Mark Kozelek: sinceridade, originalidade e o resto…

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Quem nunca ouviu Red House Painters, um dos grandes acontecimentos do rock dos anos 90, deveria resolver esta pendência existencial.

Ouça a discografia inteira, porque toda ela vale a pena, mas dê um espaço especial no seu tempo ao álbum de estreia, Down Colorful Hill (1992), esta preciosidade sincera.

São apenas seis músicas, todas com mais de 4 minutos, todas intensas, sonambulamente e depressivamente intensas. Naquela época, início dos anos 90, expor sinceridade, sentimentos, angústia e solidão parecia sinônimo de Kurt Cobain.

Não deveria. Kurt Cobain era sincero, de fato. Mas Kozelek era mais. Cobain expôs o que sentia. Kozelek, o líder, vocalista e letrista dos Red House Painters não apenas expôs o que sentia, mas investigou sua alma. Cada música é um mergulho dentro de si, com intensidade raramente vista na história do rock.

O instrumental não é nada espetacular. A música não é inovadora. Nota-se a influência decisiva do folk de San Francisco misturada ao clima decadente oitentista.

Mas e daí?

Red House Painters faz o mais importante, e deve ser por isso que conquistou o fracote do Rauzi: é emoção contagiante e sincera. Em cada letra, em cada nota, em cada suspiro, em cada silêncio você sente Kozelek olhando para o abismo de si mesmo. E isso não é pouca coisa. Não mesmo.

Claro que Kozelek não é qualquer um. Não era um rebelde sem causa. Era um jovem em crise existencial, mas que em vez de deflagrar sua fúria inconsequente contra o mundo tentou entender a si mesmo. É um grande letrista, certamente um dos maiores dos anos 90. Há poesia, há metáfora, há entendimento do mundo secreto das palavras. Não são meramente rimas e frases sem propósito, ou metáforas sem significado, viagens estúpidas a lugar algum, como tantos ‘poetas do rock’ anunciam.

Letra de Medicine Bottle, talvez o ápice desta obra-prima do rock:

Givd sharing my time

Letting someone into my misery

I told it all step by step

How I landed on the island

And how I swim across the sea

And it crosses my mind

That I may awake to a knife in me

No more breath in my hair

Or ladies underwear

Tossed up over the alarm clock

Blood dripping from the bed

To a neatly written poem

Heartfelt last line reading

“There is no more mystery

Is it going to happen, my love?

There is no more mystery

Is it going to happen, my love?”

It’s all in my head, she said

Morning after nightmare

You’re building a wall, she said

Higher than the both of us

So try living life instead of hiding in the bedroom

Show me a smile and I’ll promise not to leave you

It happened under a rainy cloud

Passing through the dark South

We went into a big house

And slept in a small bed

I didn’t know you then

As well as you love me

We talked of our sad lives

And we went off separetely

And we went off separately

I found your overseas souveniers

Holiday greeting cards

And some long forgotten high school fears

It’s all in my head, I said

Banging on the piano

I’ve not been so alone

I thought, since kicking in the womb

I drank so much tea

I put my letters in kanji

Around the block I walked and walked

Pretending you were with me

Not wanting to die out here

Without you

The hurting never ends

Like birthdays and old friends we forget

There is fresh blood and blood is human

Trading phone lines for airlines

Unwilling to face

That love is found on the inside

Not the outside

And like a medicine bottle

In the cabinet

I’ll keep you

And like a medicine bottle

In my hand

I will hold you

And swallow you slowly

As to last me a lifetime

Without holding too tight

I do not want to lose

The thrill that it gives me

To look out from my window

And scowl at the houses

From my world in my bedroom

It’s all in his head, she read

In a girlfriend’s self-help book

It’s all ‘cause he’s making a war with himself

Like two sides with a wall

That separates two countries

He shuts out the world he once knew

To love you

Not wanting to die out here

Without you

Not wanting to die out here

Without you

Sinceridade. Autenticidade. Talvez isto seja a única virtude realmente indispensável para se fazer algo de valor. Eu consigo relativizar a técnica, a complexidade, a originalidade, tudo isso, mas jamais relativizarei a sinceridade. É condição sine qua non para algo de valor. Na verdade a autenticidade já garante a originalidade, em certo sentido profundo. Ao ser autêntico você está dando ao mundo algo que só você pode dar, algo que é seu, irrepetível. Logo isto é obviamente autêntico e original.

Claro que isto não se resume a música.

Última coisa: autenticidade, profundidade, nada disso é sinônimo de depressão, angústia, solidão, sofrimento, dor. No caso de Kozelek era, porque são músicas que nascem da crise que ele vivia, da dificuldade de crescer, de virar adulto. Mas isso não é regra. Há autenticidade na alegria, na felicidade, na diversão, nas coisas simples da vida.

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