Bizarras aventuras e o destino desse sangue

“JOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOJO!!”

Existem artistas focados. Aqueles que colocam suas idéias, suas visões de mundo, seus gostos, tudo que os definem, tudo o que têm numa única obra, que definirá sua produção cultural e talvez até mesmo sua vida. Tal artista pode fazer outras obras antes ou depois, mas muitas vezes será algo pálido se comparado com a grande obra. É comum que essa grande obra seja bastante longa.

Também existem artistas prolíficos, que soltam obra atrás de obra. Mantendo uma idéia central, tais artistas testam sua qualidade através de premissas e até mesmo gêneros, descobrindo que novidades podem ser criadas, como eles podem fazer algo melhor do que jamais fizeram, em qualquer sentido.

E existe esse cara estranho, o Hirohiko Araki. E existe Jojo’s Bizarre Adventure.

Hirohiko Araki é o autor de Jojo’s Bizarre Adventure, e Jojo’s Bizarre Adventure é história viva. Um dos dez mangás mais longos de todos os tempos, iniciado em 1987 e em publicação até hoje, totalizando 107 volumes e contando. Por muito tempo, Jojo foi o mangá mais longo de todos os tempos a não ter uma série de anime, coisa que mudou esse ano (e agradeço por isso, foi o empurrão que tive pra ler a obra).

Só com essa informação, parece fácil de jogar Araki no grupo dos artistas centrados em uma única obra. Só que Jojo não é uma obra comum. O mangá tem, por enquanto, oito partes consideravelmente independentes umas das outras. Alguns personagens aparecem em mais de uma, mas o protagonista sempre muda de um para o outro. Se você ler só a parte 1, está bom. Se ler a 1 e a 2, também. A 1, a 2 e a 3, e o sentimento de conclusão sempre se mantém. Jojo continua quase como um grupo de séries independentes.

A palavra chave é “quase”. Não é tão fácil chamar Araki de centrado em uma única obra, se Jojo é quase “várias obras em uma”. Mas também não podemos esquecer que todas as partes estão unidas sob o título “Jojo’s Bizarre Adventure”. Mesmo que elas não compartilhem muitos personagens (OK, é sempre a linhagem Joestar, mas é algo muito diferente de ver Luffy sendo Luffy por anos a fio), alguma conexão existe entre elas. Algo que sustenta e defina a série, algo que transforma a soma das partes no todo.

O que é essa conexão? Bom, pra tentar explicar isso que esse post existe. O que, afinal, é Jojo’s Bizarre Adventure?

Acredito que, quando se fala de Jojo’s Bizarre Adventure, as primeiras coisas (ou pelo menos, algumas das primeiras coisas) que vêm à mente de todo mundo são Stands. Star Platinum, Hermit Purple, Silver Chariot, Crazy Diamond, Heaven’s Door, Gold Experience, Stone Free, ZA WARUDO, Killer Queen, King Crimson, Made in Heaven e muitos, muitos outros. Stands, a partir da parte 3, são um conceito definidor de Jojo’s Bizarre Adventure. Talvez eles possam nos ajudar a entender a série.

Stands, inicialmente definidos como “Hamon fantasma” (Hamon, pra quem não lembra, é o poder das duas primeiras partes, baseado em ondas causadas pela respiração do usuário que reproduziam a função da luz do Sol), são basicamente “projeções da força vital” de seus usuários. Cada usuário de Stand tem um e apenas um stand (porém, tal Stand pode evoluir bastante). Outras regras podem ser destacadas (Stands não são visíveis para não-usuários de Stand, danos no Stand são transferidos para o usuário e vice-versa), mas a maioria delas tem um número considerável de exceções. Porém, um fato não muda: o Stand é a projeção única da força vital de uma pessoa.

Isso torna o Stand um poder extremamente individual, visto que cada usuário tem sua única força vital e seu único Stand. E Jojo’s Bizarre Adventure é cheio de Stands extremamente criativos, fazendo cada confronto entre dois usuários de Stand algo notável. Podemos ver um Stand que é um tumor falante, um que é uma névoa que transforma qualquer arranhão do oponente em imensos buracos no corpo, um que entra no centro de dor do cérebro do oponente para repassar tudo que seu usuário sente, entre muitos outros. Araki se esforça para quebrar todos seus limites, fazer cada poder ser fascinante e único. E já que cada Stand é único, temos diversos deles, e Araki faz um excelente trabalho para mostrar toda a diversidade que são os Stands. Isso é um fundamento crucial de Jojo. Vamos guardar essa informação pra daqui a pouco.

