Contra Rauzi: Mononoke Hime não é uma obra desonesta

Mononoke-hime

Defenda-se.

Segundo o colega Rauzi (se minha transcrição aqui estiver infiel eu corrigirei) Mononoke Hime é um filme desonesto, porque baseia-se na dualidade Ser Humano x Natureza, e que na trama seria representada no confronto Shishi-gami x Imperador. A desonestidade estaria que aos 45 minutos do segundo tempo a justificativa seria banal e superficial: Shishi-gami nunca erra e é perfeito e o ser humano é malvado e a causa de todos os males.

Pois bem, este texto pretende derrubar esta interpretação e defender a honestidade de Mononoke Hime.

A hipótese que proponho é a seguinte: Mononoke Hime traz a dualidade Ser Humano x Natureza sim, mas em duas dimensões: biológica/temporal e metafísica. Na primeira a dualidade é com os deuses-animais (lobos, javalis, macacos, etc) e na segunda com o próprio Shishi-gami. Por fim, mais do que a dualidade em si o resultado é que o ser humano integra o cosmos e não pode escapar de suas leis e que Mononoke Hime, mais do que falar de dualidade fala da condição humana tendo em vista esta dualidade. E na verdade, não só o ser humano se contrapõe a duas dimensões da Natureza (animais e Shishi-gami), a própria Natureza se contrapõe a várias dimensões humanas (Ashitaka; Mononoke/San; Eboshi; Imperador).

Primeira pergunta: quem é o sujeito de Mononoke Hime? Seria Ashitaka, já que toda a trama se desenvolve tendo ele como observador principal? Seria Mononoke, que dá o título à obra? Seria a própria condição humana? Seria o Shishi-gami?

Discordo de que Ashitaka seja no máximo um observador imparcial. Ele possui intervenção drástica na história. Ele balança Eboshi, ele muda a Mononoke, sensibiliza os lobos e inclusive o javali Okkotnushi, e, mais do que isso tudo, é aquele que Shishi-gami vê como um bom ser humano. Isto está claro tanto na primeira entrada dele na floresta pura, quando consegue enxergar os kodama e é basicamente convidado pelo Shishi-gami para conhecer o local, como na cena em que o próprio Shishi-gami cura seus ferimentos. Não bastasse isso ele é quem lidera as ações finais para recuperar a cabeça do Shishi-gami.

Shishi-gami cura Ashitaka e não Nago, revoltando os demais javalis. Isto é, Shishi-gami não é simplesmente o deus dos animais, o seu senhor, mas de toda a natureza. Para o Shishi-gami lobos, javalis, macacos e humanos são todos integrantes da Natureza. Shishi-gami é quem dá e tira a vida, é o deus da vida e da morte, e por isso não pode ser morto. Os humanos jamais conseguirão matá-lo, mesmo que tirem sua cabeça. O resultado disso são apenas catástrofes e a morte do próprio homem, pelas mãos vingativas da Natureza. Se o homem tem um pingo de consciência e devolve a cabeça, o centro, o núcleo, ao Shishi-gami, ele faz nascer flores, árvores, abunda a vida. Shishi-gami não morre jamais, como diz exatamente Ashitaka ao final e que é provado pela última imagem, que mostra um kodama. Não é possível existirem kodamas sem o Shishi-gami.

Por outro lado Mononoke também está certa quando fala ao final que esta floresta nunca mais será a floresta do Shishi-gami e dos deuses-animais. Sim, a era dos animais acabou, e agora entramos na era dos humanos. Shishi-gami continuará intervindo como força invisível, a própria vida e a morte. Quando o homem ousar demais e tirar sua cabeça novamente, pagará o preço. Shishi-gami, aliás, parece saber e querer que o mundo dos animais terminou, e querer passar o bastão para os humanos. Mas quais humanos? Todos? Não, aqueles representados por Ashitaka e (talvez) Mononoke.

Não há como haver real contraposição entre homem e Shishi-gami. Ele é absoluto. O homem será varrido se enfrentá-lo. Cabe ao homem entender isso e saber viver com a máxima harmonia que conseguir.

Ora, se até o Shishi-gami quer a era dos humanos, como ficam os animais? É daí que vem sua fúria. Os javalis reclamam que o Shishi-gami não luta. Eles sabem que o Shishi-gami não intervém e nem quer ajudá-los. Os animais travam a própria luta, por seu domínio, por seu mundo. Uma luta justa, já que defendiam e viviam em paz com as florestas. Paz corrompida pela ganância humana. Sim, a maldição que ataca Nago nasce do coração do próprio Nago, mas advém do orgulho ferido, do ódio e do medo da morte. E isto não aconteceria se os humanos não tivessem violado a harmonia.

Eu sempre desconfiei da maldição. Ela era natural? Faz parte da própria Natureza, isto é, do Shishi-gami? Ou é acidental e vem depois da Natureza? Acho que a forma final e raivosa do Shishi-gami responde isso. A maldição tem ligação com a morte, uma semente de medo e raiva que está em cada ser vivo, e que pode ser liberada a qualquer momento. Uma semente tão poderosa que por simples contato pode amaldiçoar qualquer outro. A questão vida/morte, com a maldição da fúria estando dentro deste sistema, é coerente com uma filosofia que parte da contradição dos opostos para encontrar a harmonia, e que, suspeito, é fonte de conhecimento para Miyazaki. Boa parte da antiga sabedoria oriental bebe dessa fonte, aliás.

