O herói homérico, o inquisidor moderno e nós

Desculpem, comi os desenhos.

Recentemente perdemos um dos grandes críticos de cinema, o bom Roger Ebert. Muita gente adorava o velhinho. Muita gente não gostava. Alguns diziam que ele era condescendente demais com “filmes ruins”. Pode ser. O que ninguém discorda é que ele amava filmes. Como poucos. O vídeo do Nostalgia Critic e o texto do Nelson Hoineff resumem bem isso. Ebert queria que cada novo filme fosse o melhor possível. E para isso mergulhava intensamente para encontrar as qualidades de cada obra.

Aí vem a pergunta capital: por que alguém que ama filmes se esforçaria em procurar defeitos? Você ama alguém pelos defeitos dela ou pelas virtudes? Se você é um gestor vai procurar explorar as virtudes da pessoa ou os seus defeitos (lógico que ajudará a superar os defeitos também, mas não será isto que determinará o sucesso da pessoa)?

Existe algo muito importante e sério chamado “subjetividade da consciência”. É algo que atormenta nossa civilização desde tempos remotos, desde as primeiras filosofias, desde as primeiras religiões. O mundo moderno viu nascer o método como tentativa de neutralizar ou ao menos reduzir a subjetividade da consciência. A obra de Descartes é uma ótima chance de entender isso.

A psicanálise aumentou o buraco. A relatividade não só aumentou como pareceu mostrar que não há saída. Husserl colocou a ciência em crise a partir da ideia de intencionalidade da consciência. O cientista não pensa livremente. Todos somos guiados por aspectos obscuros de nós mesmos. O biólogo chileno Maturana demonstra tudo isso a partir de argumentos biológicos.

Ok. Este é um blog sobre mangás e animes. Você pode dizer: “Vaca, não viaja, ler mangás é bem mais simples que essa baboseira toda que você falou”.

Pode ser.

De qualquer forma é fundamental entendermos isso: nós não somos livres ao discutir qualquer coisa. Nós somos guiados a ver algumas coisas, sabe-se lá porque, e impedidos de vermos outras.

Daí eu chego à primeira e singela conclusão desse texto: qualquer texto que você escrever fala mais de você do que do objeto. Tenha isso claro.

A Ilíada, de Homero, é um clássico universal de valor inestimável. É uma obra que merece ser lida enquanto você está vivo. Se não leu, digo que está perdendo muita coisa. Talvez você conheça a história toda da Guerra de Troia, já que ela já foi adaptada infinitas vezes para TV, cinema, livros com figurinhas, etc, etc. Mas não é a mesma coisa, garanto.

Os versos de Homero não valem ouro. Ouro não é digno de Homero. Daria pra fazer tratados sobre a Ilíada. O que quero destacar aqui é apenas um ponto, um singelo ponto, crucial para entender a Ilíada, e depois demonstrarei o valor disso para nós hoje: a Areté, ou Virtude, numa tradução aproximada.

Areté é uma expressão grega tão grega, e que foi empregada de modos diversos por diversos autores gregos, que é difícil traduzi-la por virtude, mas deixemos assim. A areté em Homero é a excelência, e mais do que excelência, a excelência heroica. A Ilíada é uma obra sobre heróis.

Não herói em sentido bobo e superficial. É herói na existência, é o ponto máximo que qualquer sujeito pode alcançar em seu potencial. Homero não está interessado em banalidades, em potenciais não desenvolvidos. Homero quer que cada um seja o melhor que pode ser. Não importa se você é grego ou troiano, se você é Aquiles, o protagonista da obra, ou Agamêmnon, Ulisses, Menelau, Heitor, etc. Se você é Zeus ou Hera. Não importa. Cada um pode ser muito maior do que é hoje. Cada um pode alcançar ou até transcender seu limite.