Stands justificam com louvor o termo “Bizarre” no título de Jojo. Mas temos outros. Um deles é “Adventure”. Não sei o que surge na sua cabeça quando pensa em aventura, mas na minha, surgem imagens da Terra-Média de Tolkien, do Mundo Médio de Stephen King, do Centro da Terra de Júlio Verne, da Amestris de Hiromu Arakawa. Uma aventura se define muito por seu mundo, por seus cenários, por seus ambientes. Jojo faz muito bem nesse quesito, com a bela construção (não só visual) de cada local. As lendas de Tarkus e Bruford, a sede mexicana dos Pillar Men, a presença deles debaixo do Coliseu (existe até uma breve explicação mencionando os metrôs de Roma), os pedintes indianos, tudo isso cria o excelente mundo de Jojo.

Porém, um detalhe nesse sentido precisa ser destacado: a ambientação de Jojo é variada. A Parte 1 é centrada na Inglaterra, e a Parte 5 na Itália, mas a Parte 2 passa por Nova York, México, Itália e Suíça, e os Stardust Crusaders da Parte 3 saem do Japão, visitam Cingapura, Índia, Paquistão, Mar Vermelho e finalmente chegam ao Egito. Poderíamos citar outros exemplos, mas o ponto se faz com esses. Devido ao relativamente pequeno tamanho de cada parte, não é possível trabalhar tão bem todos os locais, mas Araki (que visitou vários desses países, certas vezes financiado pela própria Shueisha, justamente por fins de pesquisa para Jojo) tenta, e faz um trabalho muito bom. Mas a diversidade de ambientes é um benefício para a série que o foco em um único ambiente jamais poderia trazer. Mostrando o mundo (quase) como um todo, Araki fez algo belíssimo para a obra. Vamos guardar mais essa informação.

“Bizarre”, OK, “Adventure”, OK. Falta “Jojo’s”, a parte provavelmente mais óbvia. Vamos ampliar um pouco o espectro e olhar para os “times do bem” de Jojo. Speedwagon, Lisa Lisa, Stroheim, Kakyoin, Abdul, Polnareff, Okuyasu, Koichi, Rohan, Bruno, Guido, Narancia, Hermes, F.F., Weather Report, entre tantos outros. Destaque para os Zeppelis, e, obviamente, para os Jojos. Aventuras precisam de aventureiros, e é isso que todos esses personagens são. Novamente, a variedade é notável, até mesmo na linhagem Jojo. Temos o romântico e cavalheiresco Jonathan, o absurdamente hilário Joseph, o definição-de-cool Jotaro, o legal-até-zoarem-o-cabelo Josuke, e assim vamos. Cada herói é extremamente diferente dos outros no dia-a-dia, porém, ao enfrentar os vilões, todos eles têm uma atitude similar. Já falei o bastante da diversidade, mas essa atitude é extremamente importante. Estamos quase chegando lá.

Heróis precisam de vilões. Gandalf não existe sem Sauron, Kenji Endo não faz sentido sem o Amigo, Light e L definem Death Note juntos. Os Jojos precisam de vilões, grandes vilões. E é neles que podemos ver o que Jojo’s Bizarre Adventure representa. Podemos ver essa característica fundamental na crueldade exacerbada de Diavolo, no desprezo e nas táticas malignas de Enrico Pucci, na busca pelo “ser perfeito” dos Pillar Men. Mas tudo isso é notável em grande escala em um único personagem, um dos mais marcantes e memoráveis de todo o mangá. Alguém que é tão importante para Jojo quanto cada um dos Jojos. Um dos melhores vilões já feitos. Dio Brando.

Dio é o vilão mais pão-com-manteiga que existe. Tenho a impressão que Araki pegou um livrinho com todas as regrinhas básicas de “como fazer um vilão” e as poliu até a perfeição. Dio Brando foi o resultado. Maldade pura e fascinante, com tudo que tem direito: ambição irrefreável, arrogância quase narcisista, desprezo aos heróis e a humanidade. Tudo isso define o maior vilão de Jojo, que, por sua vez, define Jojo.

