Sakamichi no Apollon: romances, jazz e uma noviça rebelde

ATENÇÃO! SPOILERS EVERYWHERE! Se não assistiu ainda a série, vá imediatamente. Depois volte, ok?

Sakamichi no Apollon (Kids on the Slope) despertou interesses antes de iniciar. Baseado no mangá de Yuki Kodama, vencedor da cobiçada categoria geral do 57º Shogakukan Manga Award, ainda contou com uma equipe técnica invejável.  Primeiramente pelo retorno do tão aclamado diretor Shinichiro Watanabe, inativo desde Samurai Champloo (2004) e com a trilha sonora a cargo da excelente Yoko Kanno, que já mostrara sua competência em obras como Escaflowne e Cowboy Bebop (também dirigido por Watanabe, sendo o anime mais popular dos anos 90 ao lado de Neon Genesis Evangelion).

Esta resenha se compõe de duas partes. Primeiro uma introdução à trama e aos personagens. Depois um estudo mais subjetivo acerca do papel do jazz no desenvolvimento da trama. O objetivo será mostrar que Sakamichi no Apollon não fala exatamente de jazz, mas o utiliza para revelar dinâmicas e sentimentos que muitas vezes dificilmente seriam expressos em palavras ou mesmo ações.

Introdução,  personagens e alguns aspectos do anime

O anime, cuja trama se desenrola em 1966, conta a história de Nishimi Kaoru, garoto que se muda constantemente por causa do trabalho do seu pai, impedindo a continuação de suas amizades. Vivia uma monótona vida, solitária, chata e cansativa: reduzida a estudar bastante para poder entrar para alguma faculdade respeitável. Tudo isso é mostrado com perfeição no primeiro episódio do anime, com o protagonista reclamando de tudo a sua volta enquanto subia a íngreme e interminável ladeira. Depois desceria feliz a mesma ladeira, junto com seus novos amigos (Sentarou e Ritsuko), que o farão ver o mundo de outra maneira.

Kaoru, ou Riquinho como será mais chamado, começa a mudar. Constrói um forte laço de amizade com ambos, além de se apaixonar por Ritsuko, e estes lhe apresentam o Jazz, que também se tornará uma de suas paixões. Kaoru agora parece feliz e ‘vivo’, em contraposição a apatia mostrada no início do anime – o que também é refletido em sua música, que começa a ganhar vida, antes utilizada somente para preencher o vazio (solidão pela ausência de seus pais e pela falta de amigos). Agora toca por prazer. Subir a ladeira não parece mais algo tão desgastante e terrível, não é?

Mas o protagonista não é o único personagem interessante. Seu grande companheiro, Kawabuchi Sentarou, provavelmente é o mais carismático dos personagens. Alto, forte e conhecido como o valentão da escola (fama injusta, porque praticamente todas as brigas que esse se metia tinha uma boa causa), Sentarou prova ser bem mais que isso. Um bom amigo, amante do jazz e que enfrentou situações complicadas, que batem completamente com os dados históricos do Japão daquela época. Sentarou é filho de uma japonesa com um soldado americano, o que causa um enorme conflito em sua família – ressaltando a dependência do Japão aos EUA após a Segunda Guerra Mundial, descaracterizando sua cultura e, obviamente, absorvendo a norte-americana (no anime, metonimizado principalmente pelo jazz). Também é fundamental referenciar que tanto Sentarou como Ritsuko são católicos. Aliás, se houvesse tempo e espaço para tanto, a religião mereceria um tópico a parte para reflexões sobre SnA.

Ofuscada por Kaoru e Sentarou, a simpática Ritsuko representa a típica garota dos anos sessenta. Mesmo sendo simples, de forma alguma chega a ser rasa. Episódios como o 7, o 11 e o 12 revelam sua íntima conexão com Maria, a noviça rebelde vivida por Julie Andrews no agradabilíssimo The Sound of Music (Robert Wise, 1965). Ambas são garotas cheias de vida trancadas em mundos acorrentados por regras, sobretudo religiosas, uma no Japão dos anos 60, outra na Áustria dos anos 30. Porém, há ressalvas: Maria é muito mais assertiva e realizadora, capaz de transformar o mundo a sua volta. Já Riko mais é transformada que transforma. Seria Maria um ideal buscado por Riko?

