É necessário dizer algo de valor: Taiyou no Ouji: Horus no Daibouken (Isao Takahata)

Fantástico, fundamental, esquecido, mesmo pelos fãs do Ghibli. Masterpiece.

A história parece ser injusta. Reverencia os vencedores e condena ao esquecimento os derrotados. E nem sempre os vencedores são realmente melhores que os derrotados. Quais razões tornam algo vencedor ou derrotado, campeão ou esquecido, depende de cada caso e contexto. Fãs têm todo o direito de se fecharem e serem felizes com poucas obras. Mas aquele que pretende analisar, criticar, discutir, produzir algo interessante e construtivo, não deve se limitar aos campeões que a história traz, mas deve buscar também os derrotados e esquecidos, porque em seus erros e acertos revelam muitas nuances que a história omite. Muitas vezes ideias originais não fazem sucesso em um contexto, e depois explodem em outro.

Taiyou no Ouji: Horus no Daibouken, ou Hórus, Príncipe do Sol, é um desses casos. De um lado fracasso comercial, de outro uma obra espetacular, subestimada e fundamental para a história dos animes. É um filme de 1968 que integra o clássico momento da Toei Doga, dirigido por Isao Takahata e tendo na equipe de animação nomes como Hayao Miyazaki e o esquecido Yazuo Otsuka, que foi o mentor dos dois jovens e aquele que revolucionou a animação japonesa, não apenas em Horus mas em outros filmes da época e depois em séries para TV nos anos 70. Futuramente pretendo escrever um texto dedicado especialmente a Otsuka, por hora basta dizer que a épica cena da luta com o peixe em Hórus é criação sua. Observem bem a sofisticação da cena, que para a época era revolucionário, e atentem-se ao momento em que o peixe começa a atravessar as pedras, em como a animação fica lenta e rápida, lenta e rápida, lenta e rápida. O efeito é intenso.

Logo se vê que é uma das sementes que posteriormente darão no importantíssimo Ghibli. E de fato, podemos antecipar em Horus muitos elementos que serão lugares-comuns nas obras clássicas do estúdio, como personagens femininas fortes, intenso uso de simbologias e referências míticas, a assertividade dos protagonistas, tensão pré-apocalíptica, entre outras. Isto por si só justificaria a importância da obra, mas há mais, e algo ainda mais relevante: a sua contribuição para a história dos animes com o início de ruptura com o estilo Disney. Ok, ruptura não é um bom termo, e explicarei depois melhor, mas por hora deixemos assim.

Que grandes mangakas do passado como Osamu Tezuka foram profundamente influenciados pela indústria norte-americana de comics e da Disney não é novidade para ninguém. E bem, se você assistir alguns animes dos anos 60, sobretudo filmes, terá a impressão de estar vendo um clássico filme dos anos dourados da Disney, com animais falantes, aventuras ambientadas em cenários fantásticos ou baseados na literatura (que ainda terão espaço crucial na indústria de animes com os clássicos da World Masterpiece Theatre) e ampla utilização de trilha sonora, dando espaço a muitas cenas musicais. Tudo isto está em Horus. E diga-se de passagem, não era um estilo nada ruim, capaz de produzir obras memoráveis como Gulliver no Uchuu Ryoukou. Japão já fazia coisas de qualidade bem antes da atual estética de animes prevalecer. Mestre Tezuka que o diga.

Mas onde está a ruptura?

A ruptura de Horus não é com a Disney, mas com o modo submisso de produzir animes que os japoneses vinham procedendo. Antes resumia-se a animar mangás ou produzir animes baseados em histórias japonesas ou ocidentais, sem necessariamente haver uma marca autoral e pessoal. Tratava-se muito mais de uma mídia suporte para reproduzir tramas já conhecidas ou ao menos existentes.

