Contra Vaca: Mononoke Hime é uma obra… problemática

Mononoke-hime

Defendo-me.

Segundo o colega Vaca… bom, leiam o post dele. Concordo em partes com a interpretação citada, mas discordo em outras, e o saldo não é muito positivo para Mononoke Hime.

Eu acho extremamente interessante a interpretação de nosso caro bovino sobre a condição humana em vista da dualidade homem/natureza. De fato, a análise de Ashitaka e do Imperador se torna muito interessante tendo esse ponto de vista. E ao refletir sobre isso, notei que meu maior problema com a obra se reflete melhor em um aspecto em que não tinha pensado originalmente.

Refiro-me a Eboshi.

Eboshi é a humana que não sente remorso em destruir a natureza para possibilitar o progresso, e que quer o progresso para construir uma vida melhor para seu povo. A vila que ela constrói à custa de madeira e sangue de animal é uma vila feliz. Lá, ex-prostitutas têm um trabalho digno e se mostram felizes com tal trabalho. Lá existe uma sociedade forte, vibrante, e, me atrevo a dizer, justa. Apesar de seus crimes contra a natureza. Miyazaki talvez não concordasse, mas até aqui, tudo bem.

Em minha visão, esse é o diálogo mais interessante em Mononoke Hime. Até onde a vila de Eboshi é justa? Até onde ela tem o direito de dizimar a floresta para criar uma vida melhor para os humanos? Até onde a floresta (lobos e javalis e etc) tem o direito de atacar os humanos para viver em seu mundo imutável e intocado (representado pelo santuário do Shishigami e pelo próprio Shishigami, o mais natural de todos os deuses da floresta)?

O problema de Mononoke Hime surge com a figura do Imperador, figura que curiosamente nem aparece no filme. Ele ordena uma missão que tem como objetivo a capturar a cabeça do Shishigami, para garantir a si mesmo vida eterna. O principal problema que isso acarreta é simples: a responsável por executar tal missão é Eboshi.

Isso implica que, no topo da cadeia alimentar humana, sempre existe um filho da puta movido apenas pela ambição (porque é assim que o filme retrata o Imperador). Isso não está tecnicamente errado, mas danifica o diálogo em Mononoke Hime imensamente. Ao transformar o progresso pelo bem dos humanos (Eboshi) em simples subordinado do progresso apenas por benefício próprio (Imperador), o filme abre mão de sua maior força. A oposição entre Eboshi e a floresta se torna inútil, porque Eboshi é um peão no jogo do Imperador. O progresso racional é apenas um disfarce do progresso cruelmente ambicioso.

Ao perder sua cabeça literal, Shishigami perde a cabeça metaforicamente, e se lança num ataque de puro ódio. Podemos julgá-lo nessa cena? Eu não consigo. Naquele momento, os humanos definitivamente passaram dos limites. Podemos dizer que “precisam de uma lição”. Mas essa lição ofende ainda mais o diálogo da obra, por um simples fato: a vila de Eboshi é destruída.

Os habitantes não morrem, isso é verdade; já é alguma coisa. Mas a destruição da vila construída pelo progresso racional é péssima para o diálogo. Quem paga o preço pela ambição do Imperador não é o próprio Imperador, é a vila de Eboshi, é o progresso racional. O progresso racional é punido. E por quê?

A última cena de Eboshi beira o patético. Salva da destruição pelo belíssimo gesto de Ashitaka (não pretendo negar isso), ela é reduzida a um ser encolhido que treme e promete que não perturbará mais a natureza (se minha memória não me engana). Parece uma criança com medo do cinturão do pai.

Que situação foi acertada no fim do filme? Que debate foi resolvido? Dizimar as conquistas do progresso racional por culpa do progresso ambicioso é uma solução razoável?

Um dos maiores problemas nasce exatamente pelo fato de não podermos culpar o Shishigami por seu ódio. Ele é um ser bondoso (apesar de seu pico de ódio), e o Imperador é um ser maldoso. Ao subordinar o lado da floresta à pura bondade e o lado dos humanos à pura maldade (pelo menos dentro do ambiente da obra), Mononoke Hime sela seu próprio destino.

Ashitaka é um humano razoável, sim, e representa um modelo de vida humano que talvez seja o ideal. O Imperador é desprezível, sim, e merece ter seu modelo de vida negado. Mas Eboshi é o pivô da discussão mais difícil e mais interessante do filme. Por defender os humanos, ela está certa? Por destruir a natureza, ela está errada? Meio-termo?