Já o personagem mais cool, Katsuragi Junichi (Mano Jun), trabalha com outro aspecto do Japão dessa década. No contexto de Guerra Fria, o Japão era o polo capitalista do Oriente, cercado por vários países socialistas. Essa instabilidade política é mostrada pelos movimentos universitários que Jun participava em sua faculdade, além de mostrar com perfeição a dura repressão feita pelo Estado, causando impactos na personalidade do personagem. Outro fato interessante explorado pelo anime é a amizade deste com o Sentarou, a ponto do Sen ver o Jun como um ‘modelo’ a ser seguido, sendo esta amizade tão intensa que leva Sentarou perdoar Junichi por ficar com sua amada. Jun traz como background outro mundo daqueles conturbados anos: se o cenário do anime é uma cidade pacata, não se ignora que nas metrópoles o pau comia solto com contracultura e movimentos estudantis.

Yurika Fukahori também demonstra outro aspecto da época. Garota rica, confusa entre seguir os padrões convencionais de uma família de elite (incluindo casamento arranjado) e a atitude rebelde de quem anseia liberdade, insere elementos (ainda que iniciais) da luta pela independência feminina (antes submissa à família e depois ao marido). Yurika desobedece aos pais e foge com o homem que ama, indo para o olho do furacão da revolução. É nítida a influência de Jun, que desperta o lado aventureiro e independente que já existia nela, ainda que adormecido. Ilustrativa é a cena que, para ajudar Riko a tirar o novelo de lã do lixeiro, Yurika arregaça as mangas e mete as mãos sem pudor algum, algo que uma ojou-sama jamais faria.

Adiciona-se que o anime possui dois pseudos-triângulos amosoros, um formado pelos três personagens principais (Kaoru, Ritsuko e Sentarou) e outro por um destes e dois secundários (Jun, Yurika e Sentarou). Ambos foram bem desenvolvidos a ponto dos personagens muitas vezes se depararem em situações em que a amizade e o amor se chocavam, e que eles tinham que tomar difíceis decisões.  O que poderia ter sido um revés ao anime por ser algo comum, só foi algo que o fez ainda melhor.

O final do anime traz uma bela mensagem. Após todas as adversidades do destino, que culminaram em oito anos separados e Kaoru volta a levar vida parecida com a que tinha antigamente: monótona, cansativa e solitária, ao ter uma pista da localização de Sentarou, o protagonista ganha nova esperança de recuperar todas aquelas boas emoções adquiridas em sua adolescência. Como o próprio diz, seu coração começa a bater forte novamente.

Infelizmente, nem tudo é perfeito. Shinichiro Watanabe teve somente doze episódios para adaptar um mangá de nove volumes e conseguiu um excelente resultado. Porém, se o anime tivesse uma maior quantidade de episódios (mais dois, três, ou quem sabe até mesmo dois cours, é pedir demais?), poderia ter explorado melhor coisas que ficaram esquecidas , como o que aconteceu com a mãe do Kaoru, e transpor melhor os episódios finais, que ficaram corridos, fazendo perder grande parte do feeling.

Mas Sakamichi no Apollon fala de jazz, não é? Não, o jazz fala de Sakamichi no Apollon.

 

Uma história contada com e pelo swing

O cenário é o emblemático período dos anos 60, que contrapunham cidades afastadas e tranquilas à efervescência das contraculturas e de movimentos políticos nas grandes metrópoles.  Musicalmente é o boom do rock, que crescerá tanto em popularidade que provocará diálogos com o jazz, um gênero já consolidado há décadas, resultando no surgimento do jazz-rock. E ainda temos uma terceira via, a música erudita. Os três gêneros terão seus representantes no anime. É interessante notar que na comparação com a música erudita os jazzistas se veem como mais livres e modernos, mas ao mesmo tempo não viam o advento do rock com bons olhos.  O jazz é um gênero musical complexo, ao menos em algumas de suas principais correntes, pois de fato improvisação e swing não são elementos simples a serem inseridos em uma música. Por outro lado o rock era bastante simples. A questão não é meramente técnica, mas refere-se também ao mercado, à popularidade, o rock nasceu para ser popular e fácil, nasceu para vender. E este fato mercadológico foi recebido sob protestos pelos demais gêneros já estabilizados. Não apenas os artistas do jazz se contrapunham ao rock, mas do blues, do folk, etc.