Todos têm defeitos. Aquiles é infantil, é arrogante, é ciumento, é uma criança mimada. Mas tem coração extraordinário. Tem uma coragem extraordinária dentro. E ele desperta ela. A aresteia é o ato de despertar este herói grandioso dentro de cada um. Homero faz isso na Ilíada. Você se sente pequeno, pacato, sem graça, quando lê a Ilíada. Não deveria. Homero ficaria puto se você reagisse desse jeito. Você deve encher o peito e tentar crescer, ser maior do que é hoje. Alcance sua Arete.

Homero sabe dos defeitos/vícios de todos os seus heróis. Mas e daí? Não é nos defeitos que ele foca, é nas virtudes. É sempre nas VIRTUDES.

Porra, eu fico puto com isso. Os grandes mestres da Humanidade, de todos os tempos, sempre focaram suas doutrinas nas virtudes, na melhor parte. Nunca foram negligentes com os vícios/defeitos, que precisam ser superados, mas focavam nas virtudes, que é o lado especial de cada ser humano.

E por que nós, do alto de nossa arrogância e pequenez, achamos que temos direito de ficar catando, com todas as forças possíveis, os defeitos dos outros? Quem te dá o direito de pegar uma listinha de compras e a cada mangá lido sair, como ave de rapina, a esmiuçar a obra à procura dos defeitos mais escondidos possíveis? Algo como o critério da refutabilidade popperiano sendo aplicado em lugares e de forma que Popper pegaria câncer e morreria antes da hora.

Você pode fazer isso, desde que faça também o oposto, para as virtudes. Infelizmente a prática revela que quem acha facilmente os defeitos nunca (ou quase nunca) encontra as virtudes.

Talvez porque, como diz o crítico Hulk, os defeitos geralmente são tangíveis, e as virtudes são intangíveis. É fácil achar defeitos em Naruto, One Piece, Bleach e Fairy Tail. Difícil é explicar as virtudes das grandes obras.

Mortimer Adler, grande autor do século passado, mente clássica, defensor da Paideia grega, tem um livro bem interessante chamado “Como ler livros”. Ele é um grande homem, que conhece profundamente os maiores autores de nossa civilização. Nessa obra ele ajuda qualquer um a ler melhor, os mais variados tipos de obras. No capítulo dedicado à literatura imaginativa, onde se encaixam os romances, as poesias, etc, ele recomenda, enquanto ler, mergulhar intensamente, sem resistência, deixar-se levar pela obra. Capte o enredo, entenda os personagens, os detalhes, aquilo que não está escrito. As grandes qualidades, diz ele, quase sempre não estão escritas. Procure. Depois faça uma crítica. Não a crítica destruidora (talvez o livro seja ruim mesmo, aí ok). Criticar, diferente do que as pessoas pensam, não é destruir, é esmiuçar, entender, encontrar o essencial, daí Crítica da Razão Pura, de Kant, ou Crítica da Economia Política, de Marx. Também Machado de Assis, que além de escritor genial era um crítico literário brilhante, dizia que o crítico encontra o invisível, desvenda internamente a obra.

Se você não faz isso, meu amigo, vai sempre se limitar aos defeitos da superfície, e jamais entender o quão preciosas são algumas obras.

Uma obra não se limita a um cálculo entre defeitos e acertos, como se fosse uma conta matemática e que no final geraria um número áureo, transformado em nota. Notas são baboseiras.

A crítica é mais importante para o escritor do que para o leitor. Criticar algo depois de ter lido/visto/ouvido ajuda você a entender melhor a obra. Nessa obra você talvez não entenda o núcleo da qualidade, talvez na próxima sim. E assim você aprimora o seu bom gosto. Você começa a entender porque gosta de algo, pode justificar porque gosta de algo. Logo o próprio prazer amplia. É tão bom mergulhar na obra e entendê-la, saber as motivações genuínas, o talento do escritor.

As teorias da estética em geral sabem que o Belo é algo complexo. Até hoje não se sabe nem se o Belo está mais na obra ou no observador. Se eu digo “Monalisa é bela”. Ela é bela porque é bela em si ou por que eu disse? É uma discussão nada simples.

