Adorável mestre Yasuji Mori

mori

Digressão por clássicos e mestres que precisam ser conhecidos.

Pouco tempo atrás decidi mergulhar em grandes clássicos da animação japonesa. Que eu não me decepcionaria eu tinha certeza, mas a verdade é que vem me surpreendendo ainda mais. Vi a primeira série de Lupin e o filme Castle of Cagliostro e estou quase concluindo Akage no Anne. Falarei de ambos em breve. Hoje quero dizer rapidamente algumas palavras sobre alguns filmes Toei Doga, anteriores a estas séries, aliás, bem anteriores, porque são do período 58-72. Alguns de vocês já perceberam a linha condutora: TOEI Doga… Lupin… Cagliostro… Akage no Anne… Miyazaki e Takahata. Sim, embora eu conheça quase tudo que tenha sido feito pelo Ghibli, pouco sabia das obras antigas dos dois senhores do estúdio. Enfim, minhas digressões pelos clássicos não se resume a eles. Há uma lista infinita de obras que estão me aguardando.

Toei Doga mereceria um texto longo explicando como nasceu, quem eram seus protagonistas, como os filmes eram feitos. Isto exige uma tarefa árdua, e por isso farei aos poucos. Hoje apenas falarei de Yasuji Mori, um dos seus grandes protagonistas.

O que é decisivo frisar, e eu já tinha comentado isso no post sobre Horus, é que é neste período que a animação japonesa vai aos poucos se distanciando do estilo Disney até construir sua própria linha, seu próprio espírito. É aqui, também, que começa a preocupação autoral em animações. Nem todo filme Toei Doga é pra divertir, nem todo filme Toei Doga parece ter sido feito pra crianças.

A Toei continuou sendo Toei Doga até muito tempo depois de 72, eu sei, mas é neste período que se encontra o primeiro ápice criativo, porque é ali que se reúnem tantas mentes brilhantes, como Yasuji Mori, Yasuo Otsuka, Yoichi Kotabe, Isao Takahata, Hayao Miyazaki, etc.

O objetivo da Toei era se tornar a Disney do Japão, o que não significava apenas copiar, mas transformar, atualizar para o estilo japonês.

Ah, existe animação japonesa antes disso. Na verdade existe animação japonesa há muito tempo. Um dia espero falar delas, de figuras como Kenzo Masaoka e Sanae Yamamoto. A questão é que aqui começa a nascer a ‘animação japonesa como conhecemos hoje’.

Ok, vamos a Yasuji Mori (1925-1992), ou ‘God of Japanese Animation’, como diz o site da ANIDO. E a definição de Ben Ettinger é irresistível: “a alma da TOEI Doga”. Depois de ver os filmes TOEI Doga e duas pequenas obras de Mori anteriores a elas, não há como negar, que presença de espírito carregava este senhor.

mori anoes

Mori era animador e ilustrador de livros infantis. Era apaixonado por desenhar, principalmente animais, ursinhos fofinhos, cães fofinhos, gatinhos, passarinhos, etc. É paixão transbordante, contagiante, como se vê nos pequenos filmes dele, anteriores aos clássicos Toei, principalmente Koneko no Rakugaki (1957).

koneko

Há como não se emocionar? Você pode reclamar que a obra é em preto e branco. Você pode reclamar que é velha, que não tem ação (!?), sei lá, mas é impossível não sentir a paixão transbordante. Mori amava ilustrar. Amava dar vida aos desenhos, fazê-los sorrir, correr, brigar, fazer amigos, viver. E claro, divertir. Não há sentido em desenhar algo que não seja para o bem-estar das pessoas. E para o próprio bem-estar. Mori é um verdadeiro animador, no sentido mais genuíno do termo, de dar anima (espírito, alma, sopro, vida, como você quiser) a algo.

Este adorável gatinho é o nosso querido Mori. Ai ai é delicioso viajar por uma trama tão imaginativa, com as perseguições em trens e tanta correria através de simples desenhos em um muro.

Acho que com isso apresentamos Mori. Este filme fala muito mais que qualquer texto. Carinho, amor pelas crianças, amor pelos desenhos, sensibilidade, alegria, diversão, simplicidade, imaginação, afeto, tudo isso transpira dos seus desenhos. Tudo isso é o adorável Yasuji Mori.