Antes de iniciar esta análise façamos uma ressalva: não há qualquer menção à música japonesa. Embora existissem artistas japoneses capazes, inclusive no jazz, eles sequer são citados. As referências são norte-americanas, como Miles Davis, Art Blakey, John Coltrane, etc. É uma história de música ambientada no Japão, mas que poderia ser em qualquer lugar do mundo que naquele momento recebesse influências da cultura norte-americana.

Nossa análise se centrará em algumas cenas específicas de música. O objetivo é demonstrar como o jazz não apenas se relaciona com a dinâmica vivenciada pelos personagens, mas as revela em sua intimidade.

Kaoru é pianista com formação na música erudita. Mas desde o primeiro episódio o piano revela-se como um refúgio para sua solidão, o único espaço onde podia aliviar-se da dor dos pais ausentes. Não sem razão o seu estilo é formal, sério, previsível.

A previsibilidade de Kaoru se chocará com o swing de Sen. Kaoru tenta tocar jazz na loja do pai de Riko e é debochado pelo grandalhão, que ao vê-lo tocar Moanin’, de Art Blakey and the Jazz Messengers, reclama que o Riquinho não coloca sentimento na música, e sem sentimento não há jazz.  Este é um estopim para Kaoru comprar o disco e se enfiar na prática. Aliás, é digno de nota que os olhos de Kaoru se abrem quando vê toda a fluidez de Sen ao tocar a bateria. Comparado à frieza sem brilho de seu piano momentos antes, a bateria jazzística de Sen é pulsante em vida.

 

Aqui abre-se uma interrogação: Kaoru vai treinar o jazz por que Sen o desafiou? Vai treinar por que Riko pediu e seria uma forma de se aproximar dela? Vai treinar porque viu ali uma forma de construir uma relação de amizade com Sen? Ou vai tocar porque o jazz despertou uma parte dele? Será que o jazz não o libertou de seu próprio trancamento? A música erudita, para ele, significava a prisão domiciliar e de sentimentos familiares em que vivia. Um mundo de solidão e sem saída. Mas eis que surge uma porta: o jazz. Não o jazz em si, mas o que ele representa: liberdade, fluidez, fuga das normas, improviso… tudo aquilo que Kaoru precisava. Kaoru foi até a loja comprar um disco de música clássica, ou seja, alimentar seus problemas, mas acabou comprando jazz, agradável novidade. Tal mudança fica mais evidente na session do episódio 2, quando Sen, o pai de Riko e o trompetista Jun iniciam uma jam e Kaoru inicialmente trava, não consegue acompanhá-los, mas com as palavras de Sen, de que ele precisaria apenas se soltar e ‘fazer barulho’, nosso pianista começa a se libertar. Dali em diante temos uma intensa luta interna de Kaoru para se abrir ao mundo. Da sua tentativa bagunçada de fazer barulho ao jazz.

Moanin’, música creditada a Bobby Timmons, integrante de Art Blakey and the Jazz Messengers, foi composta com o objetivo de destacar toda a energia e intensidade dos membros do grupo. Moanin’ é frenética, e seus toques de funk parecem realmente ‘gemer’. Não haveria uma semelhança com o momento que o grupo de SnA começaria a vivenciar?