Bom, Takahata e Miyazaki colocam em Horus suas próprias ideias e argumentos. Você pode encontrar várias referências míticas na trama, mas nenhuma história que sirva de base (não há Alice, não há Irmãos Grimm, não há Gulliver, etc). O enredo é completamente original e construído para dizer algo, único e novo. Sendo sincero, realmente não acredito que exista obra imparcial. Mesmo a mera adaptação de história existente já é algo parcial, pois a adaptação sempre omite alguma coisa e ressalta outras, e nessas escolhas o adaptador de certo modo faz uma releitura da obra. Uma obra adaptada é sempre uma segunda obra, uma leitura de outra pessoa da obra original. Entretanto, aquela obra original sempre se manterá lá, como base e concepção. Exemplificando, as adaptações da Disney dos contos dos Irmãos Grimm (que possuem origem ainda mais remota) não são meras adaptações, mas releituras, que transformam (para melhor ou para pior) o argumento de base. Não podemos ser ingênuos, as obras clássicas da Disney possuíam sim argumentos implícitos e explícitos, e que de alguma forma comunicavam algo ao telespectador. Mas não eram obras criadas exclusivamente para isso, não possuíam a transmissão de determinada mensagem o seu núcleo (que seguia sendo a diversão, o encantamento). Além disso, utilizar histórias conhecidas de base é uma forma de facilitar a comunicação com público, pois falar de algo conhecido é sempre mais fácil. E novamente ressalto, não é nada ruim esta estratégia, até porque o teatro grego já utilizava disso com maestria.

Prosseguindo. Um anime com enredo completamente original segue outra lógica. A base é a ideia fundamentadora, a concepção que estava na mente de seus criadores e que foram transformadas em animações.

O grande ato representado por Horus é na autoria e por isso afirmo que o filme rompe com o modo japonês de lidar com os animes, e não com a Disney. Primeiro porque a Disney continuaria sendo uma influência nas obras de Miyazaki e Takahata, e segundo que o clima obscuro e denso de Horus (sempre citado como inovação em relação à Disney) pode ser visto em filmes do estúdio norte-americano (sendo a magnum opus Fantasia um exemplo fácil). E não só o clima obscuro, mas inclusiva a ideia de autoralidade. Vejam (se carregam esse pecado) a sequência final de Fantasia (1940) e tirem suas conclusões.

Entremos então na citada autoralidade inovativa de Horus, em seu argumento. Bom, assistam a primeira cena do filme:

Uma introdução forte, violenta. Este grau de intensidade está presente na maior parte das cenas, que retrata a luta pela sobrevivência de um garoto na Idade do Ferro. A luta pela sobrevivência desencadeia a ideia central do plot: um demônio ameaça a existência da humanidade. É o demônio do gelo contra um pequeno vilarejo. Aparentemente simples, apenas bem contra o mal. E não deixa de ser, mas vai muito além.

Transcrevo a sinopse do MyAnimeList:

“Horus is a boy that one day, hunted by silver wolfs, found the sword of the sun. The day his father died he left his home to find the people from the town his father told him. Together with a small bear named Koro he start the journey an run into a great adventure fighting against Grunwald and his subordinates who wants to rule the world”.

A partir daqui há spoilers, portanto fiquem avisados. Sugiro que assistam o filme (que nem é longo, são apenas 80min) e depois voltem para ler o restante do texto e debater comigo. No BakaBT há o filme disponobilizado dublado e legendado em vários idiomas, inclusive em português.

SPOILER ATÉ O FINAL

Elenco os argumentos centrais: (1) Luta por sobrevivência em um cenário pré-apocalíptico (relação com pós-II Guerra e Guerra Fria?); (2) União como humanismo e única forma de sobrevivência; (3) cisão humana, que de um lado deseja se fechar em uma solidão fria, escura e afastada da sociabilidade e de outro anseia o calor e o Sol do convívio. Observem que tudo isto está mesclado em uma trama simples e que em muitos aspectos lembram os filmes clássicos da Disney, sendo Grunwald o vilão típico, Horus o protagonista típico, e por aí vai.

