Garoto ou garota? Humano ou robô? Super-humano? Michi! Tezuka

Hora de começar uma jornada pelos clássicos, e ninguém melhor que o Sr. Tezuka para dar o pontapé inicial, não é?

Ao final do texto sobre Jinrui wa Suitai Shimashita eu havia prometido que trabalharia duas das primeiras obras de Osamu Tezuka numa tacada só: Metropolis e Ribbon no Kishi. Mas não tem como, Metropolis tem tanta coisa a ser discutida além da questão masculino/feminino (sua ligação com A Princesa e o Cavaleiro) que merece um texto próprio, deixando o mangá mais célebre de Tezuka no que se refere a discutir gêneros também com um seu espaço futuro. Por fim, mais adiante farei um texto apenas para a questão humano/robô a partir do clássico Astro Boy. Metropolis foi publicado no Brasil pela NewPop. Portanto, façam questão de encomendar o seu volume, pois estarão ajudando de alguma forma com os esforços de trazer mais Tezukas para cá.

Tezuka diz que nunca viu o filme Metropolis, clássico do genial diretor alemão Fritz Lang, uma das obras-primas da história do cinema, mas apenas o seu cartaz. Na verdade tanto faz, embora a estética e a temática do filme estejam na obra de Tezuka a trama se distancia em vários pontos.

Ó um trailer do clássico filme, assistam, ainda mais se forem cinéfilos.

Metropolis é um exemplo de roteiro simples, objetivo, que possibilita qualquer leitor entendê-lo e apreciá-lo, mas ao mesmo tempo nada superficial, e por vezes bastante ousado. Não é trivial, não é banal. E é curto, bastante curto, apenas um volume que você lê num instante. É um turbilhão de argumentos dispersos tanto em falas e ações como em detalhes. É a prova cabal de que ser simples e escrever para jovens não pode de forma alguma ser sinônimo de futilidade e superficialidade.

A paixão da arte de Tezuka contamina. Um estilo muito influenciado pelos cartoons e pela estética de Walt Disney (aqui referenciada diretamente nos milkmaus waltdisneus) e que passa pelos cenários das metrópoles urbanas do cinema norte-americano, bem como retira influência dos quadrinhos de super-heróis. A garota que vende violetas lembra também um dos clássicos do mestre Charles Chaplin. Tezuka admirava esta cultura pop norte-americana em seus tempos dourados.

O plot é simples. Certo cientista foi forçado pelo Partido Red a criar um ser humano artificial, que seria utilizado como arma de guerra. Tal ser é Michi, que embora seja igual ao ser humano, inclusive biologicamente, é artificial. O plot se desenvolve com duas tramas em paralelo: uma sendo a procura do Partido Red por Michi e a outra a jornada de autoconhecimento de nosso(a) herói. Ops, nosso, nossa? Michi não é homem nem mulher, e é ambos os gêneros ao mesmo tempo. Uma discussão que poderia ser mais aprofundada, mas se destaca pela questão de Michi ter sua parte masculina inspirada nos super-heróis americanos e sua parte feminina numa obra de arte, numa escultura. Do homem a atividade, da mulher a passividade; de um a força, de outra a beleza; de um o entretenimento, de outra a arte (!). Uma crítica latente que Tezuka ampliaria em Ribbon no Kishi. O nome Michi foi escolhido porque o personagem não seria homem nem mulher, então um nome neutro.  É interessante notar que em certo momento Michi se veste e age como mulher, embora tenha sido criado como menino, o que denota flexibilidade comportamental surpreendente, ainda mais para o ano da obra, 1949.

Michi cresceu pensando ser humano. Quando descobriu ser artificial foi um choque, que se ampliou quando se viu rejeitado pelos robôs. Sem ser humano nem robô Michi poderia se vingar contra todos, mas num ato de revolução que lembra o filme alemão, o protagonista ganha a confiança dos robôs e inicia a vingança contra os humanos de Metropolis. A cena final é emblemática e trágica, e sintetiza a luta do ser humano consigo mesmo, com suas criações, com a ciência, com a sua mentalidade. Quatro anos após Hiroshima o medo de que o ser humano poderia matar a si mesmo era real e aterrorizante. No fim resta apenas a arte, nossa esperança de reconciliação com nossa humanidade.

A questão é: Michi é humano ou robô? Se é homem ou mulher parece respondido. É ambos e nenhum. Agora, humano, robô, super-humano? Sim, há esta terceira opção, levantada quando ele tenta reparar injustiças, como na caso da amiga que vendia flores. Michi é sereno e tranquilo, dócil, como uma pessoa, mas quando está fora de si é violento e repetitivo, como uma máquina. Michi é emocional. Ou será que tudo isso não teria sido implantada pela programação do cientista? A personalidade de Michi é real ou criada?

Não acho que tenha resposta única. Michi é tudo isso ao mesmo tempo: humano, robô, super-humano, homem, mulher. Michi é o resultado científico que por vezes se eleva para além da justiça humana, mas também pode descer à vingança mecânica e bestial. Mas Michi faz tudo não só motivado por si, mas por suas relações com seres humanos e robôs. A questão da ciência é sua instrumentalização. Se ela cura ou mata, cria ou destrói, nos cria ou nos destrói, depende de nós. No fim, não se discute a ciência, mas a própria humanidade. Michi não é evolução da humanidade, apenas mais uma tentativa.

Ok, hora de relacionar tudo isso. Metropolis entra na questão da identidade, tão forte na primeira metade do século, vide o que foi feito com judeus, negros, homossexuais, etc, e mesmo com o esforço nazista e fascista de levantar suas identidades. É um argumento muito forte para o que vem depois, com a questão dos nacionalismos, inclusive no Brasil. E é um argumento formidável na pós-modernidade e seu pluralismo aparentemente relativista. Existe identidade hoje? O que é identidade? Ser homem ou mulher define você? Hetero ou homossexual? Deste ou daquele país? Cristão, muçulmano, judeu ou ateu? Europeu, americano, latino, africano, asiático? O que importa são esses elementos ou as atitudes? Michi foi citado como o melhor humano possível quando reparou a injustiça cometida contra sua amiga na escola. Não estaria por aí a ideia de identidade? Muita coisa já foi escrita sobre isso, muitos filmes produzidos, etc. Mas um mangá de 1949 abordar tal questão tem seu mérito, definitivamente.
O tema da busca pela identidade talvez seja o ponto-chave de Metropolis. Todo o esforço de Michi está em procurar seus pais, ou seja, sua origem, sua identidade. Mas não existem pais de Michi, a menos que você considere o cientista como tal. Não há uma identidade original, mas um processo histórico que se perfaz a partir das experiências. Não importa a origem de Michi, mas o que ele faz a partir daí. E é a ideia de identidade imersa na Metropolis, que simboliza este mundo contemporâneo, complexo, tecnológico, repleto de pluralismos culturais, que trazem tanto diálogos como preconceitos, ao mesmo tempo que aproxima, distancia. O pluralismo cultural é um mundo de contradições que relativiza a identidade. Talvez o passado e a origem identitária de Michi seja apenas uma ilusão ou um mito.

Eis Metropolis: rápido, simples, objetivo, divertido, e ao mesmo tempo problematizador e ousado. O objetivo não era esgotar a obra, que oferece discussão a cada detalhe. Poderíamos discutir a influência da Disney, a questão dos robôs, das organizações secretas, dos cientistas perdidos e enrolados, das injustiças sociais, das atitudes de Kenichi, de tantas coisas, e com tão poucas páginas. Mas não importa, o objetivo mesmo era mostrar o que um autor de outro nível pode fazer.

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