No episódio 3 vemos Kaoru apresentando para sua amada Riko a música favorita dela, a célebre “Someday My Prince Will Come”, de título autoexplicativo. Porém, o que segue é uma exibição sem graça e previsível, vazia de sentimento, a ponto de Riko realmente não compreendê-los, e pensar estar sendo cobaia de para uma apresentação oficial posterior a outra garota. Observem que durante a apresentação de Kaoru são mostradas várias imagens dele estudando a música e a praticando com completa concentração. Kaoru fez enorme esforço intelectual, racional, mas esqueceu de pôr o coração na música.

O episódio 4 traz uma das mais belas exibições do grupo. Jun convida os demais a se apresentarem no clube para norte-americanos. Na plateia, Yurika e Riko. A presença da amada deixa Sen tímido e sem inspiração. Kaoru tenta acordá-lo usando o piano. Sen reage com sua bateria. E o resultado encaminhava-se para uma exibição enérgica. Encaminhava-se. Certo cidadão bêbado interrompe a festa xingando o ‘cool jazz’. O decadente queria ‘jazz de brancos’. Sobre a polêmica questão do jazz de brancos e do jazz de negros temos este excelente texto referenciado.

E o herói da noite é Jun, que tem a sacada de verificar com Kaoru, de formação clássica, se ele conhecia But Not For Me, de um dos maiores gênios da música no século XX: George Gershwin. O resultado é um dueto piano e trompete agradável, embora não espetacular, acompanhado pelo vocal de Jun, que recita o famoso trecho “They’re writing songs of love, but not for me, A lucky star’s above, but not for me”. Se a felicidade existe, certamente ela não sorrirá para mim. O clima angustiante e inclusive depressivo desta canção já pressagia a complexa situação existencial que Jun logo entraria.

No episódio 6 temos a introdução de uma das principais músicas do anime: My favorite things, de versão imortalizada por John Coltrane. Aliás, de um modo bastante interessante. Kaoru e Riko conversam na sala de aula enquanto ressoa de outro ambiente a citada canção durante o filme The Sound of Music (1965 – A Noviça Rebelde, no Brasil), de Robert Wise. Perguntada por Kaoru, Riko comenta com tristeza que adoraria ter assistido o filme e só não o fez por falta de atenção, pois quando estava disponível havia a sensação de que poderia ser visto a qualquer momento, quando ela bem desejasse. Foi postergando, e a hora passou. O sentimento identifica a dor de perder chances que podem não voltar mais. E são chances perdidas por descuido, por subestimar o tempo e as oportunidades que a vida oferece, assim como o descuido de pensar certo amor próximo pode ser conquistado ou segurado a qualquer momento.

Mas o episódio 6 ainda traz novas surpresas: Matsuoka e o rock, ou mais especificamente, a beatlemania. Sen chega ao porão da loja com um disco dos Beatles, deixando Kaoru curioso e desconfiado. “Será que ele vai ouvir?”, teme Riquinho. É um disco emprestado por Matsuoka. O medo de Kaoru com o rock nada tem a ver com música, mas com seu dilema envolvendo amizades. É o medo de que Sen passe a gostar de rock e se junte à turma de Matsuoka, e abandone o pobre Riquinho.

No episódio 7 vários elementos são levantados. De início cabe destacar a crítica ao rock privilegiar a popularidade à qualidade. Para a banda de Matsuoka era mais importante escolher que músicas que agradassem as garotas que músicas realmente melhores. Não é necessário explicar o papel dos figurinos e maquiagens como apelos de marketing.

E agora o grande golpe no rock, ou ao menos em sua faceta convencional. Alguns veteranos desligam a energia, deixando Matsuoka órfão de seus intrumentos elétricos. O jovem grupo é acusado de apenas querer se exibir com suas guitarras caras. Uma crítica leviana ao rock, desmentida em seguida por Sen, que defende ser o objetivo de Matsuoka real e honesto: sustentar a família. O que parecia ser uma crítica ao rock revela-se uma citação simplista, pois seria ingênuo transpor a realidade de Matsuoka à maioria dos popstars do rock sessentista.

