evidente e conduzida com qualidade por Nagai, mas muito frágil em Crybaby, porque aqui desde o início Ryo é claramente um manipulador, que enrola e controla Akira/Devilman, mas não sente qualquer remorso em matar quantos humanos forem necessários. O Ryo de Crybaby é cínico desde o começo. Isto se reforça também no final, pois no original deixa-se implícito que ele mata acidentalmente o amigo, mas em Crybaby o movimento de ataque para cortar ao meio o adversário é intencional. O Satanás de Nagai é alguém que mais do que os humanos odeia a Deus, e por este ter preferido os humanos aos demônios, faz todo este plot. No entanto, no processo se envolve com um humano que o faz ficar dividido.


O ponto acima é uma falha grave, mas a próxima é pior. No mangá Akira já tinha perdido a confiança nos humanos antes de saber da morte de Miki. Após descobrir tantas atrocidades feitas pelos humanos ele já conclui que não há, de fato, uma superioridade moral da humanidade sobre os demônios, e decide dedicar a vida apenas a proteger a amiga Miki. E é neste momento que a amiga é morta em uma das partes mais impactantes e sensacionais da trama, porque com isto a decepção de Akira se transforma em total desolação, total niilismo, e a própria existência da humanidade não merece mais sequer ser defendida.


Portanto, a morte de Miki não faz ele se voltar contra Ryo, mas sim provoca o mergulho total e definitivo no niilismo. Talvez pareça bobagem, preciosismo, o que estou dizendo, mas repito, entendo ser essencial, porque mancha a dimensão profundamente raivosa e anti-humanista do mangá original.

No mangá Akira já sai desolado e descrente na humanidade quando descobre experimentos em um laboratório. E já desiludido decide ao menos defender Miki. Reforço, após a cena da descoberta de como os humanos eram tão ou mais perversos que os demônios há um momento que Devilman de fato está sentado em uma escada refletindo sobre o que fazer, porque já não sentia que valia a pena salvar humanos, e eis que se recorda de Miki e vê nela a última razão de sua luta. E logo na sequência descobre o fim da amada. É um escalonamento brilhante de angústia e desespero. No anime isto não ocorre, aliás, muito pelo contrário, porque na cena anterior Devilman sai reforçando sua esperança na humanidade quando crianças e adultos o abraçam e confiam nele. Ok que Yuasa faz referência a outras obras da franquia, mas no contexto não funcionou, porque eliminou a parte mais devastadora do mangá, que é o escalonamento do desespero.

Discordo de quem diga que o mangá seja uma obra anti-belicista. Mais do que anti-guerra, Nagai faz uma obra que retrata descrença no valor da existência humana como um todo. Os humanos são decadentes, corruptos moralmente, e depravadores do planeta, sejam aqueles dos anos 60 em plena Guerra Fria, sejam os medievais, revolucionários e tantos outros apresentados nas viagens temporais conduzidas por Ryo, que servem como explicação da trama central que gira em torno da ideia de preconceito e ódio contra o outro. O humano, para Nagai, aparentemente é quase incapaz de amar outros humanos (com raríssimas exceções, como a do próprio Akira), e sobretudo outras espécies, tal como se apresenta no discurso do demônio Jinmen (outro personagem interessantíssimo que se torna pálido em Crybaby, sobretudo por não trazer o diálogo acerca dos humanos se alimentarem de outras espécies sem considerar aquilo como assassinato). Também Selène (a personagem favorita de Nagai), bela mesmo coberta de sangue, é uma personagem que perde brilho em Crybaby, porque demasiadamente humanizada.


