O mundo precisa de mais Annes

Anne01

Tem (acho) spoilers.

Akage no Anne (Anne of Green Gables), dirigido por Isao Takahata e baseado no clássico literário da escritora canadense Lucy Maud Montgomery, é uma das pequenas maravilhas produzidas pela Nippon na época áurea do World Masterpiece Theatre, e transmitida em 50 episódios no decorrer de 1979.

A viva imaginação de Anne nasceu com ela ou nos seus primeiros anos de vida, quando, para escapar de uma infância dominada pela fome, tristeza e solidão teve que inventar amigos imaginários, sonhos e mundos paralelos habitados por fadas a fim de manter viva a chama de sua existência? Provavelmente nasceu com ela, mas foi ativada e desenvolvida naqueles anos. Se não fosse a sua fértil imaginação Anne não teria encontrado forças para sobreviver. E se sobrevivesse, poderia ter enlouquecido, ou ao menos se tornado uma criança seca, áspera. Talvez pareça loucura dizer isso, mas a criação de mundos paralelos ajudou Anne a continuar viva.

E não é simplesmente a criação de mundos paralelos, mas a criação, manutenção e fé em um sentido na vida, algo que Viktor Frankl já havia observado na sua experiência horrível em um campo de concentração nazista. Frankl afirmava que aqueles que pareciam manter vivo o sentido de suas vidas, a esperança em um futuro melhor, tendiam a ter mais chances de sobreviverem à realidade trágica.

A criação de mundos imaginários, portanto, nasceu em Anne como necessidade para sobreviver ao mundo real, algo que alcança o núcleo do realismo fantástico, sobretudo quando aborda a fantasia em paralelo à realidade destruidora da guerra e da fome. Autores latinoamericanos foram particularmente notáveis nesta abordagem.

Depois de criada esta habilidade permaneceu com ela para toda a vida, a ponto de se desenvolver e se tornar quase que como uma segunda natureza.

Anne não é mais uma criança solitária. Agora ela é adotada, tem amigos, uma vizinhança que a reconhece. Tem família e escola. Tem carinho.

E há um mundo fabuloso, lindo e real diante dela. O mundo dos grandes campos verdes, dos jardins, dos bosques, das montanhas, dos pássaros, das vacas, da primavera, do verão, do outono, do inverno. Anne agora tem um mundo ainda mais belo que aquele imaginário que possuía antes. Então, oras, não é natural matar seus mundos imaginários?

Nada disso. Anne povoa o já belo mundo real com suas fadas, deuses e todos os personagens literários que conhecera e namorara em seus romances. Anne e suas amigas nomeiam cada bosque, cada lago, cada árvore. Nomear é distinguir aquilo de todo o resto. Há muitos lagos no mundo real, mas somente um Lake of Shining Waters.

Antes a imaginação criava mundos. Agora ela encanta e aperfeiçoa o mundo real. E não se assustem, porque Anne realmente se encanta com o mundo real, mais do que todos os demais personagens da série. Anne sente o vento, o odor das flores, o canto dos pássaros, as cores do céu, o calor brilhante e revitalizante do Sol. Anne sente isso tudo mais do que todos, e por isso os sacraliza, os devolve às suas reais condições divinas.

Anne é um pequeno sol. Ao redor dela todos se reorganizam, todos mudam. Anne dá brilho à existência de Avonlea. Não apenas para Marilla e Mathew, mas para Diana, Jane, Josie, Mr. Lynde, Josephine Barry, Professora Stacy, e mesmo para o seu rival/amado Gilbert Blythe. Os olhos de Anne brilham mais (e por isso são os únicos olhos realçados na série). Avonlea tem mais vida por causa de Anne.

Em um dos momentos mais belos de toda a série o humilde, carinhoso e amável Mathew olha para o céu com sua expressão tenra e agradece a Deus por seu presente. Para Mathew, Anne somente pode ser explicada como presente de Deus. É especial demais, é bom demais para Avonlea. Mathew afirma isso pensando em como Anne chegou. Uma série de enganos e complicações levaram Anne a Green Gables. O erro da Senhora Spencer, a frieza seca da outra candidata a adotá-la, e assim por diante. Haviam tantos lugares, tantas famílias que poderiam adotar Anne, mas ela caiu ali, em Avonlea, e aqueceu a todos. Isso somente poderia ser presente de Deus.

Anne é claramente mais inteligente, talentosa, corajosa, viva e ambiciosa que todos os demais personagens. Em cada brincadeira, seja para andar sobre o telhado, ou deitar em uma canoa levada pela correnteza, Anne é sempre a primeira, aquela que arrisca tudo. Cada segundo da vida de Anne é essencial, pode ser a última chance de realizar algo único. Mesmo quando pensou ter comido maçã envenenada e que morreria Anne aproveita seus imaginados últimos instantes. Anne é especial, e por isso todos a amam (e por vezes a invejam).