Quem viola a harmonia é o ser humano. Embora na história isso transpareça mais a partir de Eboshi, que está sempre lutando com lobos e javalis, é certo que a busca dela por poder e fogo é uma luta por sobrevivência, desencadeada pela pressão e ações do Imperador, este sim nefasto e ganacioso (que busca juventude e vida eterna com a cabeça do Shishi-gami). O Imperador inclusive engana Eboshi na luta final. O Imperador é esta parte mais degradada do ser humano, que viola conscientemente a harmonia com a Natureza. Não é este ser humano que precisa prosperar. Não é por ele que Shishi-gami aceita a mudança.

Pois então, os animais representam a reação da Natureza. A reação biológica. É a fúria e orgulho de alguém que foi deus e agora sabe que seu tempo se foi. Okkotonushi, o honorável javali, diz na conversa com Moro que os animais estão cada vez menores e mais estúpidos. Antes eram grandes, poderosos e inteligentes. Passagem formidável, e que na verdade fala da condição humana atual e seu rumo violento à estupidez.

Eboshi, finalizando, não é o pior ser humano. É um ser humano mais sensato e que viola a harmonia pensando em seu povo. Eboshi não liga para mitos, deuses, leis. Não liga nem para os animais e nem para a lei do Imperador. A única coisa que lhe interessa é seu povo. É humanista, ou talvez antropocentrista, defensora de direitos das mulheres e doentes. Eboshi contrapõe-se a Moro, também um lobo mais sensato, que não é guiada pelo simples ódio aos humanos. Do contrário jamais adotaria San. Ambos representam lados que precisam lutar e assim carregam ódio, mas que lutam por uma causa nobre. A diferença fundamental é que todas as causas dos animais são nobres. Já nos humanos temos o Imperador, o sacerdote e outros que lutam apenas por poder e ganância.

Miyazaki não é estúpido. Não está defendendo a proteção ao verde por si só. É óbvio que o desenvolvimento tecnológico, econômico, científico, depende também da transformação da Natureza. É necessário. Mas isto pode ser feito de modo harmonioso. A ligação do homem com a Natureza, para Miyazaki, deve ir além de simples “obrigatoriedade de não-agressão”, mas tem a ver também com o esquecimento da Natureza pelos humanos. As pessoas não se veem mais como parte da Natureza. A Natureza foi desprovida de seu caráter mítico, místico, espiritual, e hoje é apenas o Verde que produz oxigênio. Isto estupidifica o homem.

E Mononoke? Quem é ele? O que é ela? É humana ou lobo? Biologicamente é óbvia a resposta. Mas culturalmente/socialmente ela é reconhecida como lobo. Natureza, portanto, não está apenas vinculada a biologia, mas também a formação, história. Mononoke é humana e lobo. Mais lobo que humana, na verdade, tanto é que termina a história vivendo com lobos, e não com humanos. (Há várias histórias reais de crianças que crescem com lobos e na verdade são mais lobos que humanas). Isto possui conexão total com o argumento do Shishi-gami, que sabe que a história dos humanos exige o seu desenvolvimento, pois isto está vinculado à sua natureza. Não faz sentido viver para sempre em pequenas aldeias se há Inteligência e meios para prosperar mais. A dúvida é quanto aos meios para alcançar esse progresso. É possível sem violar a harmonia com a Natureza? Shishi-gami parece pensar que sim. Mononoke não é protagonista e nem sujeito da trama, é o elo que estabelece todas as ligações, é o próprio tema simbolizado.

Concluindo:

Premissa (levantada na primeira cena do filme): havia harmonia entre deuses e homens. Os homens violaram esta harmonia devido à sua ganância. Este é o fim de uma era e início de outra.

Contraposição Homem x Natureza na dimensão biológica: humanos contra os animais. Humanos querem seu espaço. Animais defendem o seu. Estão no fim de sua era, e se defendem. Eram deuses, e sem força e inteligência, se tornarão pequenos e simples animais de caça. Humanos os reverenciavam, agora os matam.

Contraposição Homem x Natureza na dimensão metafísica: humanos contra Shishi-gami. Shishi-gami é a Vida e a Morte, é o espírito maior que anima a Natureza. Se os humanos o agridem, morrem com sua vingança raivosa. Se vivem com ele, prosperam. É o significado do belo final, que tem a luta mortal seguida pela vegetação crescendo em abundância.

Resposta: é a era dos Homens nascendo. É o fim da era dos deuses-animais. O Shishi-gami sabe disso e quer isso. Mas é necessário que os homens aprendam a viver em harmonia consigo próprios e com o Mundo. Do contrário terminarão pequenos e estúpidos, como dizia o nobre Javali. Nobre javali, e sábio, mas que também na prorrogação caiu pelo medo e foi amaldiçoado.

Retomando a crítica do Rauzi. Sim, o Shishi-gami está certo e é sábio. Mas não, o ser humano não é apenas corrupto, ganancioso e sujo, como o Imperador. O ser humano pode também ser como Ashitaka. A contraposição final, então, é a recusa a um tipo de ser humano, e não à humanidade em geral. Se esse tipo é a maioria ou minoria já é outra história.

Portanto, não aceito que Mononoke Hime seja desonesta e que a solução tenha sido superficial.

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