Toki Wo Kakeru Shoujo

Time waits for no one.

Toki Wo Kakeru Shoujo (em tradução livre, A Garota que Pulava Através do Tempo) é um filme animado de 2006, dirigido por Mamoru Hosoda, escrito por Satoko Okudera e produzido pela Madhouse. É uma sequência vaga do livro de mesmo nome, escrito em 1967 por Yasutaka Tsutsui.

Makoto Konno é uma adolescente sem muito de extraordinário. OK, ela é uma “tomboy”, passando mais tempo com seus dois amigos homens (Chiaki e Kousuke) do que com outras meninas. Fora isso, totalmente comum. Bom, totalmente comum até o dia em que Makoto se torna capaz de viajar pelo tempo. Para o que ela vai usar esse poder, e quais serão as conseqüências? Assista ao filme para descobrir! (breguice 10/10)

Eu não assisto muitos animes (e nem gosto de me colocar tanto nos textos, mas enfim), mas preciso tirar logo isso do peito: Mamoru Hosoda é meu diretor de anime favorito. Porque esse homem sabe o que deve ser feito com anime.

Cada mídia, seja literatura, cinema ou histórias em quadrinhos, tem seu estilo estético, suas limitações e pontos fortes. Anime é uma mídia como outras, e tem esse nome derivado de animation por um motivo. Diálogos expositivos tendendo ao infinito raramente aproveitam o pleno potencial da mídia (e eu adoro Bakemonogatari). Usar páginas de mangá como storyboard e simplesmente transcrevê-las para a animação é cuspir na cara de anime como mídia criativa (claro que existem adaptações boas, mas elas se constroem como animes, não como mangás animados).

Toki Wo Kakeru Shoujo aproveita imensamente o potencial da animação. O uso de belos e detalhados backgrounds é notável, mas jamais se torna o destaque. O filme brilha em seu excelente domínio da dinâmica de corpos, onde cada movimento é fluido e quase palpável. Apenas duas cenas na obra são notavelmente ruins nesse quesito (na verdade, a segunda é meio que uma repetição da primeira; estamos falando de viagem no tempo, afinal), mas, em geral, a animação eleva momentos simples, como um jogo de baseball recreativo entre os três amigos, a um imenso prazer visual pela simples e fantástica naturalidade das cenas.

Mas a obra não se limita a isso. Muitas cenas têm um simbolismo bem poderoso. Certas possibilidades poderiam ser alcançadas com muitas formas de mídias visuais, em cenas mais estáticas como certo “encarceramento” de Makoto pelas carteiras da sala, ou em bifurcações que são bifurcações em diversos sentidos. Porém, outras são qualidades típicas da animação: os pulos da garota para viajar pelo tempo, quase performáticos, são muito bem animados, e significam muito sem falar uma palavra. A corrida da Makoto contra a câmera é uma das cenas mais geniais que jamais vi. É algo que não seria facilmente atingido em outras mídias, e por isso parabenizo Hosoda: ele pensa em sua obra como um filme animado, e constrói sua obra como um filme animado.

Em outro aspecto, Toki Wo Kakeru Shoujo precisava ser criado e pensado como um filme (aqui, não necessariamente animado, mas definitivamente como uma mídia que permite áudio): em sua trilha sonora. A composição de Yoshida Kiyoshi (também responsável pelas trilhas sonoras de Kaiba, Kurozuka e Shigurui) adiciona demais à obra. Músicas como Karakuri Tokei ~ Time Leap, Shoujo no Fuan e principalmente as magníficas Kawaranai Mono (Strings Version) e Natsuzora dão uma nova sensação a todas as cenas em que estão presentes, adicionando poder a cada momento. E não poderia deixar de citar as também excelentes Kawaranai Mono e Garnet, respectivamente insert song e música tema, ambas de Hanako Oru, que expressam tudo o que precisavam expressar. Em especial, Garnet, que funciona ao mesmo tempo quase como resumo temático do filme e como linha direta à mente de Makoto no fim da obra (e por isso sua aparição nos créditos é mais do que justificada).

E um último aspecto “técnico”: em nenhum momento durante o filme eu pensei “caramba, esse/a VA está fazendo um ótimo trabalho”. Não porque eles não estivessem, e sim porque estavam. Praticamente não há VAs nesse filme, e sim personagens. O trabalho deles é tão bom que suas existências se tornam imperceptíveis. Destaque (ou antidestaque, considerando a situação) vai para Riisa Naka, que É Makoto Konno.

Agora, para o roteiro. O primeiro aspecto a ser destacado é que Toki Wo Kakeru Shoujo é uma história de viagem no tempo. Como tal, já começa com dois estigmas: o de “pseudocientífico” e o de “não-original”. Será que eles são válidos para julgar o filme?

