Sayonara Piano Sonata

“Some people just want to fill the world with silly love songs”

Sayonara Piano Sonata surgiu em 2007 como uma série de Light Novels escritas por Hikaru Sugii e serializada na Dengeki Bunko (lar de Baccano, Durarara, Kino no Tabi, Sword Art Online, entre outros). A adaptação para mangá conduzida por Aka Akasaka surgiu em 2011 e acabando em 2012, cobrindo apenas parte da obra original.

Hikawa Naomi é o filho de um famoso crítico de música, e, como tal, tem certo conhecimento de música. Seu hobby é consertar eletrônicos, e ele faz algumas visitas a um ferro-velho (carinhosamente apelidado de “a loja no fim do mundo” ou “a loja que vende o que você quer”) para procurar por equipamentos. Em uma dessas visitas, ele encontra uma jovem pianista tocando no meio do ferro-velho. Depois de uma pequena conversa, Naomi nota que ela fugiu de casa. Os dois andam um pouco juntos, e quando o garoto finalmente a reconhece, ela foge. Era Ebisawa Mafuyu, uma pianista prodígio que havia sumido da cena musical pouco tempo atrás. E, aparentemente, eles jamais se encontrarão de novo.

Dez reais para quem NÃO adivinhar quem é o estudante

Surpreendendo absolutamente ninguém fora do mangá, Mafuyu agora estuda na mesma sala do garoto, e “roubou” a sala onde Naomi entrava para escutar música para ficar tocando guitarra. Porém, a garota não escuta e não gosta de rock, a paixão do garoto. O que vai ser um gerador de fúria, e começar essa história de amor, música e revolução.

Antes de tudo, talvez seja interessante comentar sobre a arte, porque foi o motivo que me fez ler o mangá. É um mangá visualmente bem bonito. Com exceção do character design do personagem principal, que de vez em quando parece mulher, tudo funciona muito bem. O elenco principal do mangá é pequeno e visualmente bem distinto, o que faz todos instantaneamente reconhecíveis sempre que aparecem em cena.

As páginas que precisam brilhar brilham, e como brilham. Principalmente as páginas duplas, que são quase sempre lindas. Marcam muito bem cada um dos momentos mais importantes. Foi a visão de uma delas, Mafuyu tocando seu piano logo no seu primeiro capítulo, que me fez pegar o mangá no mesmo dia.

Essa teria me convencido ainda mais

Mas aspectos puramente técnico-estéticos (animação em animes, arte em mangás, efeitos especiais em filmes, etc) não carregam nada sozinhos. Sayonara Piano Sonata precisaria contar uma boa história para ser uma boa obra. O que ele faz.

Dois pontos precisam ser destacados. O primeiro, o papel que o Naomi tem para a história. Estamos sempre acompanhando as ações dele, as reações dele aos eventos, as reflexões dele. Ele é, indiscutivelmente, o protagonista da série, mas, além disso, ele é o personagem mais trabalhado, de longe. Os conflitos dele são extremamente destacados, as visões de mundo dele são sempre presentes. Até os eventos que acontecem com a Mafuyu são quase sempre mostrados pela ótica dele.

É bom lembrar que Sayonara Piano Sonata é sobre adolescentes, num ambiente adolescente. Naomi é meio obtuso em relacionamentos com garotas, fica com raiva de conflitos bobos, desiste de certos objetivos quando surge a primeira desculpa, pensa demais sobre algumas coisas, enfim: ele é um adolescente. Para o mal e para o bem (sempre presente, apesar de eu ter destacado características negativas), ele é o personagem adolescente mais realista que já vi nessa mídia. Mafuyu, com sua IMENSA tristeza e sofrimento, é um pouco forçada demais por algum tempo. Porém, isso é mudado perto do fim, com um toque de mestre. Voltarei a isso depois.

Outro ponto que realmente precisa ser destacado em Sayonara Piano Sonata é a música. Não o puro conhecimento musical em si: a música clássica é fora do meu território, então não posso julgar, mas as bandas de rock citadas são sempre bem famosas (o que eu não acho ruim, muito pelo contrário). Também não o embate entre clássica VS rock, que é mencionado, mas não é o foco. O foco é o poder da música, como a música influencia nas vidas de muita gente, como a música é meio revolucionária. E aí é outro destaque: ele faz isso MUITO bem. Sempre me dá vontade de tocar um instrumento, de colocar a música pra frente. É bem motivador mesmo, um dos melhores que já vi nesse quesito.