A sede de poder de Dio o levou para um caminho que define tudo. Dio controla os humanos que podem ser úteis a ele (seja com algo que beira a sedução, seja com puro controle da mente), descarta os que deixam de ser, ignora os irrelevantes. De forma geral, ele considera a humanidade apenas uma ferramenta para ser usada por ele, não algo de que ele pessoalmente precise. Nenhum momento é mais claro que esse:

Dio, o vilão que busca poder acima da humanidade, usando a humanidade como quer, é, sem dúvidas, o maior vilão de toda a série. Juntando isso com os lugares diversificados, os Stands diversificados, os heróis diversificados que tomam sempre certa atitude quando chega a hora de enfrentar o vilão, e temos Jojo. E, como é tão bom de falar quando o assunto é Jojo, o todo é muito maior que a soma das partes.

Os vilões de Jojo são inimigos da humanidade. Jojo é uma história de derrotar tais vilões, tais inimigos da humanidade. Logo, Jojo’s Bizarre Adventure é uma história de superação, de afirmação e, porque não, de louvor. Não a um Jojo em particular, nem mesmo a todos os Jojos. À humanidade.

O mundo de Jojo é repleto de ambientes diversos, lutas diversas, poderes diversos, personagens diversos, porque tudo isso é um reflexo da nossa diversidade, da diversidade da nossa civilização. Minha força vital é diferente da sua, minha vida é diferente da sua, eu sou diferente de você, e Araki quer deixar isso claro. Jojo’s Bizarre Adventure respira isso. Ele quer mostrar o máximo possível sobre a humanidade: onde ela vive, o que ela fez, o que ela faz, o que a sustenta, o que a move pra frente, o que ela é. São perguntas violentas, mas Araki escolheu sua resposta muito tempo atrás.

Nisio Isin, autor da série Monogatari, de Medaka Box e de diversas outras obras (entre elas uma Light Novel focada em Dio), certa vez disse que Jojo’s Bizarre Adventure é uma obra-prima que devia ser lida por todas as pessoas. Eu não poderia concordar mais, e não é nem só por causa da absurda qualidade da série. Todos os Jojos, ao enfrentarem seus inimigos, não são apenas homens, nem ao menos apenas descendentes da família Joestar. Eles são toda a humanidade no seu melhor, se superando ao enfrentar seus maiores desafios, alcançando força e coragem digna dos maiores deuses. E, ainda assim, com suas piadas estúpidas, com seu romantismo exagerado, com suas frases forçadamente badass, eles são humanos. Os grandiosos heróis são humanos, assim como todos nós. Em nossos melhores momentos, somos Jonathan, Joseph, Jotaro, Josuke, Giorno, Jolyne, Johnny e Josuke.

Jojo’s Bizarre Adventure presta homenagem aos gentlemen britânicos, aos cômicos nova-iorquinos, aos mulherengos italianos, aos estilosos japoneses, e até mesmo aos honrados nazistas. Aos últimos dias da Inglaterra Vitoriana, à Corrida Para O Oeste americana, aos anos 80, ao Egito dos faraós e até mesmo à Renascença (inspiração das famosas poses de Jojo). Jojo é um monumento vivo à grandeza da humanidade em todos os campos, em todas as épocas, em todas as formas: suas conquistas, suas criações, e seus heróis.

Jojo’s Bizarre Adventure é uma homenagem a todos nós. Aos grandes, aos pequenos, aos homens, às mulheres, aos egípcios, aos ingleses, aos japoneses, aos italianos, aos americanos. Aos músicos, aos pintores, aos escultores, aos lutadores. Ao passado, ao presente e ao futuro. É isso que une tudo que é Jojo.

Jojo’s Bizarre Adventure, nas palavras do próprio Hirohiko Araki, é uma ode à humanidade. E nada mais precisa ser dito.

E que esse diamante louco que é toda a série Jojo continue brilhando. Existem diversas teorias que dizem que Araki é imortal (e essa imagem é um baita combustível pra elas). Se for, ótimo. O show deve continuar, e que possa continuar com Hirohiro Araki, que já provou que é um imenso amante da humanidade.

E se Araki não for imortal, tudo bem. Talvez, 50 anos depois, seu neto continue o trabalho.

