Inverno na colônia

Antes de qualquer coisa, um agradecimento especial ao blog Impedimento, bandeira maior que ilumina tantos tolos sonhadores como nós, que aguardamos o ressurgimento de algo especial. Muitas das informações que estão abaixo foram inspiradas em textos retirados de lá, mas se eu fosse citar todos demoraria muito. Fica então um cumprimento a toda a equipe. Nem sempre se concorda com tudo. Mas muito mais importante que a concordância neste ou naquele ponto é concordar com o essencial, de que queremos a mesma coisa. Eu mesmo não concordo estrategicamente com muitos rumos dos acontecimentos, mas o núcleo é explosivamente vivo. A causa vale mais que os meios.

A História muitas vezes é sádica. Do contrário não permitiria que a Itália sofresse gol de um Dante, por exemplo.

Mas quem, felizmente, depois de décadas voltou a sofrer com o sadismo de Clio é a dona FIFA. Em 1982 a Colômbia, futura sede da Copa do Mundo de 1986 corajosamente peitou a Proprietária do Futebol e desistiu de sediar o puteiro dali a quatro anos. Os motivos? Oras, é realmente dizer quais os motivos?

Pois bem, a Copa foi para o México, sobre a hora. Mas como se já não bastasse o vexame imposto pela Colômbia a dona FIFA sofreria vergonha ainda maior no próprio torneio. O maior dos crimes foi numa data mística que ontem completou 27 anos. Um pobre jovem latinoamericano impôs a Thatcher derrota extraordinária em plena Guerra das Malvinas, el gol del siglo. Barrilete cósmico, que não sabemos de que planeta veio, deixou milhares de ingleses para trás antes de fazer o maior dos gols, a sua máxima obra de arte, talvez equiparada apenas por aquele outro gol naquele mesmo dia, o gol que fez justiça divina.

Diego, do povo, de Fidel, de Che, das drogas, da luta napolitana contra as máfias do norte, do Boca, inimigo maior da FIFA, e que infelizmente terminaria derrotado em 94, quando sorrateiramente foi proibido de ser bicampeão.

E como Clio é sádica naquele mesmo ano de 1994 a prostituta preferida da FIFA seria campeã depois de 24 anos, jogando um futebolzinho pra lá de brasileiro a la anos 2010. A partir dali tal prostituta, adquirida definitivamente em escambo de espelhos e outras bugigangas inúteis, tornou-se bem particular da Globo, da Nike, da CBF, da FIFA… começaram as eras dos jogos comprados em países sem qualquer reputação, começaram as vendas de camisetas e a divulgação da marca, começaram as mudanças de leis que mataram o futebol brasileiro, começaram os ronaldinhos, marcas da dona FIFA. Uma morte longa e dolorosa, sofrida a cada dia por cada apaixonado pelo futebol. Era a tal modernidade, que matou o esporte rei. A mesma modernidade que vem matando a música, a literatura, o cinema, os mangás, os animes, a cultura. A mesma modernidade que vem matando o ser humano. A decadência suja que ano após ano transforma mais e mais seres humanos em meros objetos catalogáveis a partir de ‘gostos’ e ‘não gostos’.

Os ingressos aumentaram 300% entre 2003 e 2013. Nem a gasolina aumentou tanto. Vieram leis estúpidas como a Pelé, que para supostamente acabar com a “escravidão” dos jogadores os tornaram joguetes comerciais de empresários que nada entendem de futebol. Contra a suposta “violência” tiraram o povo e transformaram futebol em ópera (que eu adoro, mas não em estádios de domingos). Não existem mais pessoas jogando futebol, só Neymares e outros bonecos falantes, incapazes de dizer qualquer coisa que não seja ditada por assessores, filhotes daquele cavaleiro dourado da FIFA, que hoje ‘comenta’ jogos na Globo.

