Escuridão e Luz da Europa em Noir (2001)

Primeiramente agradecemos de coração as palavras carinhosas que recebemos nos últimos tempos lamentando a ausência do blog. É reconfortante saber que podemos, de alguma forma, ajudar as pessoas. Não prometeremos retorno consistente nem periodicidade frequente, mas ao menos algumas postagens de vez em quando. Segue uma hoje sobre o anime Noir, de Koichi Mashimo.

Tem spoilers.

Cada obra possui uma chave de leitura, uma informação que se identificada abre o roteiro inteiro e todo o quebra-cabeça torna-se óbvio. É esta chave que precisamos procurar em cada obra. Sem ela as interpretações não passam de achismos. Em Noir de muita valia para encontrá-la foram as conversas com o colega Gorgoll, do blog: http://gorgollbar.blogspot.com.br/, que compartilha do gosto pelo estudo da história das civilizações.

É o caso de Noir. Ninguém precisa da chave pra gostar de Noir. A trama é emocionante e empolgante, os cenários europeus são lindos, as personagens são cativantes. É tensão permanente, Koichi Mashimo não oferece um segundo de humor. Tenha certeza que você certamente poderá gostar muito de Noir ignorando totalmente o que escrevo na sequência. A cena da conversa louca do chá, à luz de vela e da Lua, é refinada, majestosa.

Portanto, se o seu objetivo é se divertir o que falarei é supérfluo. A preocupação com a interpretação mais coerente só faz sentido se você realmente deseja entender o que passa na obra, de onde ela vem, por que o autor escolheu fazer isto… Enfim, esses questionamentos me fascinam, é como tentar dialogar com o autor, tentar descobrir a causa que o levou a produzir a obra

Algo apaixonante nessas investigações é que você invariavelmente terá que mergulhar em assuntos não familiares, ou seja, você sempre sairá com mais cultura. É uma forma de aprender e tornar o passatempo mais produtivo e formador.

A chave para entendimento de Noir é a doutrina dos cátaros, que teve seu ápice aproximadamente 1000 anos atrás, e considerada herética pela Igreja Católica acabaria sendo um dos estopins para o início da Inquisição. A região mais afetada pelo catarismo foi Languedoc, no sul da França, onde inclusive encontra-se o lugar sagrado esquecido pelo tempo e que serve de palco fabuloso para a sequência de episódios finais. Altena nos vinhedos é marcante.

O catarismo é muito mais antigo do que isso e tem raízes no maniqueísmo. Essencialmente o catarismo defende o princípio da dualidade entre matéria e espírito, sendo a primeira má e a segunda boa e perfeita. Para os cátaros o mundo foi criado por dois deuses, o do Antigo Testamento teria criado o mundo material, portanto corrupto e nefasto, e o do Novo Testamento o espírito, a parte perfeita e eterna. É lógico, portanto, que a alma é boa e está aprisionada em um corpo maléfico.

Disso decorrem outras implicações. Se o corpo é maléfico devemos evitar que ele se reproduza (portanto o casamento e a reprodução eram combatidos pelos cátaros), daí o fato de que matar alguém não se torna um pecado mortal, pois estaria destruindo a parte corrupta (matéria) e libertando a parte sagrada (a alma). Os cátaros defendiam a existência da reencarnação. Os milhares de mortos em Noir, portanto, não são somente vítimas, numa ótica cátara.

Se o corpo é maléfico é indiferente o sexo. A alma é pura e desprovida de sexo. A mesma alma pode encarnar ora em corpo masculino, ora em corpo feminino. Decorre desse fato a razão de pesquisas que vem sendo feitas na busca de um suposto ‘proto-feminismo’ (considero a expressão extremamente exagerada) no catarismo. Para alguns pesquisadores o catarismo veria a mulher com melhores olhos do que a doutrina oficial da Igreja Católica, reservando inclusive um lugar especial a Maria Madalena como guia espiritual de Jesus Cristo. É muito provável que nessa linha de pensamento Mashimo tenha encontrado justificativa para o fato de as protagonistas serem sempre mulheres.

Les Soldats são os cátaros, agora corrompidos internamente e divididos em duas (sempre duas) facções: a de Altena, que busca reformar a instituição a fim de retomar às ideias originais; e a facção representada pelos cinco homens. A primeira protege as protagonistas, a segunda tenta matá-las.

A segunda facção é corrompida porque foi vencida pela matéria (dinheiro, poder, etc.). A facção de Altena é pura porque mantém a espiritualidade (a Mansão é desprovida de energia elétrica e mantém sua condição de paraíso natural). Nesta ótica conspiracionista os cátaros estariam por trás do nascimento de inúmeras organizações criminosas, como a máfia siciliana.

A facção de Altena é o espírito cátaro. A facção rival é apenas uma organização criminosa poderosíssima que controla os bastidores de praticamente o mundo inteiro.

A expressão ‘pecado’ é algo recorrente na obra. Num primeiro momento pareceria contraditório, já que se fala tanto em pecado mas ao mesmo tempo pessoas morrem o tempo inteiro. Não é contraditório porque embora pecado ali represente conceito mais abrangente, capaz de envolver questões como gula e ganância, é evidente que se refere mais a um pecado em específico: a luxúria, o aspecto que interliga as duas protagonistas à Chloe. Afinal, notemos, a série começa com o discurso da solidão de Kiriko (é tão-somente para enfrentar a solidão que ela busca Mireille). A solidão retorna como argumento central no discurso final de Chloe, a justificativa de todas as suas ações.

É nesta contraposição entre luxúria/amor e ódio que se pode compreender o mantra de Altena, repetido diversas vezes e negado pelas protagonistas ao final. Se o amor pode gerar ódio (reproduz a matéria) o ódio pode curar (morte da matéria).

Kiriko lembra as palavras finais da mãe de Mireille, de que se o amor pode causar ódio por outro lado o ódio não salva ninguém. Não existe salvação pelo ódio.

O final é tocante, porque não nega a escuridão de 1000 anos da Europa, mas o perdão de Mireille a Kiriko revela a luz de 2000 anos da Europa, a luz do perdão. Perdão é um dos maiores dons já oferecidos à humanidade, e se trata de mérito exclusivo do cristianismo. No maravilhoso Roma, Città Aperta (1945) de Roberto Rossellini, Aldo Fabrizi, interpretando Don Pietro é ameaçado pela Gestapo a revelar informações secretas que teria recebido nas confissões. Com a tranquilidade de quem serve a propósitos maiores Don Pietro responde que as confissões e os perdões iriam com ele para o Céu.

Autocrítica e perdão são ideias que até podem existir de modo similar em outras culturas, mas nunca com tanta força e influência como no Ocidente. Em uma época onde a civilização ocidental se vê atacada por todos os lados é indispensável que coloquemos as cartas na mesa. A escuridão europeia é poderosa, mas a luz também.

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2 respostas para Escuridão e Luz da Europa em Noir (2001)

  1. macedonia disse:

    Afinal, o que estão fazendo os outros membros?

  2. Musashi disse:

    Eles tem vida também cara, pense nisso.

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