O filme nega tudo isso. Ele pune Eboshi por sua subordinação ao Imperador e quebra sua vontade de desenvolver e beneficiar a humanidade à custa da natureza. O filme, efetivamente, a derrota.

Boa parte do meu problema com isso provavelmente é porque minha visão é diferente da visão de Miyazaki, mas ainda assim: Eboshi realmente era a vilã a ser derrotada? Ela não era um lado menos extremo do diálogo (um progresso sem remorso, porém consciente)? Ela merece ser ridicularizada a tal ponto, apenas por ter suas opiniões diferentes das opiniões defendidas por Miyazaki?

Pode parecer que estou falando de um problema de caracterização aqui, e, em parte, é isso. Mas os personagens de Mononoke Hime representam mais do que personagens. Cada um é detentor de uma visão de mundo, e o filme se comporta como um grande embate entre todas essas visões (e esse é um dos papéis mais importantes de Ashitaka: ele entra na situação como o único indivíduo imparcial). Um debate filosófico, porque não. A verdadeira guerra de Mononoke Hime é a de idéias.

Aliás, parênteses: no aspecto puramente técnico e estrutural, no andamento de narrativa, na animação, no “X, Y e Z de fazer filmes”, Mononoke Hime é impecável. O melhor Miyazaki que já vi nesse quesito, facilmente. Mas filmes, todos eles, precisam ir além do X, Y e Z. Este faz isso estabelecendo o debate entre idéias. E, infelizmente, mostra um extremo desserviço com uma das mais importantes. A idéia de Eboshi poderia, sim, ter perdido. Mas não poderia ser tratada como o que não era.

Em minha opinião, muito disso vem do próprio Miyazaki. Antes de criar Mononoke Hime, o homem passou décadas falando das maravilhas da natureza: com Nausicaa, com Totoro, com Laputa, Miyazaki sempre tentou espalhar um amor pela natureza. E, mesmo que seus filmes fizessem sucesso, a mensagem não fez. O mundo se recusou a mudar, a frear o progresso e amar a natureza um pouco mais. Isso provavelmente criou um Miyazaki mais raivoso, mais amargo, e esse Miyazaki se reflete nesse filme, muito mais seco e cruel do que os anteriores. Isso tudo é compreensível.

Mas isso prejudica o filme. Miyazaki retrata o progresso racional e o progresso ganancioso, mas pune os dois igualmente, como farinha do mesmo saco. Por conta das ações motivadas pela ganância, o filme pune aqueles motivados por ajudar pessoas. Ele ignora o discernimento e assassina o debate para declarar sua visão como a vencedora. É um tiro no pé de qualquer discussão.

 A ironia, como sempre, é uma senhora cruel. No filme que tem como frase mais marcante “I’ve come to see with eyes unclouded by hate”…

 Os de Miyazaki estavam cobertos por ódio desde o início.

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Sobre rauzi

Escrevendo para me lembrar que era verdade.
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7 respostas para Contra Vaca: Mononoke Hime é uma obra… problemática

  1. Você julga o fato de Eboshi e sua vila ter sido punida pela fúria de Shishigami, mas se esquece que um dos aspectos mais bacanas de Mononoke Hime é ser amoral, mesmo que não pareça. Ao contrário de você, não vejo a destruição deles como uma punição, mas vítimas da causa e efeito. Oras, quando se degrada a natureza e meio ambiente , quando o ser humano leva animais a extinção, quando humanos guerreiam; não há acepção de vítimas. Morre primeiro quem está no caminho, sofre aqueles que têm menores condições de vidas, mais frágeis e mais suscetíveis à desgraça. Shishigami é uma ideia, uma alegoria. Sua fúria não é mundana para ser juiz e carrasco, sua fúria é a mesma de vendavais e enchentes que levam milhares de vidas inocentes por causa de desequilíbrio do eco-sistema. Não é Momonoke-hime uma história sobre equilíbrio entre elementos? Não faz sentido a sua crítica, pois Miyazaki transmite sua mensagem de forma extremamente harmoniosa e amoral. O imperador não possui uma “cara” propositalmente, e os samurais são demasiadamente secundários para assumirem qualquer papel vilanesco (no máximo, antagônico).