O primeiro estigma, de “pseudocientífico”, é inútil. Como citei de passagem no texto de Planetes, certas obras não precisam de realismo científico, e Toki Wo Kakeru Shoujo nem ao menos finge tê-lo ou tenta atingi-lo. A viagem no tempo é necessária para contar a história que o filme deseja contar, mas ele jamais gasta meio segundo tentando estabelecer lógica interna para tais viagens. Alguns conceitos são vagamente expostos, mas de forma natural, enquanto a própria Makoto os descobre. A obra jamais se prende a explicações longas, jamais tenta fazer qualquer sentido nesse ponto, se distancia totalmente da ciência para contar apenas uma “história com viagens no tempo”.

O segundo estigma, de “não-original”, é mais relevante. Ele tem seu quê de verdade, afinal, o conceito de viagem no tempo é extremamente antigo, e Toki Wo Kakeru Shoujo não faz nada de extremamente inovador com o conceito em si. Porém, certos contrapontos a essa afirmação da “falta de originalidade” devem ser levantados.

Primeiro: o filme não é tão genérico assim. Se o conceito usado na viagem do tempo é antigo, e até mesmo as conseqüências de viagens no tempo são clássicas, o viajante no tempo em si é uma brisa de ar fresco. Se você espera ver como protagonista dessa história um Andrew Harlan, um Marty McFly, um Evan Treborn ou até mesmo um Okabe Rintarou, quebrará a cara em todos os casos. Makoto Konno é única em sua inocência, em sua simplicidade, e, me atrevo a dizer, em seu realismo. É uma adolescente como outras, e por isso é tão única, e é tão excelente assisti-la.

Segundo: não é necessário levar a originalidade muito além. Clichês, no fim das contas, são elementos de roteiro. Mais comuns do que a maioria, porém elementos de roteiro. Sua qualidade não é intrínseca a eles, e depende apenas do uso que a mente criativa da obra faz deles. Em Toki Wo Kakeru Shoujo, um clichê é usado em um ponto bastante secundário (parece estranho dizer que como funciona a viagem do tempo é um ponto secundário em um filme sobre viagem no tempo. Acredite, é) e em outros um pouco mais importantes, mas tais clichês nunca se tornam falhos ou irritantes. Em um ponto realmente importante para a obra, a caracterização dos personagens, Satoko Okudera evita o que precisava evitar. E em pontos secundários, usa o clichê de uma das maneiras mais interessantes possíveis: colocando-o no bolso e mostrando quem manda na obra.

Bom, já que um foco é caracterização, vamos falar dos personagens. O elenco é pequeno, e a maioria dos personagens secundários são quase elementos de roteiro (bons elementos de roteiro, mas elementos de roteiro mesmo assim), como Kaho (a garota que gosta de Kousuke) e Takase (o garoto que se fode). Quase nada da história se perde se limitarmos uma análise a apenas três personagens: Makoto, Chiaki e Kousuke.

Mesmo assim, o que realmente brilha em todos eles é a interação que têm entre si. Seria quase injusto destacá-los individualmente, porque seus melhores momentos sempre estão na unidade. Em situações estupidamente hilárias como Chiaki derrubando Kousuke com uma bola de basquete ou nas sessões de karaokê entre os três, o filme passa o realismo contido naquele grupo de amigos, passa uma sensação de naturalidade incrível. Cada personagem cria vida em cada momento. E Makoto Konno é um show a parte. Brilhando com sua animação em quase todas as cenas, brilhando em seu desenvolvimento por todo o filme, é uma das melhores protagonistas que conheço.

SPOILERS ATÉ O “FIM DOS SPOILERS”

Agora, falando de maneira mais direta do roteiro. Já comentei isso algumas vezes, mas só pra deixar bem claro: é sensacional ver a naturalidade com que Makoto viaja no tempo, as besteiras que ela faz com seu poder. Voltar no tempo para pegar rebatidas no beisebol, para cantar repetidamente no karaokê, isso é tão incrivelmente natural que me deixa chocado. Nunca, NUNCA, li, assisti ou ouvi qualquer coisa que tratasse viagem no tempo de uma maneira tão natural. No uso de um elemento fantástico (vamos ser sinceros, viagem no tempo é quase tão científico quanto as explosões barulhentas de Star Wars) sem abandonar o realismo dos personagens e o puro entretenimento, pouquíssimos podem se comparar a Toki Wo Kakeru Shoujo.

Também é bacana destacar o que o filme fala quase sem falar. Seja com a imagem mostrada em cima, onde Makoto parece ficar presa ao fugir de Chiaki, seja com o uso de tons coloridos em todas as cenas e a substituição deles por cinza enquanto o garoto conta sua história, Toki Wo Kakeru Shoujo brilha, usando seu status como obra visual de forma bem inteligente.

“All the colors mix together into gray”

E a cada momento, o filme está reafirmando seu tema principal. A bifurcação no caminho de Makoto e Chiaki, representando a decisão mais importante no filme inteiro; certa frase que a tia da Makoto diz de passagem, “Muitas garotas da sua idade fazem isso” (se referindo à viagem no tempo; aliás, é interessante mencionar que ela já viajou no tempo, já que é a protagonista do livro original); a constante mostra do céu nublado às costas de Makoto, tudo isso se refere diretamente a tudo.

