Admirável Mundo Novo

HXH1

Você ainda não viu nada.

Grand Line. Shin Sekai. O continente de Digimon Adventures. O Continente Negro de HunterxHunter. O continente aonde a guerra entre dragões e despertados acontece em Claymore. O Gourmet World de Toriko. Quando eu uso a expressão “Admirável Mundo Novo” (Brave New World, do inglês), não me refiro ao livro famoso de 1932 com este mesmo nome. Refiro-me, na verdade, a o mome que eu dei ao trope (ou clichê, se você não quiser eufemismo) do qual os mundos citados no começo desse texto são exemplo.

Não os confunda com, digamos, a Soul Society ou o Hueco Mundo de Bleach ou as novas regiões que surgem a cada geração em Pokémon. O admirável mundo novo não é qualquer novo mundo. Ele tem que ser admirável (captain obvious). O que torna um mundo novo, admirável, é a promessa (que muitas vezes é quase subliminar) de que este novo mundo é muito mais interessante, perigoso e empolgante do que tudo que já foi apresentado antes na obra. O admirável mundo novo não precisa ser necessariamente maior do que as regiões já apresentadas na obra (apesar de geralmente ser muito maior porque isso é conveniente). Ele só tem que sugerir que tudo já foi apresentado antes (lugares, aventuras, inimigos, poderes, etc) é muito menos impressionante do que naturalmente se encontraria nesse novo mundo. Em suma, é como se o título disesse na sua cara: “Você ainda não viu nada. Não sabe de nada. E só vai saber alguma coisa quando chegar lá.” Quando o autor te promete isso é quando se identifica um típico admirável mundo novo.

Eu não tenho nada contra essa premissa. Se o autor for capaz de cumprir o que promete, tudo bem. A obra, de fato, vai atingir outro patamar e os fãs ficaram mais do que satisfeitos. O problema é que isso quase nunca acontece. O admirável mundo novo, em geral, é uma promessa vazia e irrealista.

One-Piece-Img_24Entretanto, para entender os fracassos, vale a pena dar uma olhada nos poucos sucessos exemplares do uso desse clichê. Os dois que mais se destacam (e que eu conheço) são a Grand Line de One Piece e o continente de Digimon Adventures. Por mais que algumas aventuras em East Blue ou na Iha Arquivo de Digimon tenham sido legais, as sagas que aconteceram nos respectivos admiráveis mundos novos estão num patamar de qualidade superior se comparadas às sagas anteriores.

O que esses dois admiráveis mundos novos tem em comum são, ironicamente, suas sagas anteriores. Elas, de fato, apresentam pouco da real da natureza do universo em que os personagens estão envolvidos. Os inimigos são bem mais fracos, os poderes limitados e os acontecimentos bem menos dramáticos, empolgantes e emocionantes do que é visto no Admirável Mundo Novo.

Isso acontece porque tanto Ilha Arquivo quanto East Blue são introduções. Os criadores dessas obras nesses segmentos limitam significativamente o que normalmente seria mostrado na obras. As suas cartas continuam dentro das suas mangas. E, nessas sagas, os autores distraem os leitores seja com lutas ou apresentando personagens (digiescolhidos, digimons ou piratas). A real natureza está escondida e apenas aperitivos dela são dados a quem acompanha a obra.

Sendo sucinto, os criadores se seguram.

Contudo, esses casos são exceções. O caso mais comum de admirável mundo novo, que geralmente desaponta, promete uma melhora a partir de uma situação em que a história e o universo do título já estão consideralmente desenvolvidos. Onde o criador está longe de se segurar e já usou boa parte das cartas que tinha na manga. O gráfico abaixo, cientificamente comprovado, mostra a diferença entre os dois casos. Uma introdução em que o autor se segura (Certo). Uma promessa irreal de uma melhora a partir de uma situação onde o autor já está dando o seu melhor (Errado).