Eis agora: a sequência da cena é uma das mais belas da série. Primeiro Sen recusa o convite para continuar na banda, afirmando que jazz é mais do seu estilo e que teria deixado um amigo esperando (My favorite things?). Kaoru ouve, e instantaneamente lhe vem à mente a imagem de sua infância, de como ansiava receber cartas de um amigo que não mais encontrara. Kaoru sente bastante a dor da solidão e de ser abandonado por amigos queridos. A simples possibilidade de isso ocorrer novamente, agora com Sen, aterroriza-o. E ouvir aquelas palavras de Kawabuchi foi uma lufada de revigoração. A decisão que toma ali é interessante: decide agradar o público enquanto a energia elétrica não retorna, isto é, tocará jazz. Obviamente Sen se junta assim que My favorite things começa a encantar o ambiente. E assim temos o grandioso medley de toda a série.

O episódio 7 é definitivamente uma linda homenagem à amizade. My favorite things não é apenas a resposta de Sen, mas também o sentimento mais importante para Kaoru, pois além do amigo traz junto Riko, que imediatamente recorda a charmosa cena da conversa sobre a Noviça Rebelde. A discussão sobre coisas favoritas seria retomada explicitamente no episódio 11, após o ensaio para o festival do ano seguinte, em uma cena que remete diretamente a um dos momentos mais importantes da trama de The Sound of Music.

O medley continua com Someday My Prince Will Come, e de modo tão intenso e belo que Riko menciona, em lágrimas, que seus dois parceiros parecem realmente príncipes, situação bem diferente da fria apresentação de Kaoru para ela no episódio 3. E como nem tudo precisa ser sentimental e melodramático, o medley termina magistralmente com Moanin’, a faixa símbolo de toda a obra. Depois da roupa lavada e da emoção, é hora de gemer.

Após a apresentação, em meios aos aplausos da plateia (puxados por Yurika, diga-se) Sen puxa Kaoru pela mão e começam a correr para fora do ginásio. E esta atitude assombra Matsuoka, pois percebe que os dois não estavam lá para agradar o público, não estavam lá apenas para buscar aplausos, mas estavam lá porque aquilo lhes fazia felizes. É tocar jazz que lhes dá alegria, e não receber aplausos. Esta mensagem seria fundamental para Matsuoka refazer seu planejamento de carreira, a ponto de afirmar que esqueceria o festival do ano seguinte, e que iria muito mais longe, tão longe que eles não poderiam alcançá-lo. Dependendo da perspectiva em que você vê, isto de fato acontecerá. Teriam Beatles e outros grupos pop do rock dos anos 60 ido mais longe por não abandonarem o prazer com a música e assim não estagnarem no comercial bem sucedido?

A música terá ainda dois momentos de significado que transcende o simples enredo do anime: o duelo entre Jun e Sen no episódio 9 e os ensaios com Riko no vocal no episódio 11. No primeiro temos um caso de como o jazz é aberto a múltiplas possibilidades. A bateria e o trompete se transformam em armas que não matam, e os punhos são trocados pelas notas e barulhos.

O episódio 11 traz o jazz acuado diante da expansão comercial do rock. Mesmo tendo feito sucesso no festival do ano anterior, os protagonistas desesperam-se, porque sabem que se não surpreenderem não arrebatarão a popularidade dos popstars do rock. O que antes era um incômodo ao jazz agora é real ameaça. A inovação seria Riko no vocal de My favorite things. Uma ideia interessante que também remeteria à noviça rebelde, mas violentamente abortada pelo acidente de Sen. A promessa de brilho de Riko esvai-se para não voltar mais. Por outro lado é jazz, e jazz se baseia nos improvisos, no swing, nas mudanças, e não necessariamente no final feliz.

 

O episódio final traz muitos acontecimentos em pouco tempo, e a direção teve competência para conseguir brindá-lo com várias referências aos episódios anteriores, como Kaoru tirando o pano de cima da bateria, como fizera com Sen no primeiro episódio, os dois amigos saindo correndo após a apresentação, como no episódio 7, ou o corte de cabelo à la noviça rebelde de Riko. Ah e claro, é Moanin’ que fecha a série.