Em Crybaby o fim dos humanos é conduzido pelo plot de Satanás. No mangá Satanás entrou no mundo humano para compreender sua psicologia e entendeu que com alguns movimentos e já conseguiria o objetivo, porque a própria humanidade iria extinguir a si própria. No mangá isto é evidente, Devilman compreende isto, que o que Satanás faz é nada mais do que oferecer o caminho, mas quem de fato produz a própria morte é a humanidade. É uma diferença sutil, mas que faz enorme diferença, porque muda completamente o espírito da obra. Se tudo é simplesmente plot de Satanás, se Ryo é manipulador desde o início, se é porque Miki morreu que Akira muda drasticamente, a pobre humanidade é simplesmente uma vítima dos planos demoníacos. No mangá o que Satanás faz é simplesmente deixar a perversão humana levar à sua auto-destruição. A diferença é grande. Aliás, em Crybaby até no episódio final Akira segue dizendo para Ryo que é humano e está lutando ao lado dos humanos, sendo que no mangá a questão já havia se tornado simplesmente de relação pessoal entre eles ou no máximo uma disputa entre demônios e Devilman e seus seguidores também homens-demônios.

Nesse sentido chega a ser irônico, porque Crybaby tenta se passar por uma série ousada e arrebatadora, que tem coragem para exibir momentos contínuos de sexo e agressividade. No entanto, não teve ousadia para manter o espírito original, precisou amenizar ao público e poupá-lo da dor, afinal, decide tratar os humanos como se não passassem de pobres vítimas de Satanás porque este está em guerra com o seu pai.

Enfim, com estas considerações penso que seja suficiente para a compreensão de que como adaptação Crybaby não triunfa. Mas vale como releitura ocidental, e aqui a animação de Yuasa que se aproxima de tendências contemporâneas ocidentais se justifica.

Depois de tudo isto, pergunto: qual é o objetivo de Crybaby? A resposta parece bastante óbvia, e a escolha de Yuasa já deixa isto claro: Crybaby integra uma proposta de se consolidar um ‘padrão internacional’ de se fazer anime. Crybaby não é feito para o público japonês, mas ocidental, e mais espeficamente americano, e sabendo disto o rap, o atletismo e tantas coisas aparentemente inúteis na trama passam a fazer sentido. Não é de se estranhar que segundo se diz mais de 90% da audiência de Crybaby venha do exterior, embora seja, ao menos hipoteticamente, uma produção japonesa.

Mais do que história, Crybaby está vendendo um ‘estilo’, uma ideia de anime feito conforme padrões, expectativas e desejos de um público ocidental. O Crybaby da Netflix reforça a busca desta produtora em se afirmar como criadora de conteúdos de animação que desafiem continuamente a fronteira entre animação ocidental e japonesa, ou mais ainda, que seja capaz de produzir animações japonesas para uma audiência ocidental. Economicamente e geopoliticamente é uma percepção bastante astuta, porque o sucesso estrondoso da série comprova que eles tinham base para aquilo que fizeram, que de fato existe este público ocidental que espera consumir certos tipos de animes que não se encaixam naqueles padrões tipicamente japoneses. Ora, imagino que todos tiveram a sensação, ao ver Crybaby, que não estavam assistindo um anime que tem a mesma atmosfera daqueles tantos feitos para o público japonês.

E tampouco estou dizendo que isto é errado, é uma proposta, e não é a primeira vez que ocorre, porque desde as suas origens há animes feitos pensando em públicos estrangeiros, ou seja, mesmo os japoneses invariavelmente tentam fazer animes para serem primariamente exportados. Faz parte do jogo, é mercado.

O Crybaby da Netflix não foi pensado para gerar reflexão, mas para provocar sensações superficiais diante de corpos despedaçados, cenas de sexo explícito, muitas mortes, simbolismos superficiais. O espectador tem que ser tipo a querida Cassie de Skins e dizer ‘wow’ para tudo, se sentir adulto e maduro porque assiste cenas de violência e sexualidade que quebram paradigmas. O objetivo é este, que o público se sinta maduro, livre de estereótipos, e ainda com pitadas de intelectualismo. Em Crybaby a trana é secundária, primário é causar o choque e fazer o espectador dizer ‘wow’. E nisto realmente se parece com produções mainstream ocidentais contemporâneas…

Se o diabo se esconde nos detalhes, é ali que se entende Crybaby.

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