Existem aspectos técnicos, que precisam ser observados sim. Grandes autores, em geral, são bons na técnica. Mas nem eles são livres de erros. E muitas belas obras são mais ou menos ou deficitárias na técnica. Se você analisar os Ramones pela técnica estará com problemas.

E o problema maior, ao meu ver, do sujeito que se treina pra achar defeitos, é algo mais profundo ainda, é existencial. Você passará a se treinar a ver defeitos nos amigos, nos familiares, nos chefes, nos empregados, em todo mundo. Você se torna o deus absoluto que tem a listinha de compra dos defeitos. Repito, eu não estou sendo hipócrita e dizendo que precisamos tapar o sal com a peneira. Defeitos precisam ser corrigidos. O que critico é se treinar para achar erros e não ver as virtudes, que são mais belas.

Não foram os defeitos que fizeram as grandes obras. Não foram os defeitos que fizeram as invenções.

Somos apenas pessoas que gostamos de livros, músicas, filmes, mangás, animes, etc. É legal saber porque gostamos disso e não daquilo. Nossas análises servem mais a nós mesmos do que aos leitores.

Eu mesmo meto o pau em muitas obras. Fui duro com Marie. Mas bem, antes de ser duro com Marie eu fiz várias leituras e uma análise detalhista dela. Peguei os símbolos que Furuya utiliza, que para mim foram fáceis identificar porque sou um grande entusiasta da cultura renascentista e da transição à modernidade (as engrenagens são um símbolo emblemático da concepção moderna de mundo como máquina) e nas várias digressões místicas/religiosas. No fim percebi que os símbolos eram vazios e não chegam a lugar algum. Para mim uma obra cheia de símbolos sem significados, isto é, símbolos que não transcendem, exercício fútil e banal de simbologias, não é grande coisa. Mas é a minha posição, é o meu modo de ver as coisas. Não nego a qualidade técnica da obra, o cenário lindo, a bela ambientação, etc. Para mim, Marie é masturbação.

O que quero dizer é que eu mergulhei fundo na obra antes de escrever isso. Eu me esforcei ao máximo para tentar entendê-la. E alguns sabem, em alguns instantes quase caí na armadilha. Tive lampejos de euforia com Marie, mas que não resistiram.

Enfim, a virtude de uma grande obra raramente está na superfície, raramente é tangível. É necessário mergulhar, e se deixar mergulhar.

Não é necessário ingenuidade. É claro que existem ideologias, mecanismos de controle, vários instrumentos invisíveis em obras e que se o leitor não for perspicaz é facilmente manipulado. A obra de Guy Hennebelle, Cinemas nacionais contra Hollywood, é uma interessante forma de entender isso. Ou a leitura dos autores da Escola de Frankfurt, ou de muitos autores ditos adeptos do pensamento crítico. As imagens são complexas e não podem ser vistas com ingenuidade. Mas isso é outra história. E geralmente quem procura defeitos e mais nada nem se interessa nisso, sequer percebe isso.

Eu imagino que uma pessoa assim sinta enorme prazer cada vez que encontra um defeito. Algo como um inquisidor sentindo prazer em jogar a coitada na fogueira (embora haja uma diferença substancial, pois o inquisidor medieval estava no poder, já o inquisidor moderno sonha). O inquisidor moderno se orgulha de “não ser ingênuo”, de não ser enganado pelas falácias, de desmascarar as farsas. No fim sai mais ingênuo do que entrou.

Façamos nossa inteligência e tempo valerem mais que isso. É mais respeitoso não só com a obra como com nós mesmos.

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16 respostas para O herói homérico, o inquisidor moderno e nós

  1. rauzi disse:

    Agora sim, seu maldito. Agora sim.

    É realmente a porra da Areté. Você sempre pôde ser muito melhor do que estava sendo aqui nesse blog. Hoje foi. Continue. Assim, não conheço outro como você.

    Desde já, texto mais essencial da otakusfera brasileira. Esses bovinos de vez em quando se garantem.

