Kaze Tachinu: comovente despedida de Miyazaki

Isto não é uma review nem uma análise completa de Kaze Tachinu, mas apenas reflexão sobre certo sentido comovente na obra final do mestre Miyazaki. Não tenham receio de criticar ou trazer outros pontos da obra para discussão.

Texto repleto de spoilers.

O brilhante italiano Giovanni Caproni diz a Jiro que a engenharia inovadora, tal como as artes, depende da inspiração (ecos da bruxinha Kiki), e que esta tem seu esplendor por apenas dez anos. A intensidade com que o jovem talento vive estes dez anos definirá a força de sua criação. Kaze Tachinu é a biografia fictícia de como Jirou Horikoshi (e podemos dizer também Miyazaki) viveu estes seus dez anos de chama inspirativa.

Desde criança vemos um Horikoshi distinto dos demais (cena dele buscando o livro em inglês, por exemplo) e plenamente consciente do que pretende com seu futuro: projetar belos aviões. Não aviões de guerra, nem aviões de passeio, nem os aviões mais modernos, nem aviões mais rentáveis comercialmente, não, ele quer projetar belos aviões. Horikoshi é um artista, muito mais que a maioria dos artistas modernos, que desprezam o Belo.

Quando lemos biografias daquelas pessoas que mudaram o mundo (incluindo os grandes do ramo de negócios) é comum constatarmos que desde muito jovens desejavam realizar grandes e belas coisas que dariam sentido à sua existência. É como se cada grande homem viesse ao mundo com uma vocação, cuja realização possibilitaria a plenitude de sua vida.

Em Kaze Tachinu este tema é sempre situada no mundo dos sonhos, que primeiro é apenas de Caproni, mas que depois passa a Jirou. Por qual razão? Porque Jirou não encontra ninguém durante a história que consiga compreender seu sonho. Os outros personagens captam parcialmente, captam nuances, sabem que o sonho de Jirou é maior e que eles mesmos não compreendem por inteiro. Os outros personagens não conseguem dialogar com Jirou nesse volume de profundidade. Miyazaki invoca um grande do passado, um ídolo de Jirou, para realizar tal papel. Na Ilíada há recurso literário semelhante, pois como nenhum personagem grego tinha condição moral de dialogar com Aquiles em pé de igualdade ou até superioridade o poeta Homero recorre à figura do velho Fênix, seu mestre.

Jirou leva a sério o conselho de viver intensamente seus dez anos, ao ponto de encher de lágrimas suas páginas de cálculos enquanto se desloca para ver a amada doente, ou ainda quando não deixa de trabalhar incessantemente mesmo estando ela em seus derradeiros momentos ao lado dele. Não se trata de insensibilidade, pois tanto Jirou como Naoko sabem que ela o ama bastante por esta razão, por este modo intenso de perseguir seu sonho.

Por que é permitido a alguém como Jirou sacrificar momentos como este? Porque o sucesso de Jirou será garantia de maior qualidade de vida a um país inteiro. Estava sobre suas costas a missão de tirar o Japão de seus vinte anos de atraso em relação ao Ocidente na indústria aeronáutica. Como teria sido a história se Jirou tivesse sido mais irresponsável? Ou melhor, como teria sido a história se tantos jovens talentos tivessem sido mais responsáveis?

O erro de Miyazaki está em tratar a citação dos dez anos como algo absoluto. Ora, o próprio Kaze Tachinu é prova do relativismo desta ‘regra’. Kaze Tachinu é a mais madura, profunda e meditativa obra de Miyazaki.

Tomara que Miyazaki seja o Caproni de futuros grandes criadores de animações.

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2 respostas para Kaze Tachinu: comovente despedida de Miyazaki

  1. Acabei de descobrir esse blog por um post do Ao Haru Ride do Hegff lá no Dollars e… wow! Que surpresa encontrar tantos posts arretados… ia começar matando este aqui, MAS parei quando li “Texto repleto de spoilers”. Volto aqui e leio no fds, depois de ver o filme!
    PS: As discussões sobre Mononoke Hime tb me pareceram muito interessantes. Não tem como não gostar desse filme. Voltarei a elas tb no fds com minhas impressões das críticas!

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