Ácido I: Jinrui wa Suitai Shimashita (Arco da Fábrica)

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Cerebral e pirado.

Jinrui é humor nonsense recheado de críticas a Deus e ao mundo. É um verdadeiro bang-bang (que teve referência no segundo episódio). A probabilidade de você já estar morto por um dos tiros é alta, porque se você não se feriu ou se viu como envolvido em várias daquelas críticas (para não dizer todas) é melhor começar a rever alguns conceitos.

Cada cena, cada detalhe, cada ideia colocada é uma crítica ácida a algo. É desnecessário trabalhar tudo. Primeiro porque exigiria um esforço gigantesco, e segundo porque a maioria das críticas são facilmente compreendidas. Tentarei focar-me no que é essencial. Mas, reitero: é importante que você tente pegar todos os detalhes, ou o máximo possível, porque para além do principal, este anime traz lateralmente muitas discussões importantes para a atualidade. Ademais, é no conjunto integral das críticas que se compreende a decadência da humanidade.

Não há revolução alguma. Jinrui não é inovador nas temáticas. Nada discutido no primeiro arco é realmente novo. A inovação está no enredo sofisticado e ácido.

Mas vamos lá. É a decadência ou diminuição da humanidade? A queda é qualitativa, quantitativa ou ambas? Acho que as duas coisas. A humanidade diminuiu em população, sendo reduzida a pequenas vilas (oposto da globalização?), mas também decaiu em qualidade. Na conversa da protagonista com as fadas no primeiro episódio, após as criaturinhas adoráveis e intrigantes dizerem que é o fim de uma cultura materialista e da espécie humana, três imagens são mostradas em sequência: uma torneira pingando, uma vela, e livros empoeirados na estante. Acredito que grande parte do argumento para a decadência concentre-se nestas questões: o problema dos alimentos e da água; o problema da energia (praticamente esgotada no mundo onde se passa a história); e o problema da cultura (ou perda dela). Este primeiro arco trata essencialmente do primeiro argumento. É um mundo já decadente, e que agora vê seus últimos dias. Por trás de tanta comédia o episódio é essencialmente pessimista.

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Aliás, a comédia inteligente sempre foi utilizada como um recurso formidável para o despertar social. Fazer você rir de uma situação existencialmente emblemática coloca-o diretamente no seguinte dilema: eu ri, então ok, eu concordo que isto é errado, logo devo mudar. A comédia em Jinrui não possui fim em si mesma, mas cumpre este papel instrumental. E mesmo que você não seja alguém que consiga se divertir com suposto humor nonsense, convenhamos, ainda assim deve entender as críticas e pensar a respeito. Rindo ou não, o objetivo fundamental é refletir.

O plot é aparentemente simples. Não há comida, e de repente alimentos suspeitos (da marca Fairy Co) surgem na vila. O mistério precisa ser resolvido e para isto a protagonista, representante da ONU, é indicada para a investigação. Esta é a trama principal do primeiro episódio: a falta de comida, uma questão quantitativa. Como resolver o dilema da comida? Este é o problema até aqui.

Mas já na segunda parte do primeiro episódio desloca-se a discussão para outro ponto. A protagonista, seu assistente e seu chefe vão até a fábrica da Fairy Co proceder com a investigação. A bizarra fábrica possui um recepcionista, um diretor, e mais nada. De resto, apenas automação, produção em massa. O impagável Pão denuncia toda a situação alarmante: “você pode fazer pão até com lixo”. Antes o próprio recepcionista já comentara que a produção em massa jamais seria capaz de produzir algo da qualidade de um trabalho artesanal, feito individualmente e especialmente para determinado cliente. A produção artesanal tem uma pessoa específica como destinatário, aquele sujeito, com suas preferências, contrariedades, que pagou pelo serviço. Eu quero de um jeito, você de outro, e somos atendidos em nossas especialidades. A indústria de massa, do pão ao cinema, do carro à literatura, não conhece pessoa alguma, é apenas produção em larga escala que visa um tipo médio de ser humano, que certamente não atinge a particularidade de ninguém. Produção medíocre que gera mais mediocridade. A crise dos alimentos, então, não é apenas quantitativa, mas qualitativa.

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Não é uma questão de tecnologia, mas de ausência do ser humano. O problema não é automatizar a indústria, mas não haver mais pessoas para controlá-la. Hoje consumimos coisas que não são feitas por seres humanos. E pouco importa, contanto que tenha o gosto de sempre, que tenha a superfície de sempre. Se na realidade é trigo ou lixo, tanto faz. Se é um clássico ou um filme de porcaria, tanto faz, é filme. É uma verdade que assola não apenas as indústrias, mas praticamente todas as esferas de vida do ser humano. E o mais triste é que esta discussão não é nada, nada nova. Ok, você pode não concordar com decadência, como o anime argumenta, mas convenhamos que ao menos estagnamos. Não é uma questão tecnológica ou científica, na qual aí sim tivemos grandiosos progressos, mas cultural, existencial, humana. Desde Husserl, e nas artes ainda antes, vários intelectuais alertam para esta crise profunda em nossa sociedade. E ninguém deu bola.

Após perceber que não há qualquer ser humano na fábrica, além do recepcionista e do diretor charlatão, nossa protagonista passa a se perguntar: então quem está no controle? Sua hipótese: as fadas. Esta pergunta é central em todo o segundo episódio, assim como o problema da alimentação foi no primeiro. Inteligente e refinado, a questão extravasa o ambiente industrial e alcança a nossa sociedade como um todo: na ausência do ser humano, ou na decadência deste, quem está ou estará no controle? Temos controle de nossa sociedade?

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Superficialmente falando podemos dizer que o arco da fábrica é uma crítica às fábricas, ao mundo empresarial, e que este é um dos pilares da decadência. Ok, de fato há esta crítica. Entretanto, penso que o argumento fundamental, interior a este, é o da desumanização de nosso mundo, da retirada do ser humano do controle de seu mundo. Uma retirada tão brutal, a ponto de sermos controlados por fadas (ou em alguns casos, galinhas depenadas). Externamente nosso fim deve ser pelo esgotamento quantitativo de bens, mas esta redução só ocorre porque antes estamos decaindo qualitativamente.

E ainda sobra espaço para muitas outras críticas, para ninguém colocar defeito e todos saírem felizes (ou de mimimi). ONU, juventude alienada, papel da mídia (câmeras são armas na visão das empresas), etc, etc. Enfim, são muitos os temas laterais tratados no primeiro arco. Todos válidos, e todos conectados.

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É tudo tão pensado que por vezes me coloco a questionar: será realmente humor nonsense? Jinrui é uma obra cerebral, com cada detalhe estando em seu devido lugar e cumprindo certo escopo. Não há informações aleatórias ou jogadas. O autor possui pleno domínio do mundo que construiu. Não é algo tão simples. Há ordem nesse nonsense aí.

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