Adentremos. A luta do demônio contra o vilarejo não é meramente física, mas principalmente pessoal e emocional. Para vencer os humanos o demônio precisa arquitetar planos que minem as relações pessoais, que semeiem a inveja e a desconfiança, por fim a traição e a reclusão. Apenas desintegrando relações humanas é que o demônio consegue vencê-los. Quando emocionalmente o vilarejo já está derrotado, basta enviar uma horda de lobos demoníacos para fazer o trabalho final. Mas quando Horus levanta a moral do povo, o vilarejo revela sua força e luta com Grunwald. Toda derrota material é apenas consequência de uma derrota espiritual já consolidada.

Horus, o protagonista, nunca deixa de confiar um segundo sequer nos humanos. Mesmo quando traído e insultado ele se levanta e tenta salvar seus inimigos. Aliás, seu único inimigo verdadeiro é Grunwald, o demônio do gelo. Horus é o Príncipe do Sol que aquece o coração de todos. Grunwald é o gelo escuro que esfria o espírito humano e os torna incapazes para o convívio. Entre Horus e Grunwald existe Hilda, a mais emblemática e complexa personagem do filme, e certamente uma das grandes figuras de toda a história de obras de Miyazaki e Takahata.

Hilda é uma bela jovem com voz encantadora e capaz de tocar uma música magnífica com sua harpa. Quando entoa suas canções, todos param para ouvi-la. O mundo se rende a ela. É a Rainha. Mas Hilda é irmã de Grunwald, portanto também um demônio.

E aqui aparece marcante originalidade e profundidade da obra. Hilda é tanto protagonista como antagonista, símbolo da mulher dividida entre dois mundos. Desde o início se revela manipuladora e misteriosa. Sua música não é benéfica. Quando canta, todos param, mesmo contra a vontade. Há uma cena marcante em que alguns homens ficam indignados que todos param para ouvi-la e deixam de trabalhar, mas mesmo eles logo se rendem. De certo modo, lembra a canção das sereias da Odisseia. Música geralmente é reflexo de harmonia e paz, mas sua força implacável e mágica também pode causar o oposto. A harpa e a voz de Hilda são desintegradoras da união, são hinos fúnebres que estimulam a ociosidade, a desistência e a inveja. Não sem significado, um dos pontos altos do filme é Horus destruindo a harpa.

A divisão de Hilda está explícita em seus dois mascotes: a coruja e o esquilo. A primeira, pássaro maléfico, é serva direta de Grunwald. O esquilo é gentil e se rende ao carinho do vilarejo. Ambos refletem as duas caras de Hilda. Mas que se frise: não há antagonismo imbecil, como se ela fosse a heroína ou a vilã. É uma mulher dividida, que não sabe se escolhe a vida em comum (o Sol), também simbolizado na cena do casamento, ou o gelo eterno da solidão. Hilda não se decide se quer ser humana (Horus) ou demônio (Grunwald). Uma divisão poderosa que toca o íntimo de cada pessoa. Divisão que foi infiltrada por Grunwald, e que havia tentado Horus, mas em sua assertividade absoluta sequer se afetou. Outro detalhe: Hilda mata a coruja. A coruja que era sua parceira desde sempre. Depois que ela faz sua opção sincera pela mortalidade humana, e não pela imortalidade demoníaca, não há qualquer constrangimento e remorso em matar num golpe só a coruja que simbolizava seu lado negativo.

Takahata e Miyazaki são autores que sabem utilizar os símbolos e os detalhes como poucos na animação japonesa (vide imagem acima, que introduz Hilda). São remanescentes de um estilo superior, cada vez mais abandonado nos dias de hoje. Mesmo eles parecendo ter perdido o fôlego e já não fazendo obras-primas como antes. Mas Horus é obra de sua juventude, de espíritos inovadores e preocupados em dizer algo, em tocar o coração das pessoas. Para enfrentar o gelo obscuro é necessário união, carinho, e principalmente confiança total no ser humano. Não adianta falar em equipe se antes não há confiança total, mesmo após erros do outro, traições do outro.  Talvez por isso o povo japonês consiga sempre ir em frente, apesar de tantas tragédias.

Anúncios
Esse post foi publicado em Review e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

9 respostas para É necessário dizer algo de valor: Taiyou no Ouji: Horus no Daibouken (Isao Takahata)

  1. Panino Manino disse:

    Vaquinha, o arquivo do filme hospedado no Bakabt tem dublagem e legenda em vários idiomas, incluindo o Português. Não percebeu?