Com a bifurcação no caminho e a decisão final de Makoto de seguir por um caminho diferente do de Chiaki, Toki Wo Kakeru Shoujo está mostrando o que acontece quando queremos manipular o fluxo do tempo, o que tal poder poderia desencadear na vida de uma pessoa normal (e como já disse, normal é a palavra chave).

Quando a tia da Makoto fala aquela frase, ela, junto com Toki Wo Kakeru Shoujo, está falando algo importante: todo mundo (talvez especialmente na adolescência, talvez não), viajante do tempo ou não, faz o que Makoto estava fazendo, as merdas de ficar tentando controlar o fluxo do tempo pra se manter no conforto e não encarar o que vem.

E com o céu nublado, sempre contrastando com a figura de Makoto, Toki Wo Kakeru Shoujo está resumindo seu tema: a luta de uma garota contra a imensidão da natureza. Nessas imagens, o tempo é simbolicamente representado pelo espaço (o céu), e sempre luta por espaço com Makoto. Em cada cena que o céu é claramente visível, escutamos a alta risada da garota, lembramos do que ela fez e faz ao mudar o tempo; a harmonia entre as duas, Makoto e natureza, jamais está 100% atingida. Makoto sempre está pensando mais em si mesma do que em qualquer outra coisa, e nunca encara o céu.

Até uma das últimas cenas, depois que as viagens no tempo acabam, Chiaki vai embora, e tudo se resolve. Quando Makoto finalmente encara o céu, encara as nuvens maiores do que nunca. E as nuvens pela primeira vez tomam o primeiro plano da tela, se mostrando bem maiores que a garota. E, segundos depois, Makoto reaparece, novamente tomando grande parte da tela, com o mesmo sorriso que mostrou durante praticamente todo o filme. E o tema de Toki Wo Kakeru Shoujo é resumido nessa única cena.

Vendo a premissa e o começo do filme, é inevitável pensar nos erros que cometemos durante nossas próprias vidas, e como poderíamos consertá-los com o poder de pular pelo tempo. “Eu poderia ter falado com aquela garota”, “Eu poderia ter aproveitado melhor aquele tempo”, “Eu poderia ter feito tudo de um jeito diferente”.

Mas, com essa cena de Makoto encarando o céu pela primeira vez e sorrindo, e, na verdade com todos os seus 100 minutos de duração, o que a garota aprende e Toki Wo Kakeru Shoujo nos conta é que o tempo é grande demais para abarcar. Não é apenas um simples “você não possa mudar o tempo”, você não deve mudar o tempo: além das infinitas possibilidades do efeito borboleta, isso é simplesmente uma falsidade consigo e com os outros, uma manutenção da zona de conforto. No fim das contas, Time waits for no one, e isso não é ruim. Aceitar o tempo pelo o que ele é não é ruim. “Lembrar o passado, viver o presente, e abraçar o futuro”, não é só tudo o que podemos fazer, é tudo o que devemos fazer. De outra forma, e talvez com outras pessoas, mas uma coisa é certa: “Essa estação virá mais uma vez”.

FIM DOS SPOILERS

Time waits for no one. Não há motivos para esperar para amar, não há motivos para se impedir de viver. E ninguém devia esperar pra ver esse filme (breguice 10/10 completa).

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Sobre rauzi

Escrevendo para me lembrar que era verdade.
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5 respostas para Toki Wo Kakeru Shoujo

  1. Ever disse:

    Li tudo menos a parte de spoiler, pois não vi ainda. Mas você falou tão bem dessa obra em questão que deu vontade de assisti-la. Ainda mais que gosto de viagem no tempo. Vou ver se arrumo pra assistir.

  2. Ever disse:

    Vi o filme hoje. Realmente a animação é bem fluida. E praticamente concordo com tudo o que você colocou no post. Eu gostei bastante do filme, tem uma premissa legal e um roteiro divertido e interessante, ainda mais no que você disse, na fluidez das viagens no tempo. Acho que a única coisa que tenho a criticar, é o choro da protagonista, o choro dela ela tão falso e… ‘forçado’, pelo menos pra mim, não conseguia passar a emoção necessária na parte de choro dela, ao contrário de todas as outras cenas. Mas ademais, aprovo o filme.

  3. Pingback: Ookami Kodomo no Ame to Yuki | All Fiction

  4. Den-chan disse:

    MEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEU, NÃO FUI A ÚNICA!
    TAMBÉM FIQUEI ENCANTADA COM A NATURALIDADE DE TOKI WO KAKERU SHOUJO, sobre a viagem no tempo, sobre ela fazer coisas que qualquer pessoa normal faria e não tentar salvar o mundo. Sério, eu sou viciada em Toki Wo Kakeru Shoujo, justamente por isso. E pelas várias reflexões que se pode fazer, e pela amizade dos personagens.
    E pelo final.
    Mais uma vez, concordo com você e adorei o comentário!

  5. juakemi disse:

    porém, no final ele diz que irá esperar por ela no futuro, mas como se eles terão idades diferentes?

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