Para encerrar este longo texto: eles amam o jazz, obviamente. Mas não há odes ao jazz. Não há discussões e preocupações centradas no jazz. Não há um episódio sobre jazz. É tudo sobre relações e pessoas. Mas o jazz sempre está lá, porque o jazz é a forma de comunicação entre eles, uma transmissão invisível e profunda dos reais sentimentos de cada um. Uma batida violenta de Sen fala mais que uma hora de palavras desorganizadas e mal selecionadas. Uma execução fria de piano não alcança o coração de uma garota. Talvez Schopenhauer estivesse certo, talvez a música seja realmente a mais nobre das artes, porque ela desvela a vontade, desvela o próprio mundo. A música não fala daquilo que queremos falar, mas de nós mesmos.

Sakamichi no Apollon não é apenas um anime sobre música. Sakamichi no Apollon tenta nos mostrar o papel da música permeando as relações humanas. Sakamichi no Apollon é jazz. E isto é mais difícil que falar de jazz. Talvez o anime merecesse um texto mais técnico, mostrando como há improvisos, quebras repentinas, como o enredo se desenvolve fluidamente tal como o jazz. Mas aí seria coisa demais. Estudo demais. E raciocínio demais pode prejudicar o swing.

Sakamichi no Apollon foi o melhor anime da primeira metade de 2012, desbancando obras como o pomposo Fate/Zero ou o espetacular Nisemonogatari. Provavelmente será o melhor anime do ano. Isso se deve ao ótimo desenvolvimento de personagens, a ótima direção acompanhada pela excelente trilha sonora e ao roteiro, que mesmo sendo simples, consegue apresentar ótimas referências históricas, musicais, cinematográficas, políticas, etc. Enfim, um anime para ser apreciados nos detalhes.

PS: Quem acha que será o melhor do ano é o Hegff. Eu ainda estou no aguardo do desfecho de Uchuu Kyoudai, que é quase certo que tomará este posto, e já comecei empolgado com o divertidíssimo Jinrui wa Suitai Shimashita. Não acredito que SnA manterá este status não haha. Ass: Zappi0

Outras excelentes resenhas:

Subete Animes

Nahel Argama

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Sobre Hegff

Apenas mais um perdido neste mundo.
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2 respostas para Sakamichi no Apollon: romances, jazz e uma noviça rebelde

  1. Kuzoshi disse:

    Quero parabenizar ambos pela inauguração do blog All Fiction com o pé direito, pois escolheram um ótimo tema para iniciarem e o abordaram de uma ótima forma. Como eu disse, gostei do texto, através dele o enredo, o Jazz e a relação dos dois foi exposta de uma bela maneira.

  2. Den-chan disse:

    Cara, Sakamichi no Apollon foi um misto de emoções para mim e primeiramente, dizer que essa frase: “é jazz, e jazz se baseia nos improvisos, no swing, nas mudanças, e não necessariamente no final feliz”, simplesmente me ganhou. Fez com que o texto ficasse… Perfeito!
    Sabe, eu nunca fui muito de escutar música, e já sabia que a música invade as pessoas de uma forma incompreensível. Entretanto, ao assistir Sakamichi… Eu consegui me sentir tocada! Pelo jazz, principalmente, que era como se… Transportasse os sentimentos de quem tocava para mim.
    As cenas são perfeitas e o protagonista, falando sobre o momento de agora… Que era tudo que ele queria, foi impactante.
    Às vezes me identifico com o protagonista, como se eu precisasse me prender a algo para esquecer, ficar num mundo meu, sabe? E aí, eu o vi… Rodeado de amigos, com algo que o trazia liberdade, esperança e rodeado de pessoas.
    Sakamichi meio que mudou meu jeito de ver as coisas, encheu-me de alegria, tristeza… Eu não sei ao certo o que dizer, reconfortou e esmagou certos conceitos.
    Eu simplesmente viciei em Sakamichi, do primeiro ao último epi e viciei no texto de vocês, que ficou perfeito… Detalhado, informativo, poético, eu diria xD
    Parabéns mesmo

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