O momento simbólico da diferenciação entre Anne e os demais é quando as aulas particulares com a Professora Stacy começam. Diana não participa, e Anne inicialmente não compreende a decisão. Para Anne todos amam o mundo como ela, todos amam brincar como ela, todos amam estudar como ela, todos têm sonhos grandiosos como ela. Mas as outras pessoas não têm todas estas expectativas. A maioria das pessoas possui metas mais comuns, objetivos mais simples. E quando entendeu isto, Anne compreendeu Diana.

A trajetória de Anne é sempre ascendente, com aprovações em concursos para colégio, faculdade, vitória em eventos, etc. E não podemos nos enganar: não foi fácil. Não é porque ela seja mais talentosa que ele não teve que trabalhar e estudar com dura disciplina, dia após dia, noite após noite, privando-se de quase todos os seus prazeres. A sorte de Anne pode ter caído do Céu, mas ela teve que segurá-la. O caminho de Anne é sempre ascendente, ao menos até os eventos fatídicos finais.

Os episódios finais trazem a difícil e complexa decisão de Anne. O mundo estava pronto para o seu brilho, e aparentemente ela dá um passo para trás. Será?

A última conversa com Josephine Barry é um ponto emblemático. A senhora Barry é talvez a personagem mais preparada (no sentido intelectual, econômico, histórico) de toda a série. Anne explica as suas razões e Josephine entende (mas não compreende). Mesmo Josephine não compreende Anne. Talvez nenhum daqueles personagens compreendam Anne (talvez Gilbert?). Mesmo sem compreender, Josephine sorri e inveja Marilla Cuthbert.

Como compreender a decisão de Anne?

A resposta, assim como a resposta para toda a série, está na sua carta final, que encerra o episódio 50.

Se para Matthew e Avonlea Anne é um presente de Deus; para Anne poder ser adotada por Marilla, Matthew e toda Avonlea também foi um presente de Deus. Se Avonlea deve muito a Anne, Anne deve muito a Avonlea. Anne diz que não, mas sabe que é genial, mas um gênio precisa do mundo, precisa de pessoas, de um espaço para crescer e brilhar. A divisão entre gênios/não-gênios é uma divisão tendo em vista a responsabilidade. Um gênio nasceu com mais talentos, e por isso precisa dar ao mundo. Um gênio NASCEU com esse talento. Retribuir o talento ao mundo é sua obrigação. Um gênio não é superior nem inferior a qualquer outra pessoa. E Anne jamais se viu como superior a qualquer outra pessoa. Para ela Matthew, Marilla, Diana, Stacy, o pastor, Senhora Josephine, todos eram pessoas de valor e sabedoria, e que de alguma forma poderiam ensinar-lhe muito. Se não chegasse a Avonlea e fosse a outro lugar, que será que aconteceria à pequena Anne? Jamais saberemos.

É necessário frisar: Anne não desiste de seus projetos e sonhos. Anne continuará estudando, continuará trabalhando, no aguardo de novos sonhos e projetos. Não é uma renúncia ao desenvolvimento, é uma gratidão com o mundo.

A frase final, retirada do célebre poema de Robert Browning, “God’s in Heaven, All is Well on Earth(World)” realça o conteúdo metafísico da decisão de Anne. Como ela chegou a esta decisão? Observando as flores, o céu, o sol. Anne percebeu que mesmo nos seus piores momentos, mais solitários, mais dolorosos, ela continuou sentindo alegria e vida ao estar com a Natureza. A Natureza e toda a sua vivacidade é a prova para Anne da existência de uma Ordem superior, e enquanto esta Ordem se manter tudo estará bem na Terra. Se Anne não desistir, não deixar nunca de perseguir seus sonhos, logo a vida virará para melhor novamente. Não é Cristianismo. É Teologia Natural, nascida da experiência racional (dom da imaginação) de Anne com o mundo.

Mais do que de direitos o mundo precisa urgentemente de mais Annes.

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2 respostas para O mundo precisa de mais Annes

  1. João disse:

    Vaca, amo seus textos. ❤
    Você já assistiu o anime de Emilly of the New Moon, de 2007? É baseado numa obra da mesma autora de Anne e parece ter algumas similaridades. Se assistiu, vale a pena?
    Seria legal ver mais textos seus sobre esses animes baseados em livros antigos.

    • Vaca disse:

      Haha agradeço o comentário, é sempre bom saber que há pessoas que acompanham e gostam. Esse anime não assisti, mas sei que a história original tem bastante similaridade com a Anne sim. Dois animes baseados em livros que vi recentemente e quero escrever sobre são Future Boy Conan e Kemono no Souja Erin. O segundo, em especial, é excelente!

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