  2. Muito bom o texto, abriu a minha mente e acho que de algumas pessoas que lerão. Gosto disso porque é uma coisa que motiva quem lê, faz você saber que é mais do já é, assim como as várias obras. Elas são mais do que pensamos ser(algumas menos).

    Mas destaque para o final, disse tudo. O problema é que botar defeito, pelo menos eu acho, dá a impressão de que a pessoa está se colocando numa posição superior a outra, dá a sensação de orgulho, faz bem pro ego.
    Enquanto que falar das qualidades/virtudes, dá a impressão de que ela está se desvalorizando, se colocando abaixo daquilo ou daquela pessoa.

    Nisso, acaba que procurar defeito seja mais fácil.

  3. Lucas Waroshi disse:

    Que texto incrível, cara. Parabéns! É como o rauzi disse, THIS IS FUCK’IN ARETÉ, MAN. HUE
    Concordo com o texto. Simplesmente não consigo entender o porquê que algumas pessoas se focam nos desfeitos, mesmo nas obras que eles tem como favoritas ou algo do tipo. É lógico que é valioso saber os defeitos da sua obra favorita, isso mostra que você foi lá e mergulhou nela de cabeça, é a sua obra favorita e você a conhece como ninguém. Mas é exatamente como você disse, por que se focar apenas nos defeitos quando as qualidades que fazem a obra ser importante pra você?
    Eu estava pensando em escrever um texto sobre algo bem parecido, e lendo o seu texto agora as ideias estão mais claras, obrigado.

  4. rubiopaloosa disse:

    Claro que virtudes sempre são melhores para colocar afrente a obra, mas não é a procura de defeitos (não do modo para achar qualquer coisa para falar mal, mas sim defeitos reais) que achamos as virtudes escondidas, que podem brilhar ainda mais?

    E quando defeitos são tão aparentes que escondem as virtudes, e na procura delas ou na de maiores defeitos que se acha o brilho na escuridão?

    Mesmo tendo a visão que é melhor a procura de defeitos, não a vejo como “certa”. Pois é algo que falta balanço, do mesmo jeito que o inverso também seja. No final a obra é um todo, com defeitos e, usando novamente a palavra emprestada, virtudes.

    • Vaca disse:

      Eu concordo com você. O problema não é achar defeitos. Defeitos existem e precisamos localizá-los. Não sou imprudente a ponto de defender um mundo de fantasias onde tudo é perfeito.

      Agora, uma coisa é ver os defeitos e as virtudes. Outra é ler para procurar defeitos. Transformar isso na sua meta principal.

      Ver defeitos te ajuda a descobrir que muitas obras não são grande coisa. Mas somente identificando as virtudes te ajuda a entender porque algumas obras são incríveis. Quando pegamos uma grande obra, mesmo que não encontremos defeito algum, garanto que não a entenderemos com profundidade, porque grandes obras têm seus segredos nas virtudes e não na ausência de defeitos. É este o meu ponto. No mais, concordo com você.

  5. caetano disse:

    Muitos parabainsh. Tenho umas coisinhas a comentar.

    Gostaria que analisassem a frase: Um crítico sensato é um bom cotnador de histórias.

    Eu, se você analisar meus textos, dificilmente falo mal de uma obra. Pelo menos não tenho intenções diretas de fazê-lo. O mais recorrente na arte, e eu sempre digo isto ao concordar com nosso amigo Pessoa, é exprimir. Não importa o que você irá exprimir, não importa quão fútil, não improta se é verdade… Não importa se surgiu de sua mente ou da do autor. Não importa se faz sentido apenas para poucas pessoas ou se você fugiu totalmente do tema “arte”. A arte é mera representação da vida e do que vemos, ou seja, não é para ser real. É para ser a realidade vista com olhos de pessoas, cada obra com seu ponto de vista.