GraficoCientificodosAMNNão é o que autor seja incapaz de melhorar seu trabalho. Há vários exemplos de autores que melhorar muito conforme publicavam as suas obras. O que, realmente, acontece é que o autor não consegue mostrar tudo que foi prometido por causa de limitações técnicas. O modelo de serialização semanal ou mensal é caracterizado por a cada semana ou mês administrar uma dose homeopática do enredo e do mundo. Para mostrar algo grande e majestoso em detalhes é necessários investir semanas ou meses. Por isso, é difícil mostrar tudo que o leitor gostaria de ver. Não há espaço o suficiente. É ilusão pensar que algo muito maior ou mais complexo possa ser desenvolvido no mesmo espaço que a série usava para elementos mais simples quando ainda não se encontrar no admirável mundo novo.

Trata-se de algo semelhante a um problema que uma das 22 Regras da Pixar de Como Criar Histórias aborda.

“Simplifique. Tenha foco. Combine personagens. Não desvie do principal. Você sentirá como se estivesse perdendo material valioso, mas ficará mais livre.”

Em outras palavras, é inviável abordar aspectos da história muitos distantes da sua proposta central. Certo personagem parece muito interessante? Legal, mas gastar muito tempo com ele implica em deixar seu protagonista ocioso por eras. Certo lugar do universo parece ótimo? Interessante, mas vale a pena ir até lá mesmo? Não está muito distante do caminho que os personagens normais normalmente trilhariam?

Isso é mais útil para filmes visto que se tratam de uma mídia com duração curta, mas pode se aplicar a mangás também. Mesmo que mangás possam ser enormes, não se deve esquecer que a história é contada de pouquinho em pouquinho. Não é tão simples prometer algo colossal sendo que isso pode tirar a história do seu foco muito facilmente e por muito tempo.

É por isso que coisas grandiosas, como, por exemplo guerras, costumam decepcionar. Elas são grandes demais e, por causa disso, sua abordagem acaba por ser superficial e pouco natural. Tanto nas guerras recentes de One Piece quanto na de Naruto não houve batalhas grupais de grande escala que é o que normalmente se veria nesse tipo de evento. One Piece optou por mostrar alguns ataques poderosos de personagens imponentes e, mais tarde, flashes de momentos cruciais (mortes de personagens importantes e acontecimentos pontuais do conflito que levaram a eles). É como o autor pode lidar com a bronca. Dificilmente, seria assim na “vida real”.

GW!Mesmo que o Admirável Mundo Novo pareça um trope de difícil implementação, ele ainda acaba por ser uma das tendências mais forte em Battle Shounen. A justificativa disso é que a simples menção de um lugar onde tudo vai ser melhorado já é suficiente para criar hype. E hype é um dos elementos essenciais nesse tipo de obra visto que pode potencializar suas vendas e o seu poder comercial. O hype por si só pode fazer o consumidor comprar o próximo exemplar visto que ele “quer saber o que vai acontecer”.

Os três títulos mais proeminentes que estão usufruindo desse trope são os Battle Shounen da Weekly Shounen Jump, One Piece, Toriko e HunterxHunter.

One Piece já usou uma vez com sucesso e, agora, tenta pela segunda vez com o Shin Sekai. O mangá promete há mais de um ano esse novo mundo, mas, infelizmente, Punk Hazard decepciona. Não é que seja ruim, porém não é melhor que nenhuma das sagas mais célebres como Alabasta e Enies Lobby. É discutível que não seja melhor que nem mesmo alguns arcos mais infames como Skypeia e Thriller Bark.

No caso de One Piece é fácil observar os dois casos. Grand Line se apresenta como um caso que deu certo enquanto Shin Sekai potencialmente pode dar errado. A diferença entre os dois é o que foi citado antes. One Piece antes da Grand Line era muito menos do que é hoje. Os principais personagens ainda não estavam presentes e as batalhas aconteciam numa escala bem menor. O Oda, na época, ainda tinha muitas cartas na manga e só começou a usar as melhores na Grand Line.

Shin Sekai é diferente. Muitas cartas boas já foram usadas e, mesmo assim, se espera dele um nível de qualidade muito superior ao que foi apresentado até agora e que o Oda está acostumado a produzir. Existem outros problemas, mas vários deles advém do hype que o Oda criou e, agora, aparentemente, é incapaz de responder a altura.