Mas aí cometeram o crime mais nefasto e descarado. Derrubaram nossos estádios, que sim, precisavam ser reformados, precisavam de segurança. Mas não precisávamos de Arenas caras, inúteis, genéricas, sem qualquer marca, sem qualquer magia. Mataram o Maracanã. Como conseguiram matar o maior templo de nosso futebol?

É verdade que a maioria que está nas ruas não sabe de nada disso. Protestam, entre tantas coisas, contra o custo da Copa, irrisório se comparado a esta morte agonizante que nos vem imputando dia após dia. Mas estão lá, protestando e ameaçando. É contra tudo e todos. Sem pauta objetiva. Sem objetivos claros. Talvez tenha líderes escondidos. Talvez tenha interesses econômicos e ideológicos manipulando. Talvez. Talvez. A onda é tão grande que nada disso pode conter tudo. Talvez não dê em nada. Até acho que objetivamente dará em nada. Os vinte centavos serão dados como esmola e colocados em outro lugar. Mas o impacto foi causado, pessoas acordaram. Pessoas que hibernavam em berço esplêndido finalmente acordaram. Não há porra nenhuma de Gigante acordando. O hino brasileiro tem nada a ver com o Brasil. Está na hora de começarmos a escrever algo que seja realmente nosso.

Antes de ontem entramos no inverno. Um longo inverno em épocas de temperaturas amenas, um longo inverno que se estenderá por um ano e terá sua tempestade máxima em 2014, quando o maior dos colonizados da FIFA se rebelará.

É a crise da democracia representativa? Sim, é. O povo sabe para onde quer ir? Não, não sabe. O povo reclama e exige coisas, o que claramente denota respeito a tal democracia representativa. O povo poderia ser mais violento, sem medo no falso moralismo do “sem vandalismo”.

A onda de protestos é apenas mais uma semente, como tantas que vem se espalhando pelo mundo nos últimos anos. Talvez a explosão máxima nem seja aqui. Mas ela influenciará essa explosão final, seja lá aonde for.

O que precisamos é nos responsabilizar. Não adianta nada ir à rua berrar e depois tocar a vida como sempre fazemos, consumindo as mesmas estupidezes, fazendo as mesmas merdas. Não adianta só xingar a corrupção. É preciso que sejamos cidadãos dignos o suficiente para nos tornarmos grandes políticos, grandes empresários, grandes advogados, grandes jornalistas, grandes engenheiros, grandes professores, e assim em qualquer outra profissão. Se cada um mudar radicalmente suas concepções e seguir espalhando essa dedicação maior a outros teremos uma lenta e efetiva revolução. Não adianta dizer que o sistema é corrupto, porque sempre foi. Mas se o sistema é corrupto e não nos garantimos contra a corrupção então o buraco é mais profundo que imaginamos e a própria luta perde o sentido. Não é demagogia.  Os dois caminhos são necessários. Cada pessoa que acordar já pode fazer grande diferença. Bola de neve tropical.

Ir às ruas é essencial, e sem hipocrisia e falso moralismo. Mas o radicalismo precisa se expandir a toda área da vida. Somente assim, depois de mais de 500 anos, poderemos ter mais uma Primavera.

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2 respostas para Inverno na colônia

  1. Eu disse:

    O hino brasileiro tem nada a ver com o Brasil.
    Só queria que você comentasse o que tem contra o hino, ou o que quis dizer aqui.

    • Vaca disse:

      O Hino Brasileiro é esteticamente belo, mas não sinto nele a mesma representação popular e força que encontramos em tantos hinos nacionais. Ele passa uma noção de abstração, de mais cantar louvores do que realmente entender o povo brasileiro. Nem precisa ir para a Europa, só comparar com hinos de outros países latinoamericanos e fica fácil entender. O Brasileiro talvez seja o ou um dos hinos mais belos do mundo, mas acho que a função do hino vai além de ser belo.

      De qualquer forma ali foi apenas para reforçar o argumento de que a história brasileira raramente é feita pelo Brasil. Não é que eu esteja dizendo que devemos trocar o hino ou algo assim, seria desperdício de tempo.

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