    Agora, existe uma palavrinha que pode vir a contradizer tudo isto. O “padrão”. Existem dois tipos, segundo minha concepção: o padrão ideal e o padrão social. O social é o padrão que requer um sistema. As pessoas criam este padrão. Quem estiver no poder – não faz diferença se for alguém “hipster”, ou “mainstream”, ou que “entenda” da mídia, ou um “ignorante” equivocado, etc. – vai decidir o padrão por nós. E, às vezes, alguém consegue este poder indiretamente, como, por exemplo, na obra que você citou, ‘Ilíada’.

    O que acontece?.. Ilíada é uma obra que, embora o autor tivesse um ideal relativamente genial, foi vista de acordo com seus padrões. Quem é o herói? Ah, um cara mimado, infantil, arrogante, mas tem um ‘bom coração’, você diz… Ele parece um otário, mas, no fundo da nossa mente, todos sabemos que ele é “um verdadeiro herói”, seja por sua coragem interna ou sua vontade arrematadora. E isto cria uma imagem… Nós somos, em certo ponto, regidos por imagem. A história foi fazendo tal personagem parecer a representação de herói. O que isto quer dizer? Qualquer protagonista que não tiver os quesitos de um Aquiles não pode ser considerado um herói digno. Melhor (pior): todos que tiverem tais representaçõs serão, instantaneamente, julgados como bons heróis. E aqui temos a primeira falha dos padrões. Também, o motivo pelo qual um excesso faz necessário o surgimento do padrão ideal.

    Para falar do padrão ideal, não vamos nos atencionar apenas ao protagonista, mas à história por completo. É simplesmente uma média de tudo… Você pode fazer uma história com excessos, cuja mensagem, por exemplo, afirme que apenas pessoas fisicamente fortes e com determinação, mesmo que tenham todas as outras fraquezas e nenhum talento, vigorem no final. Isto soa como várias obras por aí E este é o problema. Traz limite, traz preconceito.

    Algumas obras atentam-se em destacar apenas sua imagem, por exemplo. E é um ponto forte. Se formos analisar pessoalmente, muitos dão mais relevância para a imagem do que para uma história… E não há nada de errado nisto. Mas, se fosse para decidir qual é a melhor obra, uma com uma imagem extraordinária e uma história péssima, e outra com imagem e história muito boas, segundo a teoria do padrão ideal, qual deveria ser considerada “melhor”?

    O padrão social faz com que nos atentemos a qualquer história que ele fizer, mesmo que seja a pior trama já revisada. Desde que esteja seguindo a linha regida pelo sistema, alienadamente veneraremos tal e tal obra. Por isto surgem críticos chatos. Não que uma obra ou outra se atentando a um padrão não seja interessante… Pelo contrário, se conseguir mostrar qualquer ponto reflexivo, já merece uma nota elevada. O problema é roubar o espaço de outras… É fazer com que qualquer autor fraquiíssimo (para o padrão ideal) pegue um esteriótipo e transforme isto em uma história de sucesso. O sucesso é normal, por vezes passageiro. Mas obras assim nunca são bem sucedidas, na linguagem mais artística, duradouras.

    Bem, de uma forma ou de outra, em um mundo com uma (teórica) liberdade de expressão, nenhum tipo de obra vai sumir. Se houver uma ascenção extrema de alguma lado, outro se oporá para equilibrar. Pelo menos é o que considero correto… Ainda assim, lutar pelas minorias sempre foi algo que fez mais sentido, algo que equilibra. Se há muitas obras feitas com um padrão, e muitas não são “boas” – se comparadas algumas de outro padrão e, principalmente, levando em conta a facilidade de sucesso que tal padrão concede – segundo o ideal, seria sensato alegar que elas não precisavam estar ali? Talvez. Seria sensato criticar o uso de esteiótipos e mostrar como os pontos fracos a tornam forte, e como muitas pessoas não veem isto por algum tipo de alienação? Talvez.