Em Toriko nós podemos ver alguns problemas de se lidar com um mundo grande demais e uma promessa de mundo ainda maior. Em vários casos, Toriko é superficial em mostrar as “maravilhas” do seu mundo por simplesmente ser incapaz de lidar com coisas dessa magnitude. Nós temos pirâmides gigantes de culturas ancestrais milenares sendo exploradas em apenas uma dúzia de capítulos. Toda a profundidade que não só poderia como deveria advir disso é perdida. O resultado é uma abordagem superficial de algo que deveria ser profundo e complexo. É algo que deixa uma sensação de vazio no leitor e diminui a seriedade do título.

E, por fim, em HunterxHunter nós temos o ápice disso. O continente negro foi apenas mencionado, mas conhecendo o Togashi e os seus hiatos infinitos até os leitores mais fervorosos tem a impressão de que o autor será incapaz de cumprir o que prometeu. É a mais vazia das promessas. Praticamente, impossível de se cumprir.

Acredito que o problema real por trás disso seja alguns conceitos errôneos que tanto leitores quanto criadores tem. Admiráveis Mundos Novos são ideias. Da mesma forma que vilões extremamente poderosos, guerras e outras coisas masjetosas. No papel, elas parecem fantásticas e empolgantes, mas os autores parecem se esquecer que a execução delas é o que realmente importa. É o que realmente vai fazer o seu leitor pagar pau para o título. O problema é que a execução delas, muitas vezes, é inviável.

A partir dessa constatação, existem duas opções. Ou os autores são incompetentes a ponto de não perceber que são incapazes de cumprir o que propõe (não necessariamente porque são ruins, mas porque o que é proposto não é capaz de ser veículado no formato de serialização de uma maneira comercialmente viável). Ou eles agem de má fé visando o hype que esse tipo de coisa gera e não se importando se a execução for medíocre no final.

Eu, sinceramente, espero que a segunda opção não seja o caso mais comum.

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4 respostas para Admirável Mundo Novo

  1. spock disse:

    bom texto cara, bom texto.

    me ajudou muito agora, vlw.

  2. Dan disse:

    mas será Hunter x Hunter volta do hiato um dia ou essa demora vai continuar até o autor morrer?

    • erequito disse:

      Vai saber, o Togashi ainda não é tão velho, mas não conheço autor mais preguiçoso que ele. Ele é um baita mangaka e Yu Yu, HxH e Level E são todos muito legais. Ou seja, competente ele é. O problema é fazer ele trabalhar.

      Existe uma tirinha que faz piada da carreira dele. É bem divertida. “A busca de Yoshihiro Togashi pelo titulo de 3º Deus do mangá” é o nome, penso eu. Procuro e dê uma olhada se não conhece.

  3. Raphael disse:

    Parabéns pelo texto, erequito. Sempre bom topar com uma análise que faça um leitor refletir sobre um determinado aspecto de suas obras favoritas. (No meu caso, One Piece e HxH) Espero ver mais disso por aqui. Hahaha

    Mas escrevo este comentário para tentar jogar duas ressalvas pequenas:

    Acho cedo para determinar se Punk Hazard decepciona, visto que parece ser apenas um arco, algo que faz parte de uma trama maior dentro de uma verdadeira saga. PH seria a Whiskey Peak do Shin Sekai, entende?

    Quanto a HxH, eu realmente não sei o que o Togashi pretende com o Continente Negro. Diferentemente de One Piece, HxH não é muito focado na exploração do mundo… Nem mesmo a parte conhecida pelo homem foi dignamente explorada pelos personagens. O autor pode, sim, ter em mente que o Gon explore essa nova região, ou pode ser que a partida para o Continente Negro marque o fim do mangá, desde que isso estabeleça o fim de um ciclo dentro da obra… As possibilidades são várias. E, se tratando de HxH, que já contrariou nossas expectativas diversas vezes ao longo da história, tudo é possível.

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