    • rauzi disse:

      Não vejo amoralidade em Mononoke Hime. Sim, o filme tenta assumir uma posição mais neutral (papel do Ashitaka etc etc), mas ainda dá pra notar muito bem a visão do Miyazaki nele, e ela é a “vencedora”, digamos assim. Afinal, se Ashitaka começa o filme como o imparcial, durante o filme ele mostra bem mais apego com a natureza (não digo que ele não liga para humanos, mas pende bem mais para a natureza). E se o objetivo das partes de um debate de idéias tão importante (que eu acredito que seja a verdadeira essência de Mononoke Hime) não é converter a parte neutra para um dos lados… bom, o que é? Me parece ingênuo acreditar que Miyazaki seja totalmente imparcial aqui. Ele é tanto mediador quanto membro do debate.

      Sobre a “naturalidade” da destruição causada pelo Shishigami, eu diria que um dos méritos de Miyazaki é manipular os eventos “verdadeiros” para se encaixarem direitinho no tema: no caso, a destruição descriminada da natureza e o pico de ódio do Shishigami (que eu não consigo ver de forma amoral, visto que é consequência direta e imediata da ação mais cruel dos humanos, a primeira completamente injustificável). Lembra o que Anno faz em Gunbuster, usando a Teoria da Relatividade para contar uma história de solidão. São fatos servindo temas.

      Concordo que o Imperador não é vilão, concordo que não há vilão em Mononoke Hime (vilões são bem raros na obra de Miyazaki). Mas não significa que não há visão incorreta. Há. Só que o personagem que a representa não tem um papel grande o suficiente pra ser chamado de vilão. Olhando pra Laputa, por exemplo, existe um vilão claro, e a visão dele é muito semelhante à do Imperador. A diferença é basicamente “screentime”.

      • Eu entendo seu ponto. O problema dessa interpretação, é… parece que você está se apegando demais à literalidade e à questão moral, querendo encontrar algo palpável para se guiar. Não é um equivoco porque qualquer obra abre para diversas interpretações, mas manter essa visão te castra um pouco de enxergar a obra de uma forma mais espiritualista, que é como ela deveria ser encarada. Os motivos e meios não são tão importantes, e sim o resultado final. Resumo todos os argumentos em: no final do filme não há vencedores óbvios. Ambos são mutilados, ambos sofrem perdas. Na guerra do homem contra a natureza, ambos saem perdendo; os animes e os seres humanos, a natureza afeta ambos. Resumindo o que o Panino disse abaixo, é um troca equivalente.

        Concordo que essa visão do Miyazaki em Mononoke é mais densa e brutal, só não encaro como revanchismo para com o homem ao ver que suas investidas anteriores não surtiram efeito. Seria ingenuidade dele. Sua primeira obra que abre todo esse leque que se tornaria a marca do Ghibli, é Nausica, que pode não ser tão violento, mas traz a mesma pegada de Mononoke: causa e efeito imediato. Particularmente gosto mais do Miyazaki produzido para adultos como publico alvo, onde ele se permite ser mais duro, mal humorado e incisivo. XDDDDD

  2. Panino Manino disse:

    Eu estava escrevendo outro dia mas faltou luz nassa porra…

    Em resumo, o que eu ia dizer.
    O Shishi-gami é a encarnação/personificação da natureza, uma manifestação física dela apenas. Ela morrer apenas completa o ciclo de seu nascimento, ele volta a ser a natureza em si e isso torna as coisas ainda mais complicadas para os humanos. E agora, como saber quando está ferindo o Shishi-gami? Cavar o chão com uma pá vai machucar ele? Não exatamente, porque… a Eboshi perdeu um braço e ainda está vivendo bem. Mesmo mutilada ela é capaz de sobreviver e se adaptar a isso, o mesmo para a Natureza, ela é capaz de se adaptar as mutilações que os humanos causam. Basta apenas não exagerar que os dois podem conviver bem, mesmo que os humanos façam algo errado isso vai prejudicar a eles mesmo, tem que encontra um ponto de equilíbrio para os dois.

  3. Vaca disse:

    O problema é que não deveria existir “guerra entre Natureza e humanos”, pois humanos integram a Natureza. E o desenvolvimento social/tecnológico/cultural dos humanos está implícito na sua natureza, tanto que o Shishigami não se contrapõe a isto.

    Não consigo reduzir Mononoke a causa e efeito puramente ambiental, pois isto anula e desperdiça toda a densa trama envolvendo deuses e mitos.

    O que o Rauzi quer dizer, e de fato ele avança na discussão é: ok, eu sei que se detonar demais a Natureza isto afetará tudo e cedo ou tarde nós mesmos pagaremos a conta com terremotos, etc. Isto é óbvio, e é óbvio também que o progresso humano pode ocasionar isto.