  2. Panino Manino disse:

    Consegui recuperar a resenha! http://raisefromyoursubete.blogspot.com/2011/03/horus-principe-do-sol.html
    Graças aos Noots!

    Enfim, quando eu escrevi sobre ele, foi mais por escrever mesmo, ainda estava meio anestesiado pela experiência. Deixei passar a história do Yazuo Otsuka infelizmente, nem me aprofundei nas simbologias que vi no filme, não queria detalhar muito isso.
    Eu gostei muito de ler o que você escreveu sobre ele por causa disso, é bom ver mais gente reparando nos mesmos detalhes que você, e reparando em mais detalhes do que você percebeu. Eu queria mais filmes hoje que embora fossem diretos tivessem o mesmo cuidado nos detalhes que ele.
    A Hilda é uma das melhores personagens que já vi, e isso pela forma como ela é tratada no filme, desde sua movimentação, olhares, as entonações de voz que transmitem uma amargura incrível. É incrível como ela sorri mas de uma forma meio falsa. Sabe sorriso de revista de moda, forçando os dentes? Ela sorri dessa forma, depois canta com uma doçura apenas para desabafar sobre como aquilo causa angústia para ela. Novamente, a voz da dubladora é perfeita.
    Em harmonia com a animação que dá expressões magníficas para ela, sempre meio apática, escondendo as emoções, até que naquela cena dentro da cabana com o comparsa do Grunwald ela fica com raiva e vira a cabeça de repente com um olhar de ódio.
    A cena que ela toca a Espada do Sol e se retrai FECHANDO OS OLHOS, como se tivesse sido ofuscada por alguma luz.
    A cena dela matando a coruja…
    A cena quando ela convoca os animais para atacarem no campo.

    É tanto detalhe magnífico, sei que tem mais, mas reparou como eu só citei cenas da Hilda? Isso mostra como a personagem é incrível e marcante, as imagens das cenas dela ficaram registradas na minha mente.
    Fabuloso filme.

    • Vaca disse:

      Bah cara, que bom que você recuperou.
      Bom, sou suspeito, eu sou fã tanto de animações clássicas como de Takahata e Miyazaki. Pra mim Horus não fica atrás dos grandes clássicos do Ghibli. Talvez Hotaru no Haka esteja um passo a frente, mas é discutível.

      Excelente texto o seu. E concordo, a Hilda é das melhores personagens já feitas. A Hilda é sublime. É fácil justificar a qualidade dela pelo simples fato de ser uma das primeiras personagens realmente complexas, com atitudes e pensamentos contraditórios, uma personagem dividida e de díficil definição. Mas mesmo comparando com o que é feito posteriormente ela segue se mantendo como um grande exemplo de construção de personagem. Miyazaki adora heroínas, mas certamente nenhuma delas tem a complexidade da Hilda.

      É um daqueles filmes que você pode passar cena por cena analisando, e sempre terá algo a mais. Isso é demais. É demais.

      Eu vou postar nos próximos dias sobre os outros filmes da Toei Doga. Não sei se você viu os demais, mas há outros fantásticos além de Horus. Wanpaku Ouji no Orochi Taiji é espetacular, o mais próximo de Horus, e Anju to Zushiomaru é um filme de 61 que foi renegado pelos criadores, porque segundo eles carregaria uma mensagem que eles se arrependeram de colocar. É um filme bem diferente, envolvendo escravidão e suicídio.

      • Panino Manino disse:

        Não cheguei a assistir muitos filmes antigos, a maioria dá trabalho de conseguir.
        Esses dois que você citou tem um visual que me incomoda. De filme antigão assim que me lembro acho que só O Lago dos Cisnes e A Pequena Sereia.

        E Vaca… você é boi?

      • Vaca disse:

        Sim, a vaca é boi.
        E de fato não é tão fácil se acostumar com filmes antigos, mas depois que vai vale muito a pena.

  3. Pingback: Adorável mestre Yasuji Mori | All Fiction

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s