    A crítica é essencial. A melhor delas é a auto-crítica, porque, desta forma, não recorreremos a ouvir dos outros coisas que nos enfraquecem. Mas é tudo muito complicado. Criticar algo, sem estar emocionalmente envolvido, já faz você poder pensar mais racionalmente. Por outro lado, se não faz diferença – se, no momento em que criticar, automaticamente já estará se auto-criticando – então estar emocionalmente envolvido fará inconscientemente você falar o que sua essência diz de você mesmo. Segundo este ponto de vista, seria, então, impossível criticar algo decentemente? Bem, qualquer perfeição é uma imperfeição da natureza. Se interpretações de uma obra são váliadas, uma vez que é apenas a representação da vida, o que diríamos da interpretação da vida em si? Falar dos fatos, falar do autor, falar de quem critica, falar do leitor… Isto não diz nada sobre representações, mas sobre a veracidade dos fatos. Ainda que improvável, assim como nossa busca insana pela verdade, acho essencial buscar um equilíbrio.

    Parece estranho recorrer a esta “luta” desnecessária pelos padrões. Principalmente pelo que foi afirmado em relação a aproveitar uma obra, e não procurar seus pontos negativos. Humanos são críticos de nascença. Ainda assim, a crítica não seria necessária se todos nós fôssemos mais críticos.

    • Vaca disse:

      Agradeço o comentário. Gera uma interessante discussão.

      Bom, não discordo do seu ponto de vista, de fato muitas (ou quase todas) as obras reproduzem certa ideologia dominante. Por isso fiz questão de escrever um parágrafo sobre esse detalhe, quando cito Guy Hennebelle, que justamente demonstra a relação entre a produção hollywoodiana e a ideologia norte-americana, e a reação dos cinemas nacionais.

      Podemos dizer sim que a Ilíada reproduz certa ideologia dominante naquele período. Afinal muitos criticaram, de alguns sofistas a Platão. Não acho que ela proponha Aquiles como único exemplo de ‘herói’, já que claramente os personagens são distintos em personalidades, e o que mais estabelece vínculo entre eles é a “Coragem”. Você pode me rebater dizendo que mesmo assim é um aspecto ideológico, porque privilegia corajosos e desaprova não-corajosos. Ok, mas isso aí seria discussão sociológica e da cultura grega. O meu ponto envolvendo a Ilíada é que o autor foca sempre nas virtudes e nunca nos defeitos. Ele tenta promover pedagogia focando em virtudes, e não em defeitos. Se o que é virtude pra ele concordamos ou não é outra história.

      De fato temos que ser críticos. Não defendo. O que defendo é a procura pelas virtudes. Se você assistir Birth of a Nation, de 1915, verá nitidamente uma ideologia racista do sul dos EUA. Porém o filme é muito maior do que isso. Há aspectos lá que contribuíram enormemente para o desenvolvimento do cinema. Você pode rebaixar e aniquilar o filme como propaganda ideológica. Ou pode saber separar isso e ver o que tem de qualidade. Chaplin fez isso, alguém que não era racista e não defendia a ideologia capitalista americana (a ponto de ter que terminar a vida na Europa). Chaplin soube reverenciar o autor (D. W. Griffith), chamando-o de “the teacher of us all”, sem se reduzir a ideologia.

      Mas você pode facilmente não ver as virtudes e ignorar a obra por este defeito. Era esse o ponto do texto. No mais, as análises sociológicas são sempre interessantes e abrem vasto leque de discussões.

      • caetano disse:

        Bem, aí você me pegou em uma questão que concordo… Sim, principalmente quando se fala em obras antigas, é fácil encontrar bons filmes com equívocos imensos, mas que estão relacionados com a época. Mas eles ainda tinham algo para mostrar, embora a mente da própria época fosse limitada. Hoje, sabemos o que é certo ou não (pelo menos é o que dizem), e, ainda assim, veneceramos obras que não têm um décimo de significado que aquela cult lá pode oferecer. Esta foi minha maior “crítica”, porém, quanto ao resto, concordo com você. Texto bom pra cacete, btw. Acho que pouquíssimos, se não ninguém mais, pesquisam e se centram tanto em deixar sua postagem completa.