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Sobre rauzi

Escrevendo para me lembrar que era verdade.
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7 respostas para Bizarras aventuras e o destino desse sangue

  1. Shiro disse:

    Disse tudo sobre JoJo’s Bizarre Adventures, só faltou falar um pouco sobre as inúmeras referencias a cultura pop ocidental, e Dio realmente é o maior vilão de todos os tempos, temos vários personagens no universo de Jojo com uma caracterização diferente e que nos chama muito a atença, afinal, todos são muito carismáticos.
    Uma coisa que eu digo para todos é que Phantom Blood foi apenas o protótipo de toda a série, foi apenas um teste do Araki para ver até onde ele poderia chegar, por isso em Battle Tendency para frente já vemos os personagens mais soltos e com suas caracteristicas próprias , apesar de que o Josuke de Jojolion é um diamante bruto, ele ainda precisa ser polido para nos mostrar sua verdadeira natureza, gostei bastante do blog de vocês e que continuem com essa ótima qualidade.

    • rauzi disse:

      Ah, caceta, só notei agora que esqueci de falar das referências à música. Tava no rascunho inicial, mas simplesmente me fugiu na hora de escrever. Pena, é um dos pontos onde essa abordagem de Jojo fica mais clara: pura homenagem aos grandes músicos (pelo menos na visão do Araki), que fazem parte dos grandes da humanidade.

      E de fato, dá pra encarar Phantom Blood assim tranquilamente. É curto, direto e cheio da idéia que Jojo sempre tem, mas sem quase nada do refinamento que viria depois. É uma ótima parte do mangá, mas certamente a minha “menos favorita”. E o Jo2uke ainda tá começando, espero muita coisa bacana dele.

      Muito obrigado pelos elogios, cara. Vamos tentar.

      • Lucas Avelino disse:

        Eu sou a favor de um segundo post, uma versão 2.0 desse, só que com as referências musicais evidenciadas (se não for um trabalho imenso, eu já amo esse blog mesmo tendo conhecido ele há apenas uma semana). Conheci JoJo ano passado e já estou no Steel Ball Run. Acho impressionante a capacidade do Araki de expressar tão bem as personalidades, sentimentos e histórias dos personagens, sem falar nas minúcias aos detalhes como localidades e lendas e histórias dos mesmos. Emocionante, vibrante e mesmo sendo algo relativamente antigo, incrivelmente atual. Que muitos anos de JoJo ainda venham com muitas viagens e referências musicais do nosso grande e imortal (que os Deuses concordem) Araki Hirohiko!

  2. Pingback: Apostas: Janeiro/2013 | All Fiction

  3. Vine Weber disse:

    Descobri esse blog e já gostei pelo nome, detectando um fã de Medaka Box no ato!
    Sobre Jojo, eu tinha lido o primeiro volume de Phantom Blood a uns 2 anos e achei bem fraquinho, com ideias batidas e tal. Mas dei uma nova chance final do ano passado e me apaixonei pela série! Terminei Phantom Blood e Battle Tendency em 1 semana e comecei Stardust Crusaders recentemente, além de estar em dia com Jojolion, e posso afirmar com toda a certeza que é a minha obra favorita, ao lado de Bakemonogatari, Fate/Zero e Steins;Gate. O anime é o sonho se tornando realidade, com uma qualidade incrível, estilo retrô e a melhor opening ever, eu quase surtei a primeira vez que eu vi!
    Adorei o blog, continuem assim!

  4. Preto disse:

    Dificilmente verei algo tão épico quanto o fim da parte 6 (Apesar de ser a parte com mais furos, ainda assim é minha favorita pelos personagens).

    Jojo virou meu manga favorito, a variedade de Stands, os personagens, a ambientação, tudo é magnifico. O Araki só evolui com o passar dos anos, a obra nunca “perdeu o fio”. Definitivamente o Nisio tem razão: “Jojo’s Bizarre Adventure é uma obra-prima que devia ser lida por todas as pessoas”.

    Agora House… Como você pôde ter se esquecido das referências cara? =(
    Parte 5 é a que tem as melhores.

  5. rauzi disse:

    Lucas Avelino (respondendo aqui porque o WordPress é meio chatinho), revisão do post provavelmente não rola tão cedo, mas existe uma ideia relacionada a isso nos planos do blog. Sem previsão pra sair, então não fique ansioso. Mas acho que todo Jojofag vai ficar feliz.

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