    E aqui vem o ponto do Rauzi ligado à Eboshi: Miyazaki é contra o progresso humano? Eboshi não é justamente aquela que poderia promover o progresso em harmonia com a Natureza? É fato que Ashitaka e Mononoke não servem para esta tarefa, a deles é no máximo a de harmonizar, não de promover progresso tecnológico e social/econômico. Isto cabe a pessoas como Eboshi ou o Imperador, e entre eles a opção mais sensata é certamente a Eboshi. Mas e agora, o final dela não seria um indício de que no fim das contas tanto o progresso ganancioso como o racional levam à catástrofe?

    Saber que agredir a Natureza acarreta problemas é óbvio. A discussão é como fazer progresso em harmonia.

  4. “Não consigo reduzir Mononoke a causa e efeito puramente ambiental, pois isto anula e desperdiça toda a densa trama envolvendo deuses e mitos.”

    Depende do aspecto que mais te interessa no filme. Pra mim não é tão interessante, por ser apenas um recurso pra transmitir uma ideia. Uma ideia de ambiente natural ancestral que se perdeu para sempre com o desenvolvimento das habilidades humanas e expansão territorial. Também esses mitos representa muito uma cultura tradicional e social japonesa que tem se tornado mais frágil na nova geração, sendo esquecida e deixada pra trás. Já li algumas entrevistas do Miyazaki e ele nutri muito pesar pelo enfraquecimentos de tradições e desapontamento por essa nova geração [japonesa].

    Não tem como desperdiçar a parte mitologica do enredo. Se você assistiu, você degustou, e é fascinante ser deixar levar e adentrar por entre aquela selva, descobrindo seus segredos juntamente de Ashitaka. Mas não é o plot do filme, né? Eu acho que Nausica dá muito mais base para se falar/discutir de mitologia que Mononoke. Neste ele usa mitologia muito mais como plano de fundo, tanto que Sen nem tem tanta força dentro do enredo, como a Nausica tem. Ao ponto dele ter dito que na época queria ter mudado o nome do filme para “A Viagem de Ashitaka”, mas as produtoras não aceitaram.

    A harmonia entre elementos é discutida no filme (com uma amostra do que ocorre quando há desequilíbrio entre as partes), e a resposta está no final. Como fazer progresso em harmonia também é um tanto obvio, não? Eu não diria que o Miyazaki é contra o progresso humano, mas ele é obviamente contra o rompimento do homem com suas origens [culturais]. É tudo sobre o que ele fala, em quase todos os seus filmes, até mesmo os que não dirige diretamente (como Zaka Kara). Muito do haterismo contra Miyazaki vem desse azedume e apego à antigas tradições. Talvez o Rauzi esteja mesmo certo quando diz que Mononoke é fruto do seu rancor.

    • Vaca disse:

      Não consigo ver qualquer obviedade em como fazer progresso em harmonia. Progresso sem ferir a Natureza? Bom, em todos os filmes o Miyazaki implora algo bem mais profundo que simples não-agressão à Natureza. É necessário contato íntimo pra ver um Totoro ou Shishigami como elementos da Natureza, e mais na relação Vida e Natureza em Nausicaa.

      Certamente o Miyazaki não é contra progresso humano, até porque sinceramente não sei se isso é possível, é quase que como um discurso que se auto-anula. O que ele defende é o não esquecimento de alguns costumes, tradições, etc. O Shishigami quer o progresso, quer o desenvolvimento dos humanos, e com isto se evidencia que o próprio Miyazaki não poderia ser tão ingênuo assim. Voltando a Nausicaa, note que a Vida não se resume a seres biológicos ou naturais, mas a qualquer forma de vida, inclusive aquelas criadas artificialmente. O desenvolvimento/progresso está já internalizado na ideia de Natureza. Não existe, necessariamente, uma contraposição Natureza/Progresso.

      É lógico que desde sempre (anos 60 e 70) o Miyazaki usa muita fantasia e misticismo em suas histórias, e muitas vezes são apenas base para a trama (o ápice da carreira Miyazaki/Takahata, pra mim, é Horus, e entra neste caso). Mas há casos onde elas vão além (Nausicaa é o caso mais intenso).

      O tema principal dele é fortemente moral, que é a decadência japonesa, muitas vezes ilustrada através do contato com a Natureza, que obviamente para ele também é um tema muito caro, do contrário seria absurdo retornar a isto tantas vezes.

      No mais, concordo que Mononoke parece ter nascido de um Miyazaki amargo, bem mais amargo que nas obras anteriores.

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