  6. Larissa disse:

    Parabéns, muito bom o texto. Acho que muita gente deveria ler e acima de tudo absorver o que tem escrito.

  7. Musashi disse:

    Zeitgeist moral.

    O espírito do tempo.

    Talvez nós todos,como um todo que somos,devêssemos analisar qualquer obra,seja qual ela for com esse pressuposto.No seu texto isto também é claro.
    Você não fala diretamente sobre isso,você fala sobre isso,é bonito,é humilde.Uma grande obra,essas que chamamos de universal – tem várias delas -,muitas vezes podem romper com o zeitgeist,pode falar mais num tempo longínquo daquele em que foi escrito,desenhado,etc.

    Eu,um mero mortal,analítico,porém mortal,não sei disser o porquê,não sinto a vontade de esmiuçar algo assim,não é necessário,só está ali,importa tanto pra mim,significa pra mim,muita mais que naquele tempo?Pode ter certeza que sim.Para mim.

    E para o outro?Para os outros?Importou igualmente como
    importou(significou,mais,menos,verdadeiramente) pra mim aquele ou esse relato,esse escrito?Talvez sim,talvez mais até,talvez passou sem importância,sem o conhecimento da causa.

    Será que entenderam naquele tempo ou agora?Será mesmo que é isso que ele quer passar?Ele escreveu,desenhou,resenhou,ficou imerso sobre o escrito,para mostrar aquele aspecto para aquele tempo ou se desprendeu de tudo que era ”mundano” para ir além do que já o foram?
    Qual seria o significado para eles,novamente,naquele tempo?Seria o mesmo?

    Eu não sei,não importa.

    Importa que eu achei algo,algo tão pragmático,tão banal por vezes,que parece que em qualquer tempo,em qualquer época,todos iriam notar.Em outros,que são tão únicos,é como se ele tivesse falando pessoalmente para você ou somente para você.

    Eu me sinto assim,eu leio/vejo assim,cada perspectiva tem um sentido,seja obra ruim ou boa,acredito que ninguém escreve nada para ser ruim,para não ter significado.Acontece que nem sempre aquilo que você quer mostrar seja somente aquilo – ou pareça com aquilo – que você quer mostrar,pode ter seu lado ruim,pode não significar nada,passar em branco.Acontece,que para você,autor,pareceu assim também?Ou você viu ali o que tinha em mente?Mas se só você viu o quê ninguém viu,que nunca terá significado a ninguém,somente a você,do que adianta escrever,né.Eles não seriam tão mesquinhos.Não os Grandes.

    Pode parecer bobagem,minhas divagações,até podem ser,a quem acha que são,entretanto são pontos crucias quando busco conhecimento em alguma leitura,seja ela visual,sensorial,ou qualquer coisa que me passe ”sentimento”,ou pro parceiro do seu Areté,a Ágape,o mais lindo de todos os sentimentos.

    Talvez ai esteja o meu segredo,eu viajo belas obras sem esperar nada em troca.

    É maravilhoso.

    É Musashi,também conhecido como Alan.

    • Vaca disse:

      Brilhante comentário, Bluesman, brilhante comentário.
      Essa questão do zeitgeist eu ainda pretendo abordar em texto específico, mas vamos lá.

      Concordo plenamente que existem grandes obras que são feitas para expressar o espírito de seu tempo e outras que transcendem isto, que somente serão captadas depois.

      Esse seu sentimento de que quando se depara com uma grande obra não tenta esmiuçar, analisar, apenas absorver, eu também tenho. Existem obras que nos exigem humildade. Eu não sou ninguém para analisar alguns gênios. O máximo que posso fazer é tentar aprender o máximo possível.

      Entretanto, mesmo nestes casos, mergulhar na obra é algo lindo e transcendente, pois você se apaixonará ainda mais por ela. Porque as maiores obras não existem para serem apreciadas uma ou duas vezes, mas por toda a vida.