Não consegui me impedir de analisar um determinado evento com spoilers, porque tal evento dá uma luz fantástica ao mangá, e é basicamente o motivo principal pelo qual a obra vale. SPOILERS ADIANTE, NÃO LEIA ATÉ O PRÓXIMO VERMELHO.

Começa no capítulo 15, penúltimo da série. Mais especificamente, em uma sequência bem curta. Quando Naomi e Mafuyu voltam do lixão com o baixo sem nome (aliás, toda a recuperação do baixo é o outro auge do mangá, melhor ponto de longe do tema musical: mas deixemos isso de lado), pai e filha se reencontram, e vemos a situação de outra forma, uma forma muito diferente do que o mangá costumava mostrar.

O enorme problema que Sayonara Piano Sonata tinha, até esse capítulo, era bem simples. A obra, e principalmente a própria garota, sempre tratavam Mafuyu quase como um cristal trincado, feita de dor, sofrimento e tristeza, alguém que a vida e todas as pessoas pegaram pra Cristo. Ela era uma personagem muito exagerada, muito sofredora, muito “coitadinha”. Os choros, as tristezas, a constante tentativa de se afastar de todos, isso se saturava. O que eu costumava pensar era algo como “Caramba, por que ela não entende que todo mundo de vez em quando passa por merda? Por que o mangá não dá uma cacetada nela e joga essa mentalidade besta no chão?”

Até que surgiu essa cena. E em sete páginas, com as frases “He is nothing but a father” e “Mafuyu was nothing but a child”, Sayonara Piano Sonata maravilhosamente virou 180º e me jogou no chão. O exagero no drama da Mafuyu agora ganha um motivo pra existir, um motivo simples e ainda assim perfeito: dramas adolescentes simplesmente são exagerados mesmo, fora da realidade, cegos aos arredores. O que parecia ser forçado, pura e simples escrita ruim, é finalmente justificado: é “forçado” porque precisava ser representado como forçado. É um evento forçado, esses eventos SÃO forçados por natureza. Isso vira a perfeita representação de muito do que a obra se propõe a tratar, de forma melhor do que ela jamais tinha tratado em qualquer momento antes disso.

O mangá não apenas reconhece sua maior falha, ele a abraça, a aceita e a toma pra si em apenas sete páginas, mais ou menos. E com isso, essa falha deixa de ser uma falha, e passa a ser uma das maiores forças de Sayonara Piano Sonata. É um momento perfeito.

E o fim do mangá respeita isso. No seu último capítulo, reunindo Mafuyu e Naomi e criando um final feliz, a obra abraça totalmente a simplicidade que alcançou com duas simples frases, e, porque não, a certa tolice de seus personagens, que tanto combina com essa fase da vida, marcada sim, por exagero, por tristeza, por falta de entendimento e não menos por tolice. E é isso que Sayonara Piano Sonata finalmente entregou com 100% de capacidade, tão perto do fim. Um dos relatos mais verdadeiros sobre a música ganhou outra imensa qualidade, a de ser uma história de amor extremamente verdadeira.

FIM DOS SPOILERS

Sayonara Piano Sonata é, afinal de contas, outra dessas que Paul McCartney e Mark Kozelek chamam de “silly love songs”, dessa vez sobre amor, música e revolução. Não foi a primeira do gênero nem com o tema, também não será a última em nenhum dos dois. Mas se mostrou ciente disso, e como tal, se firmou bem como uma das melhores.

E se você se pergunta, como tantos já se perguntaram, “How can I tell you about my loved one?”; se o seu “loved one” é amor adolescente, música e/ou revolução, então, poucos lugares são melhores para aprender do que Sayonara Piano Sonata.

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Sobre rauzi

Escrevendo para me lembrar que era verdade.
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Uma resposta para Sayonara Piano Sonata

  1. nadia soares disse:

    adorei a resenha, ficou bem legal.
    Esse manga é muito bom e surpreendente. Os personagem são otimos. O meu predileto é sem duvida a garota que montar a banda de rock na escola (me esqueci o nome dela) o que ela disse sobre a amor e revolução ficou gravado na minha cabeça por um bom tempo.
    To escutando a musica q você cita no post, não conhecia a banda, mas to adorando a musica deles, valeu por apresentar.

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