Mori, junto de Akira Daikubara, serão os únicos key animators do filme de 1958, Hakujaden (Panda and the Magic Serpent), o primeiro filme TOEI Doga, e um marco da animação japonesa. Mori era responsável pelo character design dos bichinhos e das cenas mais sensíveis (o que será para sempre a sua marca) e Daikubara pelos character design dos personagens humanos e das cenas de ação. Cada um tinha três animadores secundários atrás, e cada um dos secundários um grupo de outros animadores.

panda

A história é uma lenda chinesa (o tema nasce de questão política envolvendo Japão e China e de fato ajudou a TOEI a introduzir o filme na China). O garoto Xiu-Xuan precisa libertar sua pequena cobra de estimação, sem saber que ela era na verdade uma deusa-cobra chamada Bai-Niang. A deusa se apaixona pelo moleque, e quando este cresce acabam se reencontrando. O filme se desenvolve a partir de duas tramas: 1) a luta de Bai-Niang para ficar com seu amado humano e para escapar do Sacerdote, que deseja matá-la e afastá-la de Xiu-Xuan, por considerá-la um espírito maligno; 2) as aventuras de Panda e Mimi, os animais de estimação de Xiu-Xuan, para encontrar seu mestre, sendo que para isso precisam enfrentar uma gangue de outros bichos (ursos, patos, etc.).

white serpent

Alguns pontos relevantes. O character design dos bichinhos é adorável. Se a trama é simples, se as cenas de ação são simples, você não pode negar que os personagens são realmente apaixonantes.

Aliás, daqui se engata outro aspecto bem interessante: ausência de personagens ‘malignos’, ‘malvados’, ou como você queira falar. Não me refiro a antagonistas, pois o Sacerdote é o antagonista, ainda que tenha seus motivos. A questão é que todos têm suas razões, todos têm certeza de que estão agindo corretamente e pelo bem do outro. Mesmo o Sacerdote, que age pelo bem (na sua visão) de Xiu-Xuan. O final é simples e mágico. Bom, Hakujaden é a obra que inspirou Miyazaki a ser animador. Isso diz muito, não?

urso

Mori ainda faria bichinhos adoráveis em cenas de brigas, aventuras e banquetes no segundo Toei Doga, Shounen Sarutobi Sasuke (1959), a aventura do garoto que precisa aprender magia para enfrentar terríveis bandidos e feiticeiros. Aqui sim cabe a clássica separação “mocinhos e vilões”. Ainda assim o filme não chega a ser decepcionante, porque embora a trama seja inferior a Hakujaden conta com a qualidade de Mori no character design e de cenas emocionantes, sobretudo a última, realizada pelo gênio de Yasuo Otsuka (do qual falarei em outro post).

O terceiro filme, de 1960, é Saiyuki (Alakazam The Great!), que reúne as qualidades dos dois anteriores, resultando em uma obra incrível. É a Jornada para o Oeste, a saga épica do macaco Goku (nomeado para Alakazam na versão americana) para ser o maior de todos. Depois de sobrepujar todos os macacos ele desafia os deuses e é derrotado, sendo sentenciado a servir um príncipe, a fim de aprender várias virtudes como a humildade. Há muita sabedoria nesta lenda, uma preocupação genuína com a formação do ser humano.

alakazam

E talvez este seja o grande trunfo do filme. O aspecto pedagógico mantém-se. As cenas em que Goku aprende algo importante são sempre muito bem realizadas e enfatizadas. É mais que aventura, é formação. E há muita emoção. O filme realmente enaltece as escolhas de Goku e sua amada Rin-Rin, que parece não compreendê-lo, mas deseja estar sempre junto dele. A cena de Rin-Rin visitando-o na prisão durante o inverno é bastante intensa. Além disso, o filme garante a qualidade como aventura e ação.

Por fim, o último filme do qual falarei hoje, o estranho, complexo e repudiado Anju to Zushiomaru (1961). Mori e todos os demais envolvidos na produção desse filme acabaram por repudiá-lo, pelo simples e aceitável motivo: a trama estimula você a aceitar o sofrimento e não a enfrentá-lo.

Argh! Parte de mim concorda com eles. É fato que estimula a resistência passiva e não a transformação da realidade, mas o nível de sensibilidade e drama nessa obra talvez supere todas as demais realizadas no clássico período. Há suicídio, há amor, há solidão, há muito sofrimento. Não sei dizer se foi algo revolucionário, mas é fato que é um patinho feio na época. Este filme não diverte, não empolga crianças, mas por outro lado triunfa na densidade e na coragem de expor temas tão complexos e desafiadores. Algumas cenas são bastante tocantes. Talvez tenha sido excessivamente dramático. Talvez. O que importa é que esta características será controlada, mas persistirá em muitos dos filmes seguintes.

zushiomaru

Por hoje paro por aqui. Nos filmes seguintes quero destacar o papel decisivo de outro grande mestre do estúdio: o animador Yasuo Otsuka, que levará as cenas de ação a outro patamar de qualidade.

Acho que com esses filmes que comentei, que trazem a criação decisiva de Yasuji Mori, seja na concepção de personagens, na ilustração, no roteiro ou na direção, revelam facilmente o grande legado desse mestre: paixão e simplicidade no que se faz. E não é difícil ver que o estilo dele de desenhar bichinhos influenciará bastante o futuro da animação japonesa. Basta ver estes filmes comentados.

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