      Sendo sincero, a maioria das obras que já li/vi/ouvi acabam ficando pelo caminho. São belas obras, mas chega a um ponto que elas já deram tudo o que tinham que dar. Agora, existem outras que me acompanharão a vida inteira, provavelmente. Tem obra que quando mais eu evoluo melhor ela fica, certamente porque agora sou capaz de captar muitas coisas que antes nem sonhavam que existiam, por mais que estivessem em nossa cara.

      E, existe algo ainda que está acima da Areté e do Ágape, o Kálon (Beleza), algo tão denso que nem os filósofos gregos ousaram definir.

      Apareça mais, maldito samurai.

  8. Magi disse:

    Passando no fórum procurando algo interessante para ler, resolvo entrar no all fiction, vi o seu texto pelo título me deu curiosidade para lê-lo, pois bem, só tenho que abrir a boca e falar, que foi um dos melhores (ou talvez o melhor) texto que já li em um blog nacional.

    Ler uma obra procurando seus defeitos é algo que digamos? Não é saudável, não só para mim, não só para você, para o autor também, ele se esforça muita das vezes em tentar deixar uma ”mensagem” atrás de tudo aquilo, para simplesmente pessoas de ”ego inflado” dizer que ele falha em aspectos ”técnicos” pois bem, sendo que talvez exista um simbolismo por trás daquilo, porém ignorantes(talvez uma palavra forte, não sei) criticando-a sem nem mesmo a conhecê-la, esse é meu ponto, como criticar algo que você não conhece profundamente? Se você nem tentou lê-la com com profundidade e interpretá-la. Eu sou do tipo que acha que cada caso é um caso, avalio uma obra analisando-a isoladamente não tentando compara-la com outra obra que talvez siga seu mesmo estereótipo, isso acaba também atrapalhando na leitura daquela respectiva obra. Para se tornar um bom leitor, ou talvez até um bom crítico, leia uma obra com paixão, isso não é obrigação mas deveria ser. Muitos leem obras apenas para crescer sua lista de mangás ou de filmes ou de livros, porém acaba perdendo a principal coisa em uma leitura, interpretar e viver o momento que está lendo, e é isso que falta em várias pessoas.

    Mas claro, isso não quer dizer, que todas as obras têm profundidade, um exemplo fairy tail, se a leitura vêm da interpretação, talvez alguém a leia com um pensamento mais aberto e amplo? Isso não é bom, ler com paixão é diferente de se apaixonar pela obra. Tentar procurar profundidade e uma mensagem por trás de algo que não exista é tão ruim quanto ler algo com o pensamento de criticá-lo.

    Talvez, não concordem com meu ponto, talvez me repudiem, mas esse post, necessita de comentários, e fiz minha parte. Até mais =D

  9. Pingback: Chihayafuru | All Fiction

  10. Mayara disse:

    Caramba, foi um texto muito bom. E, bom, aparentemente, quando vejo uma obra, penso apenas em me divertir, quando vejo, já estou procurando mil coisas legais para dizer sobre ela. Sei lá, sempre mergulho intensamente nos livros/animes, sempre tento ver além, por mais que o autor não queira dizer o que eu cheguei a imaginar. É só que… Muitas coisas nos levam a diversas interpretações e como você disse, não devemos focar nos defeitos. Na verdade, acho até impossível uma obra que não tenha defeitos, certo? A obra favorita sua tem defeito, a minha também. Mas, os pontos positivos foram maiores ou então, a comoção, o sentimento chegou a causar algo que nos trouxesse um tempero especial na obra. E, acho que é muito importante se aprofundar numa obra antes de sair metendo o pau, como foi o caso com Marie. Assim, você apresenta sua opinião de forma sensata e até cautelosa.
    Não sei muito o que dizer, só que curti para caramba o texto e espero ter absorvida coisas positvas dele. Parabéns mesmo, foi objetivo e pelo que vi nos comentários, muita gente curtiu, que nem eu =)
    Até

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